Vício atinge 90% dos jovens fumantes

Diário do Grande ABC
Em bares, casas noturnas, saída de colégios e universidades não é difícil flagrar jovens, inclusive menores de idade, que fumam cigarros despreocupadamente.

Há alguns anos o consumo demonstrava status e a maioria das vezes era temporário. Hoje, a situação é mais grave e adolescentes não encaram o hábito como passatempo. No Dia Mundial Sem Tabaco, especialistas alertam quanto aos perigos do vício precoce.

Dados fornecidos pelo pneumologista e coordenador do Ambulatório de Combate ao Tabagismo da Faculdade de Medicina do ABC, Adriano Guazzelli, apontam que 90% dos fumantes na faixa etária dos 18 anos já são dependentes químicos da nicotina. Geralmente adquirem o hábito entre 13 e 14 anos.

Hoje, cerca de 16% da população do Grande ABC entre 18 e 24 anos é fumante, o que corresponde a 51,8 mil pessoas. Há três anos, o índice era de 10%. Os dados são do Instituto de Pesquisas Socioeconômicas da USCS (Universidade Municipal de São Caetano). Nas sete cidades, 20,7% dos moradores com mais de 18 anos fumam.

A tendência a tornar-se dependente pode ser explicada, em partes, pela genética. A probabilidade de pais viciados gerarem filho com o mesmo vício é altíssima, segundo Guazzelli. A herança genética é desenvolvida como qualquer tendência a apresentar doenças como diabetes, hipertensão e até alcoolismo. A constatação explica porque algumas pessoas conseguem dosar o consumo durante a vida inteira e outras fazem uso de forma intensa. “Às vezes o vício não demanda anos de consumo e pode acontecer após as primeiras experiências, causando crises de abstinência”, explica o pneumologista.

O álcool também é apontado como vilão. Para o especialista da FMABC, o cigarro não é a primeira droga experimentada pelos jovens. “O pior problema é a bebida alcoólica. A associação dessas drogas é muito comum e perigosa. O consumo precoce precisa ter atenção dos pais, porque geralmente é a primeira droga utilizada pelos jovens.”

Ao contrário do que muitos pensam, a proporção de garotas fumantes se aproxima da dos meninos. Já na fase adulta o vício é mais comum entre homens. “Quando mais idosa a faixa etária, maior a diferença.”

Há ainda outro fator comportamental que exerce influência na fase adulta e pode ser enganosa. “Muitas crianças de 5 a 10 anos que combatem o vício dos pais acabam sendo fumantes quando adultos. É contraditório, mas os filhos sempre têm os pais como espelho e referência”, esclarece o pneumologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Alex Macedo.

Impor tratamento aos filhos não traz resultados

O serviço terapêutico oferecido aos ex-fumantes no Ambulatório de Combate ao Tabagismo da Faculdade de Medicina do ABC é gratuito. Por mês, são feitos cerca de 30 atendimentos – todos às segundas-feiras e realizados após encaminhamento da rede municipal. O tratamento de tabagismo na adolescência é raro. Em geral, os pacientes têm acima de 40 anos e quando procuram ajuda já estão com a saúde comprometida.

Fumantes chegam a perder até dez anos de vida por causa dos males causados, como doenças cardiovasculares, câncer de pulmão e laringe, infartos e derrames. Por isso, quanto antes interromper o vício, maior a chance de prolongar os anos de vida. “Quem consegue parar de fumar aos 35 anos, por exemplo, terá expectativa de vida parecida com a de quem nunca fumou. Depois dessa idade, as perdas são maiores”, alerta o pneumologista Adriano Guazzelli.

Os jovens que comparecem ao ambulatório especializado da FMABC atrás de ajuda representam apenas 0,5% dos atendimentos mensais. De forma voluntária, é praticamente impossível. “Quando recebemos, geralmente são trazidos pelos pais. Mas os resultados são ruins. Como qualquer droga, é fundamental ter motivação e desejo de parar. Não é só tomar remédio. Infelizmente falar com o jovem sobre isso é o mesmo que falar com ninguém. Por isso a importância de divulgar a prevenção. A ideia é que eles saibam cada vez mais cedo que parar de fumar não é uma opção, mas começar sim.”

Na fase adulta, os prejuízos à saúde causados pela dependência do tabaco são ainda maiores entre mulheres. Elas não precisam fumar tanto quanto os homens para desenvolverem os mesmos problemas. O organismo feminino é mais suscetível às doenças, além de ter de administrar fases da menopausa e gestações.

Jovens admitem problema e ignoram cuidado com saúde

Uma estudante do 1º ano do Ensino Médio de São Bernardo conta que começou a fumar aos 14 por vontade própria e afirma que não sofreu interferência de amigos. “Fiquei com vontade, experimentei e gostei.”

Um maço com 20 cigarros dura apenas dois dias e a dependência do tabaco não é mais tabu. “Acordo na fissura por um cigarro. Se um dia quiser parar, sei que será bem difícil”, admite. Segundo a estudante, a mãe sabe do hábito, mas não proíbe ou alerta quanto aos perigos da dependência precoce.

Em outros casos, a convivência com amigos fumantes acaba sendo decisiva para dar início à dependência. Outra estudante, de 17 anos, moradora de São Bernardo, começou a fumar em março por influência dos colegas. Em dois meses, já consome um maço de cigarro por dia. Ela revelou à mãe, que considera o hábito ´burrice`. “Mas ela diz que a vida é minha”, conta. A associação do cigarro com o consumo de bebidas alcoólicas contribui para agravar a dependência. “Há ligação sim. Aos fins de semana, costumo sair para beber e fumar com meus amigos.”

Alguns adolescentes que fumam escondidos dos pais ou avós admitem que tomam cuidado para camuflar o cheiro da fumaça. “Tento não fumar duas horas antes”, revela um adolescente de 17 anos. (Caroline Garcia)
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)