Marcha Matrix

Denilson Cardoso de Araújo
Quando o Haiti viveu a tragédia apocalíptica do último terremoto, o mundo recebeu o tapa na cara do cruzeiro de luxo que lá aportou com seus deques, piscinas, e cassinos com lustres de cristal. Os mortos ainda apodrecendo e alienados turistas sorviam drinks na praia.

"O Haiti é aqui", poetas detectaram. Nossa 6ª economia, que nos ufana, com pré-sal e companhia, não nos levou a reduzir o ranking da desigualdade. Permanecemos com PIB europeu e justiça social subsaariana. Também a África é aqui, Petrópolis! 

Escolas vivem o que parece a maior crise de todos os tempos, com falta de professores, pessoal de apoio e mais. Algumas escolas só começam agora, pra valer, o ano letivo, com um bimestre já perdido. Adolescentes queimam escolas, jogam rojões dentro da Câmara, bombas em salas de aula, são achados embriagados pelas ruas, bem ao lado do morador de rua que morreu de frio.

No último evento no Parque de Exposições, dezenas de registros de adolescentes embriagados, vários em coma alcoólico. Nas ruas se vê, crianças e jovens largados à própria sorte, testando a disciplina do poder público – que raramente chega – já que os limites e autoridade familiares nunca existiram.

Gente na cidade percorre mil repartições para obter uma cesta básica. Idosos apodrecem sem assistência. Hospitais à beira do fechamento. O direito fundamental à saúde se move à base de liminares, quando se move. Porque liminares descumpridas revelam como se corroeu o estado de Direito.

O transporte coletivo transtorna trabalhadores, que diariamente se vêem às voltas com veículos quebrados, atrasados, entupidos, em longuíssimas viagens.  

Com tudo isso, vem a Marcha da Maconha. Esta geração de jovens, que já é conhecida como a geração do bullying e dos atentados em escolas, a "geração Realengo", portanto, ou, conforme a fonte, "geração de suicidas", "de burros", "de cérebros de pipoca" ou de "anjos caídos", vai acrescer ao seu triste currículo mais esta. A geração que – ao invés de marchar por justiça social, contra a corrupção, contra a crise na educação municipal – ouviu canto de sereia oportunista, e foi para as ruas gritar que é "maconheiro com muito orgulho, com muito amor".

Dói no coração ver chavões desse discurso elitista, zona sul do Rio, Ipanema-Amsterdam, descendo à boca de jovens semi-analfabetos, envolvidos com a drogadição precoce, com o sexo canino sem controle, excluídos sociais que se afundarão ainda mais achando progressista e avançada uma proposta caduca e hoje, claramente conservadora. Vejamos.

A Holanda está revendo sua legislação para reduzir liberalidades que a tornaram famosa. Pesquisa realizada na Europa pôs à luz que a esmagadora maioria dos europeus rejeita o modelo que a Holanda praticava. A maconha medicinal na Califórnia, só serviu para criar mercado de receitas médicas fajutas para traficantes. A liberação em Portugal criou traficantes varejistas, sendo que Madeira e Açores tentam reverter a liberalidade. 

George Soros, o especulador que quebrou dezenas de países é financiador das campanhas de liberação da maconha. A bíblia dos financistas, o inglês The Economist, é a favor da liberação. FHC, importante representante do atual status quo passou a defender políticas pró-drogas. A Souza Cruz tem marca de maconha já registrada (Marley), para quando a guerra contra o tabaco reduzir ainda mais o seu público, em favor da maconha. 

Trabalhando com infância e juventude há década e meia, cansei de ver miseráveis enlevados pelo discurso da maconha, se afundando em vícios mais graves. O fato de que existam médicos e engenheiros usuários que conseguem ser produtivos não autoriza que se libere a droga para população inteira que vive em condições subumanas e que, por isso mesmo, estará mais suscetível ao consumo de drogas hoje como esteve ao do álcool ontem. E isso num país que não tem leitos para tratar dependentes químicos!

Dr. Içami Tiba disse: "quem é feliz não usa drogas". Nós, especializados em fabricar infelicidade, deixamos promover a Matrix (a fuga da realidade) que pretende a Marcha. Maconha era tolerada nas senzalas por acalmar escravos de ego aniquilado. Em regiões de minas é tolerada, porque tranqüiliza operários à beira da morte. A Marcha defende anestésico para oprimidos.

Por essa clareza da droga como instrumento de controle social, lideranças da periferia como MV Bill, o rapper Gog, e o escritor Ferréz já tenham expressado posições contra o debate da liberação agora. "Primeiro  arroz, feijão e escola", disseram. O Observatório da Favelas da CUFA detectpu quase 90% de rejeição à descriminalização dentre essas populações desfavorecidas, que melhor sabem a tragédia do vício, porque não irão às clínicas bacanas de "rehab" em Laranjeiras ou Miami. Na outra face da moeda, a grande mobilização pró-maconha vem das classes abastadas, o que desmascara o viés de "guerra contra os pobres".

A lei brasileira já não permite prender usuários, justo avanço indispensável ao fim do abusivo esculacho policial. Mas a reprovação social e estatal à droga e sua propagação está clara. Que assim se mantenha. A desastrada decisão do STF esqueceu que a liberdade de expressão tem limite na proteção integral da criança e do adolescente, que não podem ser expostos à propaganda apologética feita pela Marcha, muito menos dela participar. Que as autoridades tomem providências.

E que a grande maioria silenciosa e calada, que se lembre: "os tímidos não herdarão o Reino dos Céus". É hora de falar o que se pensa. A vida dos nossos filhos em jogo. Como escrevi certa vez "A partir de certo ponto, certas marchas de uns, viram o suicídio de todos".

denilsoncdearaujo@gmail.com