Auxílios para dependentes químicos subiu de 340 para 416 no ano passado

Diário da Amazônia
O número de atendimentos está aumentando no CAPS/AD – Centro de Atendimento Psicossocial – Álcool e outras Drogas de Porto Velho.

Criado há dois anos pela prefeitura, o órgão é referência para este tipo de tratamento no Estado e o número de atendimentos diários cresceu de 40 para cerca de 100. Também aumentaram o número de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para dependentes químicos, de 340, em 2010, para 416 em 2011, no Estado.

De acordo com o diretor, enfermeiro Ademir Pereira, o órgão conta com 2,5 mil pacientes registrados. Embora haja uma determinação do Ministério da Saúde para que todos os municípios tenham um CAPS-AD, em Rondônia só Porto Velho conta com este serviço. O Governo do Estado também possui CAPS, mas que não é voltado especificamente para os dependentes de drogas.

A mudança da abordagem da dependência – que hoje é considerada como uma doença e não um desvio de caráter, mais o aumento populacional de Porto Velho, estão incrementando a demanda pelo tratamento.

A epidemia do crack, que assola todo o País, também influencia. Em cada dez pacientes que procuram o CAPS-AD, oito estão envolvidos com esta droga, segundo o diretor. Além disso, “um número crescente de trabalhadores demitidos do canteiro de obras das usinas que optam por ficar em Porto Velho ao invés de retornar aos locais de origem estão partindo para as drogas”, alerta Ademir Pereira.

A mais grave consequência da dependência de drogas é a falta de motivação para a vida. “Discriminado dentro da família e no mercado de trabalho, o dependente passa a não acreditar mais na própria capacidade de reagir ao vício”, explica Ademir Pereira. O tratamento deste tipo de doença é difícil e pelo menos a metade abandona o tratamento. “Mas isso não quer dizer que a doença não tenha cura. Os que persistem conseguem superar o problema”, diz

MAIORIA DOS BENEFÍCIOS SÃO DESTINADOS A DEPENDENTES DE DROGAS ILÍCITAS

A Previdência Social gastou R$ 107,5 milhões em 2011 com a concessão de 124.947 auxílios-doença a dependentes químicos. O uso de drogas ilícitas – crack, cocaína e anfetaminas – levou ao afastamento de 80% dos beneficiários. Os outros 20% eram usuários de álcool e cigarro, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Em Rondônia, os números são considerados previsíveis para a realidade do Estado. Em 2011, foram concedidos 416 auxílios-doença relacionados ao uso de droga.

Em 2010, o número deste benefício foi de 340.
Segundo a gerente executiva do INSS no Estado, Márcia Cristina Pinto, estes benefícios são destinados aos trabalhadores incapacitados para o trabalho que contribuem com a Previdência, aceitam o tratamento e estão internadas.

O auxílo-doença é concedido mediante laudo médico e está baseado em uma classificação internacional de doenças, conhecida como CID. A dependência de drogas relacionada aos transtornos mentais e comportamentais está registrada como CID-10. Para Márcia Cristina, existe uma sub-notificação sobre os auxílios-doença relacionados à dependência química, porque um grande leque de outras enfermidades está relacionado ao uso de drogas, como a hipertensão e diabetes, cuja causa não fica registrado no sistema. Os acidentes de trânsito provocados por motoristas que dirigem embriagados também oneram os gastos da Previdência.

ABSTINÊNCIA E MERCADO DE TRABALHO

Embora não tenha uma cura definitiva, a dependência de drogas pode ser controlada, como acontece com os portadores de diabetes ou hipertensão, que convivem com a doença com medicação e hábitos adequados. “A gente diz que o paciente está em período de abstinência e nesta situação ele está apto a viver normalmente e ingressar no mercado de trabalho. Só que, esbarra no preconceito, que começa dentro de casa. Sem uma oportunidade para trabalhar, a tendência destas pessoas é achar que não conseguirão nunca, o que dificulta a abstinência”, explica Ademir Pereira, diretor do CAPS A/D.

Para combater o desânimo dos pacientes, os profissionais do órgão fazem visitas domiciliares e também contam com um atendimento aos familiares. O trabalho terapêutico é feito com a formação de grupos para cada faixa etária – adolescentes e adultos – e também para os familiares.

O grande número de jovens que perdem seus empregos e ficam perambulando nos distritos de Jacy-Paraná e Mutum-Paraná fez com que o CAPS-AD fizesse uma programação específica para estas localidades e de dois em dois meses uma equipe do centro se desloca para esta região. O atendimento atende a uma reivindicação dos moradores, que se mostram muito preocupados com a situação.

COCAÍNA E ÁLCOOL

Entre os casos de concessão de auxílio-doença relacionados ao uso de drogas em Rondônia, destaca-se o número de pacientes com episódios depressivos – 203 em 2011 e 168 em 2010. O número de auxílios concedidos a usuários de cocaína supera o de alcoólatras no Estado. Em 2010, foram 33 relacionados ao álcool e 35 à cocaína. Em 2011, 24 usuários de bebidas alcoólicas receberam o benefício, que também foi concedido para 55 dependentes de cocaína.

São Paulo lidera entre os Estados com maior número de auxílios-doença concedidos no Brasil. Em 2011, 16.112 beneficiários tinham distúrbio de comportamento ligado ao alcoolismo e 2.615 relacionados à cocaína. O uso de drogas como crack e cocaína respondeu por mais de 70 mil pedidos de afastamento do trabalho nos últimos três anos de um total de 350 mil no País.

FAMILIARES DE DEPENDENTES SÃO CO-PACIENTES

A dependência química é um problema grave que atinge toda a família. “Nos casos em que a dependência chega a fases mais agudas, as famílias sofrem mais que os usuários e nem sempre sabem como devem proceder. “Há uma tendência em estigmatizar o paciente com frases como “você é um vagabundo, não serve para nada”, uma atitude que só agrava o caso e diminui as chances de cura”, alerta Ademir Pereira,diretor do CAPS A/D.

Quando os pacientes atingem um grau mais elevado de dependência, os familiares são considerados como co-pacientes. “O problema se torna tão grave que as pessoas que estão perto adoecem de tanto lutar, passam a sofrer de insônia e muitos deles começam a utilizar medicamentos para suportar a situação. Em alguns casos, os familiares, principalmente as mães, sofrem mais que os dependentes”, diz.

MAIOR DEMANDA É DE JOVENS

A maior parte dos usuários de drogas que procura o CAPS-AD é de jovens. Eles têm entre 19 e 26 anos e partem para as drogas em um período em que deveriam estar estudando para buscar um espaço no mercado de trabalho, mas como ficam muito desmotivados, com a autoestima em baixa, diminuem as chances de recuperação e de reinserção na sociedade.

Entre as milhares de fichas cadastradas no Centro, há casos que impressionam, como o de um garoto que começou a fumar maconha com 12 anos e em seguida partiu para a cocaína e finalmente para crack. Hoje com 17 anos, ele trava uma luta contra o vício com a ajuda da equipe do CAPS-AD.

O Centro conta com uma equipe multidisciplinar composta por psiquiatras, clínicos geral, enfermeiros, assistente sociais e psicólogos. Além de participar de grupos terapêuticos, os pacientes também fazem hidroginástica. A equipe faz palestras em escolas e outras instituições, presta assistência à família e visita as famílias. A medicação é gratuita. O tratamento é ambulatorial. Não são feitas internações. As portas do CAPS-AD estão abertas aos interessados, na avenida Lauro Sodré, n° 1964, bairro São João Bosco, próximo ao Fórum Cível.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)