Ação na cracolândia beneficia comércio na Santa Ifigênia

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Por Rafael Ferrer, de INFO Online

São Paulo – A forte presença policial na região chamada de cracolândia, no centro da capital paulista, impactou positivamente o comércio da rua Santa Ifigênia, maior polo de varejo de eletrônicos e produtos de tecnologia do Brasil.

A ocupação policial no quadrilátero formado pelas avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e a rua Mauá, num primeiro momento, preocupou moradores, comerciantes e consumidores que frequentam o bairro dos eletrônicos, localizado a poucas quadras da cracolândia.

Em duas visitas à região, INFO Online confirmou que na maioria das esquinas da rua Santa Ifigênia há dois ou mais policiais. Além destes, há viaturas que fazem ronda ostensiva e até a presença eventual de um helicóptero, que sobrevoa a região a procura de aglomerações de usuário de crack.

A intenção original da ação policial é coibir o uso e tráfico de drogas no centro da cidade, região onde há grande concentração de usuários de crack, moradores de rua e traficantes. Nas últimas semanas, a operação foi alvo de duras críticas do Ministério Público e de organizações religiosas e de defesa dos direitos humanos.

Para os críticos, a PM apenas espanta os usuários de um lugar para outro, além de agir com força excessiva contra os usuários. Há uma semana, o Ministério Público chegou a classificar a ação como um “desastre” acusando o governo paulista de não articular a ação da PM com serviços de apoio social e denunciar casos de abuso de poder, como o uso de balas de borracha contra os usuários de drogas e o fato de policiais masculinos revistarem mulheres, o que não é permitido pelas regras da corporação policial.

Do ponto de vista de quem vive, consome ou trabalha na Santa Ifigênia, no entanto, há aspectos positivos na operação. O aumento no número de policiais na região ajuda a inibir o consumo de drogas e também os furtos e roubos contra lojistas e consumidores, dizem os lojistas. Para evitar os crimes, alguns comerciantes fazem o rateio de dinheiro para contratar seguranças à paisana e identificar quem furta mercadorias que ficam sobre o balcão durante um momento de distração do vendedor.

“Há algumas semanas um suspeito foi espancado pelos comerciantes ao ser pego furtando mercadorias do balcão de um dos estabelecimentos”, diz Leonardo Leite, vendedor de uma loja de acessórios para celular na rua Santa Ifigênia. Segundo ele, não houve mais este tipo de ocorrência após a ação da PM na região.

Os compradores também demonstram segurança ao circular pelas ruas do bairro após a ação da PM. “Eu só conhecia a cracolândia e a rua Santa Ifigênia pelo que a TV mostrava nos jornais. Ao saber da presença policial, tomei coragem de vir ao bairro. Me sinto seguro aqui porque a situação é tranquila e vejo que há policiamento”, diz Iremar Mendes, um baiano que mora em Peruíbe (SP) e veio no último final de semana, pela primeira vez, à rua Santa Ifigênia comprar um aparelho de som automotivo.

O medo de ser furtado ou abordado por viciados é um dos fatores que afastam consumidores do comércio na Santa Ifigênia. Com a ação, comerciantes locais esperam atrair consumidores que só compram eletrônicos em shopping centers, mesmo que os preços praticados nos shoppings sejam até três vezes maiores que os praticados nas lojas da região.

Ao caminhar pelo centro, ainda é possível ver os usuários de droga andando pelas ruas do bairro, principalmente no final da tarde quando o comércio fecha as portas. Segundo Antonio Santana, presidente da AMSI (Associação dos Moradores do Bairro Santa Ifigênia), a polícia faz a parte dela ao reprimir o tráfico e consumo, mas faltam ações de apoio aos viciados, como tratamentos de saúde. “Eles (os viciados) saem da região e compram a droga em qualquer outro lugar”, diz Santana.

Pirataria – O aumento da quantidade de policiais na rua Santa Ifigênia também atinge o comércio de softwares piratas pelas ruas do bairro. Os vendedores ambulantes geralmente expõem painéis feitos de papelão com réplicas de caixas de softwares.

“Está “osso” (ruim) a situação aqui na Santa Ifigênia. Era difícil e agora está pior porque os policiais atrapalham o nosso trabalho em vez de prender bandido”, diz o vendedor de programas piratas que prefere ser chamado de “Didu”.

Vender programas piratas é crime. A lei antipirataria diz que a pena é reclusão de um a quatro anos e multa para quem comercializa programas de computador, games, vídeos e músicas sem autorização do autor.

Para escapar da vigilância, os ambulantes agora mantém os produtos piratas presos ao próprio corpo, como capas de chuva com DVDs anexados a elas, ao invés de montarem barracas. “A gente tem que trabalhar. Quando a PM se aproxima, a gente corre para evitar perder o material”, diz o vendedor.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas