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60% presas por tráfico de drogas

Diário do Nordeste
O número de mulheres detidas no Estado não para de crescer. Atualmente, a unidade tem 457 internas.

Cerca de 60% das presas do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, em Aquiraz, têm envolvimento com o tráfico de drogas. Do total de 457 detentas da unidade, 274 cumprem pena por este motivo. O dado é apenas uma amostra de que a principal causa de detenções femininas são as drogas.

Duas filhas presas por tráfico de drogas, outra desaparecida, o marido alcoólatra e o genro assassinado na frente do neto mais velho que, na época, tinha cinco anos. Essa é a triste realidade da dona de casa Benedita de Sousa (nome fictício), moradora do Grande Bom Jardim.

Os problemas são inúmeros, desde a falta de dinheiro até a ausência uma pessoa para ajudá-la a cuidar dos netos. Porém, o que a preocupava mais era o fato de o neto mais velho estar, há quase dois anos, sem falar por ter visto o pai sendo morto. Diante disso, ela procurou o Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) em busca de ajuda.

A história de Benedita é uma entre milhares que acontecem quase que diariamente, no Estado do Ceará, quando as mães se envolvem com o tráfico de drogas, são presas e deixam seus filhos com as avós, parentes ou vizinhos. Essa é mais uma mazela da sociedade atual que atingiu o sexo feminino.

O número de detentas no Ceará não para de crescer. Conforme a diretora do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, Analupi Araújo, atualmente, a unidade está superlotada, com 83 internas a mais do que capacidade, que é de 374. Segundo ela, até julho de 2010, a penitenciária jamais havia registrado um número de detentas maior do que o recomendado. Para se ter uma ideia, durante todo o ano de 2009 o número de mulheres presas não ultrapassou 250. Um crescimento que chega a 82% em três anos.

Conforme a diretora, a maioria dessas internas que tem envolvimento com o tráfico de drogas é mãe e acaba sendo vítima dos próprios maridos. Porém, Analupi ressalta que nem todas são viciadas em crack ou outras drogas. Elas fazem o trabalho apenas para sobreviver e sustentar os filhos. “Essas mulheres geralmente são presas em flagrante, muitas delas não têm nem casa para morar, o que não justifica o tráfico, mas diante da realidade sócio-econômica acabam se envolvendo”, destaca.

Preconceito

Outra situação cruel, de acordo com Analupi, é o estigma e o preconceito que essas mulheres sofrem, mesmo após terem cumprido a pena. Sem estrutura familiar e sem ter quem as acolha, elas acabam cometendo o mesmo crime novamente. Segundo ela, a reincidência no Auri Moura Costa é de 40%, taxa considerada bastante alta conforme a diretora. “A família desestruturada, o marido preso, a mãe envolvida com drogas, quem vai querer dar um emprego para essa mulher que é pobre e ex-presidiária?”, questiona Analupi.

Ela afirma que grande parte dessas mulheres não querem retornar ao crime, mas faltam políticas públicas voltadas para essa realidade. Diante disso, alguns projetos são desenvolvidos no próprio presídio em prol dessas mulheres. Nesse mês de março, por exemplo, será realizada a 4ª Semana de Conscientização dos Direitos das Mulheres, quando há um atendimento voltado para a saúde, dúvidas jurídicas, consultorias de beleza, e o concurso da miss penitenciária do Ceará. Além disso, segundo a diretora, no presídio é oferecido o direito de estudar e trabalhar. “Essa mulheres precisam ter autoestima para conseguir dar a volta por cima na vida”.

Para reverter essa realidade, a Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus), está desenvolvendo, desde o ano passado, o Programa de Ações Continuadas e Assistência ao Drogaditos. Conforme o coordenador do programa, Elton Gurgel, a partir deste mês, ele será implantado no Presídio Feminino Desembargador Auri Moura Costa. “Vamos avaliar e trabalhar três aspectos, as internas, presas por tráfico de drogas, as usuárias e as mulheres que se envolveram por influência exclusiva do marido”, diz.

De acordo com Elton Gurgel, cada unidade penitenciária irá planejar conforme a sua realidade. “O objetivo do programa é agir de forma contínua, trabalhar a redução de danos, desenvolver grupos familiares e traçar ações objetivas pensando no futuro dessas mulheres com o tráfico”, explica.

Meninas têm apoio social

Maria Bianca (nome fictício), 17 anos, moradora do Pirambu, aos 12, por influência dos amigos provou pela primeira vez o crack. Desde então, não houve nenhum dia que ela não consumisse a droga. Aos 15 anos, a adolescente engravidou, mesmo assim continuou usando drogas. A consequência disto é que o bebê nasceu prematuro, com problemas respiratórios e precisou passar meses em uma Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTI). Porém, o pequeno menino não teve tanta sorte e, aos dois meses morreu sufocado pela mãe que, sem querer, dormiu em cima dele.

Hoje, Maria Bianca está empregada e exerce a função de auxiliar de escritório. Há mais de um ano não usa drogas e, no contra turno do trabalho, cursa o ensino fundamental. Essa evolução se deve ao esforço da jovem incentivada pelo Projeto em Defesa da Vida que, desde 1994, atua no Pirambu acolhendo adolescentes grávidas, usuárias de drogas com filhos. Segundo a coordenadora do projeto, a italiana Irmã Gabriela Pinna, na casa existe seis mulheres, sendo três adolescentes e três adultas, todas são mães e usuárias de drogas. Lá, elas são acolhidas, estudam e trabalham.

Ainda de acordo com Irmã Gabriela, nos últimos anos, diante da demanda, o projeto passou a acolher também estrangeiras que haviam sido presas por tráfico de drogas e, após terem saído da cadeia, não têm a quem recorrer. “Anualmente, há um crescimento significativo de mulheres presas no Brasil. Em 2008, por exemplo, segundo o Ministério da Justiça, em relação ao ano de 2007, houve um crescimento de 4% de homens presos e de 12% de mulheres. Isso é assustador”, afirma a coordenadora.

Influência

Irmã Gabriela diz que a maioria dessa mulheres está envolvida com o tráfico de drogas e quase todas por influência dos companheiros. “É preciso desenvolver políticas públicas para reverter essa realidade atual que afeta o País inteiro. A situação do Ceará não é isolada. Centenas de mulheres estão no tráfico”, analisa.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Mulheres são alvo dos traficantes

A droga é um comércio extremamente lucrativo e, para se manter, precisa de muita gente envolvida. O tráfico tem uma hierarquia e o cabeça do negócio não se envolve diretamente com a venda do produto, para isso escolhe as “raias miúdas”, aquele que fornece a droga para o consumidor. Essas pessoas são escolhidas na própria comunidade, um meio de disfarçar a ilegalidade. E um dos alvos preferidos, atualmente, pelos chefes do tráfico, são pessoas do sexo feminino.

Essas mulheres têm necessidades econômicas e sociais urgentes, são mais organizadas, confiáveis e submissas às ordens dadas pelos traficantes. Muitas são envolvidas no crime pelo próprio marido ou amante. Diante dessa situação, é fato que é mais fácil para a polícia chegar ao pequeno vendedor ou distribuidor do que no chefe do bando. E é essa uma das principais razões dos presídios no Estado e no Brasil estarem lotados de detentas presas pelo tráfico de drogas. Essas mulheres estão ali porque sentem necessidade de ter dinheiro “fácil” para poder cuidar dos filhos e a droga é um ambiente extremamente atraente.

Outra situação é que muitas vendem também para sustentar o vício. Diante disso, a família fica fragmentada e filhos dessas mulheres à mercê das avós, mães e vizinhos. O que resta é uma sociedade doente e com filhos também doentes, sem o amparo dos pais que estão envolvidos no universo do crime e das drogas.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)