Cortina de fumaça

Revista Alfa
Como a indústria do cigarro está fazendo propaganda, disfarçada ou não, num país cada vez mais antitabagista.

“Fumar é um ato complexo e traz consigo um ritual que envolve vários sentidos, além de aspectos sociais, culturais e comportamentais. Fumantes descrevem desde o prazer de sentir um cigarro entre os dedos, até o sabor e aspectos visuais associados ao consumo do produto. Além disso, especialmente em ambientes sociais, o ato de fumar envolve uma “sensação de compartilhamento”.

Esse curto arrazoado filosófico está publicado no site da Souza Cruz, a maior companhia tabaqueira do Brasil. Todo esse “prazer”, esses “aspectos sociais”, têm sido atropelados por políticas públicas que alertaram sobre os malefícios do fumo à saúde. No Brasil, em 1996, as embalagens passaram a conter uma advertência e imagens horripilantes. Nos últimos 20 anos, o consumo nacional caiu quase pela metade, de acordo com uma pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (Inca). O fato de a vida estar mais complicada para os fabricantes, no entanto, não significa que eles não estejam fazendo propaganda. A estratégia mudou. Aqueles dias em que o cigarro era recomendado para a tosse (sério) ou para quem gosta de esportes radicais acabaram. As novas ações são mais inusitadas, criativas – e disfarçadas.

“Uma delas é a contratação de atores para representar turmas de amigos descolados. Eles são pagos para circular fumando em locais frequentados por formadores de opinião e jovens ricos”, diz Felipe Colaneri, um dos sócios da Zarov, agência de publicidade. As companhias também patrocinam festas particulares. No convite, não há nada. Mas o dono da casa dá permissão para que uma marca seja promovida. No Réveillon passado, por exemplo, a celebração mais badalada de Trancoso, a praia mais bacana da Bahia, tinha um fumoir (variação chique de fumódromo) bancado pela Souza Cruz. Era um belo lounge, em tons de verde, branco e preto para combinar com a caixinha do Dunhill. Um casal de promotores de vendas bonitos e sarados recebia os convivas. Os maços de Dunhill repousavam em finas caixas prateadas. “A Souza Cruz realiza eventos e afins para promover sua marca corporativa, assegurando que o público alvo seja maior de idade, adulto e fumante”, disse a assessora de imprensa Juliana Barreto em e-mail enviado para ALFA. “Para tanto, contamos com prestadores de serviços que realizam atividades de acordo com sua expertise, todos regularmente contratados.” O promoter e produtor de eventos Cacá Ribeiro, sócio das casas noturnas Lions Nightclub e Club Yacht, em São Paulo, faz parcerias com a empresa. Procurado por ALFA, Ribeiro declarou: “Não falo sobre isso”.

É o chamado “marketing invisível”. “Acredita-se que o comportamento de grupo e a influência dos amigos exercem poder determinante nas escolhas das pessoas”, diz Colaneri.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)