Tabagismo e as armadilhas da beleza e do sabor

Jornal de Hoje
“A indústria tabaqueira tem sido formidável na grande capacidade de gerar e manter o vício de fumar”.

A indústria tabaqueira tem sido formidável na grande capacidade de gerar e manter o vício de fumar em mais de um bilhão de pessoas no mundo por puro apelo midiático. Imagens fortes e convincentes foram usadas como sedução ao consumo de cigarros desde o final dos anos 40.

Rita Hayworth com seu clássico vestido longo colado, cabelos louros brilhantes, corpo levemente inclinado para a esquerda e dobrado no cotovelo com a mão para cima, olhar sonhador, dedos separados e cigarro preso entre o indicador e o médio com unhas pintadas de vermelho. Essa imagem apresentava-se persistentemente no cinema e vinha envolta numa névoa diáfana de fumaça, dando-lhe uma aura de sonho que evocava beleza, sensualidade e prazer.

Humphrey Bogart segurava o cigarro com quatro dedos (pose de macho), imerso em uma eterna nuvem de fumaça de cigarros em Casablanca, por exemplo. Também cogitava sensualidade, poder e prazer. “Hollywood, o sucesso” foi o símbolo da propaganda exitosa com relação ao vício de fumar, tendo aliciado os jovens que se encantavam com a beleza, a força física e o sucesso dos fumantes da marca, a chave da sensualidade masculina e do prazer. Esses apelos funcionaram e outros, como o que agora se insinua, que é o uso de aromatizantes e sabores artificiais nos cigarros, tornando-os atraentes ao paladar dos jovens e induzindo-os ao vício, se disseminaram no Brasil.

Os apelos funcionam assim: primeiramente, despertam o desejo de ser igual aos símbolos que apresentam o prazer ou de provar o sabor da tragada gostosa. Depois, desenvolvem impulsos para a realização desse prazer (a aura do sonho diáfano da fumaça com gosto de chocolate). Daí então, passam-se a repetir, pela necessidade de abastecer o sangue de nicotina, os mesmos trajetos e assim perpetuar o prazer experimentado, que é o vício.

Os novos cigarros aromatizados e saborosos aumentaram de 21 para 41 suas marcas em apenas três anos após o lançamento. Os jovens têm sido seus maiores consumidores. As armadilhas do tabagismo estão aí: a beleza significa feiúra (pele seca, envelhecimento precoce, cabelos opacos, abortos); sucesso significa fracasso (doenças como câncer, enfisema, infarto e baixa performance sexual)

A intervenção da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de proibir uso de sabres e de aromatizantes em cigarros, foi providencial, merece ser elogiada e eleva a confiança dos brasileiros na vigilância que a instituição desempenha com relação à saúde de todos.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)