Comerciais de cerveja podem influenciar crianças e adolescentes a beber mais cedo, acredita psicóloga

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A bebida não é considera alcoólica, para fins publicitários, mas projetos no Senado propõem mudanças na lei para incluí-la no grupo de produtos cuja propaganda é proibida.

Pelo sistema de classificação indicativa do Ministério da Justiça, emissoras de TV só podem veicular programas identificados como inadequados para menores de 18 anos depois das 23h. Você já parou para se perguntar, no entanto, por que os comerciais de cerveja – cuja venda para menores é proibida por lei – podem ser veiculados em qualquer horário?

Legalmente, as propagandas de cervejas antes das 23h não podem ser proibidas porque elas não são consideradas bebidas alcoólicas, para fins de publicidade. Hoje, a lei proíbe apenas propagandas de produtos cujo teor alcoólico seja superior a 13° Gay-Lussac, o que deixa de fora do veto as cervejas, as bebidas ice e os vinhos mais populares. Dois projetos apresentados no Senado – um pela senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) e outro por Marcelo Crivella (PRB-RJ) – propõem a revisão da regra, mas enfrenta resistências. No ano passado, ambos foram rejeitados pelo relator responsável na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT), senador Lobão Filho (PMDB-MA), que disse considerar que a restrição à publicidade de bebidas alcoólicas “contraria o princípio constitucional da liberdade de expressão e informação”.

Para a psicóloga Ilana Pinsky, professora supervisora na pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP, a exposição de crianças e adolescentes a comerciais de bebidas alcoólicas pode levá-los e beber mais cedo. “Pela lei federal, cerveja não é considerada bebida alcoólica para fins de publicidade, o que é uma piada, não tem sentido. As cervejarias podem fazer propaganda em qualquer horário e são as que mais aparecem nos intervalos comerciais. Assim, os jovens estão muito mais expostos a essas publicidades. Sem contar que a cerveja é um produto de iniciação para o jovem e, no Brasil, é a primeira bebida de escolha, seguida do vinho e das bebidas destiladas. Então, sim, a publicidade tem influência na medida em que ela é muito mais frequente e criativa. O jovem se associa e se interessa mais e, portanto, acha que pode beber mais também”, afirma em entrevista ao site da ONG Instituto Alana.

Um levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) fornece argumentos à tese da psicóloga. Segundo o relatório final, 54% dos entrevistados para o estudo com idades de 12 a 17 disseram consumir álcool e 7% apresentavam dependência. Na faixa etária dos 18 aos 24, 78% afirmaram já ter feito uso de bebidas alcoólicas e 19% foram identificados como dependentes.

“Claro que se você fizesse publicidade de cerveja 24 horas, mas fosse muito difícil para o jovem comprar a bebida seria diferente. Mas essa não é a nossa realidade. No Brasil, é fácil e é barato consumir essas bebidas. Quanto mais exposto à publicidade, mais propenso o público infanto-juvenil está a beber cada vez mais e mais cedo”, afirma Ilana Pinsky.

Redes sociais

Com o crescimento das novas mídias, a expansão das ações de marketing das cervejarias no ambiente virtual preocupa a psicóloga. “O que eu vejo é que isso (a publicidade de cervejas) entrou nas redes sociais de uma maneira massiva. É a grande estratégia do momento. As marcas exercem muita influência lá, com ações muito criativas e quase sempre voltadas aos mais jovens. Claro que as redes são frequentadas por todas as idades, mas os mais jovens e as crianças têm mais facilidade em usá-las”, afirma.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)