O crack mais perto de nós

Cruzeiro do Sul
O fato de muitos não terem mais um lar impõe a necessidade de se pensar numa forma de reinserção a partir dessa necessidade básica que é a moradia.

A possibilidade de surgimento de cracolândias em torno de prédios abandonados, jardins públicos, terrenos baldios e trechos de ruas pouco movimentadas tornou-se um pesadelo para moradores e comerciantes de cidades grandes e médias, que temem ver seus bairros transformados em territórios dominados por dependentes químicos e traficantes, como ocorreu na maior e mais famosa cracolândia brasileira, encravada durante mais de 15 anos na região da Luz, em São Paulo.

A formação espontânea de comunidades de consumidores de crack e traficantes em logradouros públicos é uma das características comportamentais dessa droga poderosa, que transforma seus usuários em moradores de rua pela ruptura dos laços familiares e pela perda de empregos e outras fontes de renda. Sem ter como se sustentar, os viciados recorrem frequentemente a furtos e à prostituição, gerando insegurança entre os moradores e comerciantes das regiões por eles ocupadas.

É errado, no entanto, acreditar que a resposta está nas mãos da polícia, ou que apenas desalojando-se os dependentes químicos dos lugares onde se reúnem é possível solucionar satisfatoriamente o problema. A dissolução da cracolândia em São Paulo gerou cenas insólitas como as “procissões do crack” formadas por usuários desalojados pela PM, que simplesmente vagavam de um lugar para outro. Depois da “Operação Centro Legal”, “minicracolândias” surgiram em pelo menos 27 pontos da capital do Estado.

No momento em que princípios de aglomerações de dependentes químicos começam a ser identificados em Sorocaba – como aquele registrado por este jornal em sua edição de ontem (“Além-Ponte – Comunidade denuncia “cracolândia” na rua Padre Madureira”, pág. A7) -, é importante que as experiências de outros centros urbanos sejam conhecidas, para que as autoridades municipais definam objetivos claros e saibam o que pretendem obter com cada ação.

De antemão, é preciso que as autoridades estejam convencidas de que o dependente de crack é recuperável. O crack é um vício difícil de vencer, mas não impossível, e os serviços públicos de Saúde, Assistência Social, Educação, Cultura, Esportes, Trabalho e Segurança – entre outros, que podem e devem ser chamados a colaborar em um plano de ação conjunta -, têm uma função importante no esforço para auxiliar os usuários a romper com a droga e reconquistar os elementos básicos da cidadania.

Da mesma forma que o uso continuado da droga desconstrói os vínculos familiares e sociais, lançando o usuário numa espécie de limbo afetivo em que toda forma de relacionamento e mesmo os gestos mais triviais acabam sendo desorganizados, a cura deve estar direcionada para uma tentativa de reconstrução, que não se resolve apenas com a internação – necessária, para afastar o doente da droga -, nem com o acompanhamento psicossocial ou medicação para suportar a abstinência.

Tudo isso é importante, mas se desfaz rapidamente se o paciente terminar o tratamento e voltar a viver nas ruas, em contato com viciados e com acesso fácil à droga. O fato de muitos não terem mais um lar impõe a necessidade de se pensar numa forma de reinserção a partir dessa necessidade básica que é a moradia. Talvez o conceito da residência terapêutica, já aplicado com sucesso para pacientes psiquiátricos, pudesse ser adaptado para ex-usuários de crack, como forma de mantê-los longe das ruas e sob os cuidados de equipes de saúde, ao mesmo tempo em que programas oficiais buscariam reinseri-los no mundo do trabalho.

O papel da polícia é bem menor do que se imagina à primeira vista, e deve estar direcionado para o combate ao tráfico e a segurança da comunidade. Mas o crack é um problema de saúde e, desde que se pretenda resolvê-lo e não apenas mudá-lo de lugar, como tal deve ser encarado.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)