Políticas de saúde pública podem mudar cracolândia

Folha de São Paulo
Um projeto efetivo para a região deve oferecer modelos preocupados com a diversidade dos usuários da droga

A cracolândia existe há mais de 20 anos sem nunca ter merecido uma política de saúde estruturada e duradoura. Todos esses anos, o apoio aos usuários tem sido dado por líderes religiosos e membros de ONGs, que atuam sem recursos e de forma heroica.

Dentro desse contexto, não poderia ser de outra forma a maneira explícita como o crack é comercializado e consumido, a ocupação desordenada das casas abandonadas, as barracas improvisadas nas calçadas para abrigo e consumo da droga e o lixo acumulado.

Tudo isso é o reflexo do descaso e do abandono daquela região. A impressão é a de que qualquer coisa pode acontecer ali, já que ninguém vai aparecer mesmo.

Nesse cenário caótico, vivem ou frequentam os usuários dessa droga, boa parte com um grau de desestruturação social e de desorganização psíquica semelhantes à infraestrutura do local.

Trata-se de uma população heterogênea, formada por homens, mulheres, transgêneros, jovens, idosos e grávidas. Alguns desejam parar, uns diminuir, outros desejam permanecer nessa condição.

Intervenção como a de anteontem, noticiada inicialmente na internet e nos telejornais da noite como “a maior intervenção já vista no local”, amanheceu nos jornais impressos retratada como mero (e mais um) “faxinão”, que apenas espalhou os usuários, que voltaram ao local após o anoitecer.

Acreditamos que assim como qualquer outra droga ilícita, o uso público de crack não deve ser tolerado, deve ser coibido.

Um projeto efetivo para a cracolândia deve oferecer modelos preocupados com a diversidade dos usuários e que incluam os agentes que já atuam nessa região.

Equipamentos de saúde perto da cracolândia, de fácil acesso e com propostas maleáveis, especialmente moradias assistidas, são essenciais para aproximar o usuário do atendimento público e para oferecer àquele que decide interromper o consumo o apoio psicossocial que a maioria deles perdeu.

Da mesma forma, agentes de saúde, voluntários e redutores de danos que atuam no local podem alcançar e interligar os usuários de crack aos serviços mais adequados para suas necessidades.

Em resumo, uma rede de serviços, integrada a uma

rede de captação de usuários com diferentes propostas de atenção e de tratamento. Isso entendemos como uma intervenção.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)