Infância tenta sobreviver à Cracolândia

Diário de São Paulo
Não há estimativa do número de menores usuários de crack no Centro.

Rodeado de outros usuários, a menos de 50 metros de um carro de polícia, um dependente químico acende o cachimbo para fumar crack. As roupas em farrapos, o corpo imundo e a situação de confusão mental já bastariam para provocar pena. Porém, pior, trata-se de uma criança consumindo a droga.

Entre os usuários de crack do Centro, muitos são crianças e adolescentes em situação de rua, mas ninguém sabe quantos eles são. De acordo com a Secretaria Municipal da Assistência Social, um censo dos dependentes químicos foi feito em dezembro, mas os números ainda não foram divulgados.

Na Rua Mauá, número 36, em frente à Cracolândia, no Centro, fica a Tenda Mauá, espaço de convivência de crianças e adolescentes que está em funcionamento desde o início de novembro, mas ainda não foi oficialmente inaugurado. Ali, sob a gerência do pedagogo Vlademir Mozini, de 40 anos, 25 profissionais, entre assistentes sociais, psicólogo e orientadores, é feito um trabalho persistente de abordagem e encaminhamento dos menores.

“Em média, é necessário abordar a mesma criança na rua de três a seis vezes. Eles temem ser presos, muitos são até procurados pela polícia”, diz Mozini. “Uma vez que ela seja convencida e venha ao espaço de convivência, ela passa pelo psicólogo, assistente social, toma um banho, ganha roupas limpas e um lanche. Dependendo do que for observado na entrevista com os profissionais, tentamos convencê-la a voltar para a família ou aceitar tratamento e ir para um abrigo. Depois eles mesmos acabam trazendo outras crianças”, explica o pedagogo.

Foi o caso de J.L.B.S., de 17 anos. “Vim aqui porque meus amigos falaram que era ‘firmeza’, que não tinha polícia e não precisa ficar, se não quiser”, falou o menor. Na rua desde os 13 anos, J.L.B.S. diz que usa apenas maconha e que fugiu de casa por conta de brigas com o padrasto. “Não quero voltar pra casa, quero ir para um abrigo e lá voltar a estudar e ter uma profissão”, disse. Seu maior sonho é ser jogador de futebol.

J.L.B.S. disse não usar crack, mas o gerente da Tenda Mauá falou que isso é comum, entre os adolescentes que são usuários. “Eles mentem por medo de que vão ser internados. Mas acabam aceitando tratamento, depois de algum tempo convivendo aqui”, contou Vlademir. Diariamente cerca de 40 crianças e adolescentes passam pela tenda, diz o gerente. “A ação na Cracolândia aumentou esse número em 40%”, falou.

Para cativar as crianças, além do banho e lanche, a Tenda oferece oficinas de capoeira, artesanato e ioga. “E muito respeito e carinho. Eles são muito maltratados, na rua. Aqui é construída uma relação de confiança. Eles sabem que podem vir aqui quando quiserem e isso os traz de volta, até que aceitem tratamento ou voltar para casa. Mesmo após a volta, eles recebem em casa acompanhamento dos assistentes sociais”, disse Vlademir.

Para menores /A prefeitura possui quatro espaços de convivência para crianças e adolescentes, além de 134 abrigos. Desde o início da Operação Centro Legal, na terça (03) até ontem, foram feitos 322 atendimentos a menores e adolescentes, sendo que a mesma criança é abordada diversas vezes. Desses, 71 aceitaram ajuda. Quatro quiseram seguir para tratamento de dependência química e 11 optaram por retornar às famílias. O restante foi encaminhado para os abrigos da Prefeitura, Conselho Tutelar e tratamento de saúde.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)