Álcool, maconha e direção: Um coquetel perigosamente mortífero

Milton Corrêa da Costa
O motorista de uma picape colidiu contra uma moto e matou um casal na manhã do último sábado , 03 de março, na Avenida M´Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo. Será indiciado por homicídio doloso (dolo eventual), segundo informações da polícia que afirma que a perícia encontrou, atrás do banco do passageiro do veículo, um cigarro de maconha. Por volta das 6h30, após fazer uma conversão proibida, próximo ao Terminal Guarapiranga, o veículo atingiu a moto onde estava o casal Alexandre da Silva e Francielle Paiva, que deixaram uma filha de 6 anos. Antes de colidir contra um muro e derrubar um portão, ele ainda atropelou um homem que caminhava pela calçada. O motorista do carro ficou gravemente ferido e ficou internado no Hospital das Clínicas.

Como se não bastassem as tragédias ocorridas no trânsito pelo uso do álcool, tal fato traz novamente à baila a discussão sobre o efeito do uso da maconha (droga ilícita) na condução de um veículo e na vida cotidiana. “É preciso explicar as coisas à luz das últimas pesquisas. Se é verdade que antigamente um cigarro de maconha provocava efeitos equivalentes ao de duas doses de uísque, hoje, com as mutações genéticas produzidas nas sementes da planta para intensificar as sensações que ela provoca, é praticamente impossível determinar os níveis de THC (tetrahidrocanabinol), o princípio ativo da maconha que cada cigarro contém”, pondera a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e diretora do NEPAD, Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas.

Um dos discursos mais conhecidos daqueles que defendem a legalização da maconha é justamente o de questionar a venda livre de bebidas alcoólicas e de cigarros. Consideram hipocrisia condenar a liberação do consumo da droga ao mesmo tempo em que bebidas e cigarros- que consideram bem mais prejudiciais ao organismo do que a Cannabis sativa- são comercializados livremente em todo o país. Apesar de chamar a atenção para os riscos do álcool e do tabagismo, esse questionamento não tem levado em conta as dificuldades de comparação de produtos tão diferentes. “A maconha não é pior do que o álcool, mas é muito mais prejudicial do que o cigarro”, afirma o psiquiatra de adolescentes Içami Tiba, autor do livro “ A maconha e o jovem”, editado em 1989.

Anos depois, ele não só continua contra a legalização da maconha como pesquisou e descobriu mais um importante argumento para reforçar a sua posição – a existência de três níveis de prejuízo para o usuário. “Há o prejuízo ético, que ninguém costuma levar em conta, em que há uma quebra de valores próprios. Há também, um comprometimento psicológico, já que a maconha provoca uma forte dependência devido à ação do THC. E. por fim, há o aspecto físico, com danos até para os fetos de grávidas que fumam”, diz o médico.

Quando se fuma um baseado, as moléculas de THC vão para o pulmão. De onde caem na corrente sanguínea que distribui a substância para todos os órgãos. As primeiras moléculas chegam em segundos aos neurônios, embora os efeitos da droga só comecem se manifestar em 10 a 15 minutos (obviamente que vão influenciar a condução segura de um veículo). Atuando diretamente sobre o sistema límbico, sede do comportamento, da memória e das emoções, a maconha modifica as sensações, intensificando-as e tornando-as mais agudas. Olhar simplesmente para a parede pode ganhar a dimensão de uma experiência nova, com cores, volumes e texturas jamais sonhados. “É quando se tem ideias que parecem geniais, mas que são esquecidas tão logo se sai do transe da droga. E mesmo lembrando, elas deixam de fazer sentido na medida em que é impossível seguir a linha de raciocínio que se teve sob o efeito da maconha”, explica a Dra Maria Thereza.

Os que já experimentaram o barato da Cannabis conheceram a excitação, a fala arrastada, o riso constante, os olhos avermelhados, o pulso acelerado, a perda de concentração de atenção, e a fome que se sucedem a um baseado. Em cinco anos, porém, a uma média de cinco cigarros semanais, o quadro se torna dramático. A apatia e o marasmo embotam a inteligência e a vida do indivíduo. “È a chamada síndrome amotivacional, um quadro irreversível de total falta de motivação para a vida”, explica a Dra Maria Thereza. Ou seja a maconha antecipa os malefícios que o álcool irá causar em quinze/25 anos nos homens, ou em cinco a dez nas mulheres.

Para a Dra Maria Thereza a maconha pode ser mais bem perigosa do que o álcool, já que a atmosfera permissiva que a cerca pode levar adolescentes a usá-la para enfrentar o que Freud chamou de “dor de existir”.Mas tornar-se ou não um dependente de drogas, mesmo numa fase de mudança e conflitos interiores, como é o período que antecede à juventude, é resultado de uma conjugação de diversos fatores: estar passando por uma situação desfavorável; o encontro com a droga; e a personalidade de cada um. Este último item é fundamental: a psiquiatra avalia que “não existem drogados em famílias felizes, bem-estruturadas emocionalmente e sem problemas se adaptação. Por outro lado, para pessoas imaturas, com propensão à dependência (seja ela dos pais, de comida ou de outros tipos de apoio), a maconha pode servir para abrir a porta do que é proibido.

Ainda assim há os que, ao abrirem a porta do proibido, entram e saem. E há os que entram e ficam. ”Mais uma vez, o que faz a diferença é a estrutura emocional de cada um”, explica Maria Thereza de Aquino. O mesmo raciocínio responde ao argumento frequente usado de que a maconha seria um trampolim para drogas mais fortes. Não é. “Ao contrário da excitação provocada pela cocaína que leva muita gente a recorrer ao álcool para reduzir o pique, e novamente à cocaína para sair da depressão provocada pelo álcool, no caso da maconha é o ambiente à volta que influencia a se experimentar outras drogas novas e sensações”, explica a psiquiatra.

“Mas aqueles que trilham o caminho das drogas passam por ela. É muito comum a garotada acreditar que tem controle total sobre a droga, mantendo a falsa noção de que fuma porque quer e que é capaz de parar quando desejar. Não é realidade. Dificilmente o garoto percebe que está sendo dominado pela droga, que a dependência psicológica provocada pela maconha, é muito mais forte que a física, pois leva o dependente a sentir a necessidade de alteração psicológica”, afirma o Dr Içami Tiba, que em sua opinião o melhor caminho é concluir que a droga venceu o primeiro assalto da luta e que a família- e não só o filho- precisa de ajuda para não perder toda a batalha.

É fácil também concluir que assim como o álcool, maconha (droga ilícita) e direção é desgraça presumível. O uso das duas drogas ao mesmo tempo é mais desgraça presumível ainda mais quando se está ao volante de um carro.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro