Impulsividade pode levar adolescentes às drogas

Estado de Minas
Desejo de adolescentes por substâncias ilícitas é explicado por funcionamento distinto do cérebro. Em alguns jovens, o órgão tem inclinação para o consumo.

A adolescência é conhecida como uma fase de comportamentos imprevisíveis. A vontade de pertencer a um grupo também caracteriza o período, o que pode levar gente de pouca idade a experimentar drogas ilícitas. As escolhas de momento, no entanto, podem ter efeitos duradouros. Um estudo feito pela Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, e publicado em edição recente da revista Nature Neuroscience descobriu que o desejo por substâncias que alteram a percepção da realidade pode estar ligado a redes cerebrais específicas. Os cientistas afirmam ainda que, diferentemente do que se acreditava, os sintomas de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) não estão relacionados ao uso de entorpecentes no começo da adolescência.

Segundo Robert Whelan, psiquiatra da Universidade de Vermont que conduziu a pesquisa, o objetivo principal foi compreender o que leva alguns adolescentes a consumir drogas. Para isso, ele e sua equipe estudaram 1.896 jovens de 14 anos e focaram as análises em comportamentos impulsivos. Os voluntários foram instruídos a apertar um botão. Em um dado momento, os médicos davam a ordem para que parassem abruptamente com a atividade. Por meio de exames de ressonância magnética, os cientistas concluíram que os adolescentes capazes de deter o impulso de pressionar o botão tinham maior controle inibitório. Neles, sete redes cerebrais foram ativadas para que o comportamento fosse interrompido.

Em contrapartida, os médicos observaram que os jovens com atividade diminuída em uma rede cerebral que envolve o córtex orbitofrontal – região associada à experimentação de álcool, do tabaco e de drogas ilícitas – tendiam a usar drogas mais cedo. “Descobrimos que diferentes tipos de impulsividade, tais como as associadas ao uso de drogas, ao TDAH e à habilidade de cumprir a tarefa que impomos, são produzidas por diferentes regiões do cérebro”, frisa Whelan, em entrevista ao Estado de Minas. “Isso sugere que a impulsividade não é uma construção única.”

Atualmente, segundo Whelan, as alternativas para tratar a impulsividade envolvem remédios como a ritalina, usada em pacientes com TDAH, e práticas que auxiliam os jovens a treinar o autocontrole. Ele frisa que um controle inibitório deficiente é um fator de risco para a experimentação de substâncias perigosas na adolescência, que, por sua vez, se correlaciona com abuso de substâncias no fim da fase e na idade adulta. “Impulsividade é também uma característica de desordens clínicas, tais como o TDAH.”

Segundo o psiquiatra, o aprimoramento de testes técnicos para avaliar a existência dessa predisposição cerebral pode ser usado para delimitar biomarcadores que indicariam o uso de drogas em potencial. Os resultados, contudo, não querem dizer que pessoas com TDAH não possam se envolver com substâncias psicotrópicas. “Cerca de 40% dos casos de TDAH tendem a ser comórbidos como os de transtorno de conduta, que está relacionado ao uso de drogas”, frisa Whelan. “Além disso, nossos participantes tinham 14 anos. Há evidências de que o uso de drogas tem grandes chances de aparecer nos próximos anos da adolescência ou no início da vida adulta.”

AVANÇOS

Thiago Gatti Pianca, psiquiatra do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e especialista em psiquiatria da infância e da adolescência, diz que o grande número de adolescentes observados na pesquisa norte-americana trará avanços no entendimento do desenvolvimento do cérebro. Mesmo com os resultados do estudo, porém, o médico diz que não é possível afirmar se a área cerebral analisada já estava alterada antes do uso de drogas ou se foi modificada pelo consumo de entorpecentes – o que poderia influenciar no comportamento posterior de busca pelas substâncias. “É possível que ambas as hipóteses estejam ocorrendo ao mesmo tempo e se influenciando mutuamente”, ressalta.

Uma vez que o cérebro dos adolescentes ainda está em formação, Pianca diz que há algumas pesquisas que buscam encontrar tipos de intervenção para agirem preventivamente e “consertar” a falha cognitiva. Entre os métodos estão treinamentos, programas curriculares e até mesmo a prática de exercícios físicos.

Psiquiatra e membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Fernando Portela Câmara chama a atenção para outro ponto do estudo: além de depender de redes neurais de localização cortical e subcortical envolvidas no controle da inibição do impulso, o comportamento impulsivo pode ser um fator genético. “Ele pode estar associado a um gene implicado no transporte de norepinefrina, um neurotransmissor estimulante”, justifica. Para ele, a novidade do estudo está em localizar os principais fatores envolvidos em um assunto que já vem sendo debatido na medicina.

Por ser um déficit neurobiológico e/ou genético, a impulsividade naturalmente se manifesta durante a fase do desenvolvimento neuropsíquico, diz o médico. “Por isso, é vista precocemente em crianças e adolescentes”, completa Câmara. Luciana Nerung, também psiquiatra e colaboradora da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, diz que outros problemas psíquicos podem influenciar na busca por substâncias ilícitas.

“Um adolescente que começa a usar drogas pode já ter problemas anteriores, como timidez ou fobia social”, enumera. “Eles buscam na droga o tratamento para um problema e acabam com dois.” Como ainda não existem exames específicos para determinar quais adolescentes vão usar drogas e quais se “manterão limpos”, o conselho da médica para pais e responsáveis é prestar atenção nos filhos. “Os pais devem ficar atentos às evidências físicas, como olhos congestionados e cheiro de bebida ou cigarro”, conclui.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)