Cresce o nº de menores atendidos por drogadição

Natália Fernandjes
Do Diário do Grande ABC

No ano passado, a rede pública de Saúde do Grande ABC atendeu, em média, dois adolescentes e crianças com problemas de drogadição por dia. Ao todo, 705 pacientes com até 18 anos deram entradas em unidades especializadas; em 2010, foram 636 acolhimentos. O aumento foi de 11%.

São Bernardo foi o município que mais atendimentos realizou. É a única cidade que conta com um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) especializado no tratamento de crianças e jovens envolvidos com álcool e drogas. Em 2010, foram observados 536 acolhimentos deste tipo e, em 2011, 69 casos a mais.

O número de pacientes encaminhados ao ambulatório de álcool e drogas da Unidade de Saúde da Criança de São Caetano passou de 60, em 2010, para 75 no último ano. Já Santo André registrou alta de 40 para 50 nos atendimentos realizados no Naps AD (Núcleo de Atenção Psicossocial em Álcool e Outras Drogas) no mesmo período.

Apesar do aumento, o número não corresponde à demanda de menores em situação de drogadição no Grande ABC. Isso porque pacientes nessa faixa etária, salvo raras exceções, não têm maturidade suficiente para admitir que precisam de tratamento. É o que explica a psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria, Analice Gigliotti. Segundo a especialista, cabe aos pais a tarefa de impor limites e procurar ajuda. “O tratamento não precisa ser voluntário para ser eficiente”, considera.

Adesão

Os municípios informaram não haver demanda reprimida. Atualmente, cerca de 300 pessoas com idade até 18 anos estão em acompanhamento na região, sendo 200 em São Bernardo, 51 em Mauá, 30 em São Caetano, 18 em Santo André e dez em Ribeirão Pires.

Apesar dos números, alguns municípios ainda apresentam baixa adesão ao tratamento. Em Santo André, por exemplo, este índice está na casa de 10%, ou seja, de 50 adolescentes atendidos em 2011, apenas cinco retornaram. A Prefeitura atribiu o índice às características do período da adolescência.

Já em São Bernardo essa taxa de adesão ao tratamento é de aproximadamente 60%. No ano passado foram feitas 605 triagens no Caps AD destinado às crianças e jovens. Nesse período, 359 pessoas continuaram sendo acompanhadas pelas equipes. “Esse bom número de adesão se deve ao fato de o nosso atendimento ser feito durante 24 horas, também acolher pessoas em regime de internação (até oito leitos), ter o recurso de república terapêutica e desenvolver atividades de inclusão escolar e profissional”, considera a chefe do setor de Saúde Mental de São Bernardo, Susana Robortela.

Diadema e Rio Grande da Serra não forneceram as informações solicitadas.

Recomeço exige força de vontade

Um caso de sucesso entre tantos tristes. Assim pode ser definida a história do jovem José (nome fictício). Quando era criança, sofreu violência doméstica e viveu nas ruas por um ano período em que ficou sob a dependência do crack e outras drogas. Hoje, aos 17 anos, mora em um abrigo para menores em São Bernardo de onde já fugiu mais de dez vezes, aprende profissão e sonha com trabalho.

O caso da família de José chegou ao Conselho Tutelar de São Bernardo depois que vizinhos denunciaram que o garoto sofria maus-tratos. Quando criança, ele e o irmão mais velho, que hoje está preso, eram obrigados a vender coxinhas para a mãe e, por isso, não frequentavam a escola. Nessa época, o José ainda não tinha envolvimento com drogas. “Minha mãe me colocou para fora de casa quando tinha 15 anos”, revela.

Entre idas e vindas ao abrigo municipal, José passou um período na casa de um amigo da família, que hoje vive em Santa Catarina, e chegou a ficar seis meses com uma tia paterna. Já sob influência da droga, o destino foi a rua. Morou por um ano na região do Parque São Bernardo. “Só saí da rua porque esse meu amigo veio de Blumenau e implorou para que eu largasse essa vida.”

Após período curto em Santa Catarina, o retorno indesejado para o abrigo foi difícil. “Minha mãe fez um boletim de ocorrência dizendo que estava desaparecido e tive de voltar.” A gerente de acolhimento da Fundação Criança, Maria Helena Placeres Simões, diz que 90% da recuperação do jovem se deve à força de vontade. “Foi uma fase difícil esse retorno, porque ele ainda estava com crises de abstinência, mas aos poucos ele se livrou do vício”, comemora.

Hoje, apesar de ter perdido o contato com os imãos e a mãe, José tenta recomeçar. Se depender da eficiência nas aulas práticas do curso em que está inserido há dois meses, parte do projeto Lanchonete Escola da Fundação Criança, o sucesso profissional está garantido.

A viagem para Joinville já está marcada. Assim que completar 18 anos, no dia 17 de agosto, José embarca para Santa Catarina em busca da felicidade. “Vou trabalhar na lanchonete do meu amigo e continuar a estudar. Já estou até juntando o dinheiro para comprar uma moto para fazer as entregas”, destaca. Na bagagem, ele diz que levará a saudade dos amigos que fez por aqui.

Pais buscam ajuda nos conselhos tutelares

Apesar de não haver levantamento específico, os conselhos tutelares da região também observam aumento da procura de pais por ajuda para filhos envolvidos com drogas. Geralmente, segundo os conselheiros, as famílias recorrem ao órgão em busca de apoio quando estão desesperadas.

O único conselho a apresentar dados é o de São Caetano, onde foram contabilizados 953 atendimentos em 2011, sendo 56 casos de jovens envolvidos com drogas.

Quando procuram ajuda, as famílias já estão sofrendo há mais de um ano, explica o conselheiro de Santo André Orlando Catarino. “Normalmente o jovem já está dormindo nas ruas, abandonou a escola e comete pequenos furtos”, descreve. Apesar da procura, há consciência de que a demanda é maior, por isso, ele acredita na necessidade de trabalho conjunto entre Prefeitura, Ministério Público e governo federal. Também é preciso capacitar e melhorar a rede de atendimento na área da Saúde.

A conselheira de Ribeirão Pires Maria Aparecida dos Santos destaca ainda que há casos de famílias que não gostam de se expor e, por isso, não procuram ajuda. Outra dificuldade é o jovem aceitar o tratamento. “Eles dizem que têm controle e que param de usar droga quando quiserem”, comenta.

Em São Bernardo, a situação é parecida. O conselheiro Ilacir de Jesus Chagas afirma que, em muitos casos, a drogadição está embutida em outros problemas, que levam à procura por ajuda. “Às vezes o jovem chega até nós devido a conflitos familiares ou evasão escolar e só depois de investigação aparece o envolvimento com drogas”, observa.

A tarefa dos conselheiros é garantir apoio à família e ao jovem, encaminhando-os para os serviços de Saúde ou assistência social municipais. A dificuldade é quando o médico psiquiatra determina a internação, explica Catarino. “São poucas as vagas para internação e, às vezes, é preciso aguardar a liberação delas”, ressalta. Segundo o conselheiro, algumas pessoas até desistem do tratamento durante a espera.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas