Cresce ajuda a usuários de drogas em Sorocaba

Diário de São Paulo
Atenção ao dependente químico aumenta desde a implantação do Programa Municipal de Combate às Drogas.

Quando ainda era criança, a má influência do tio o levou a entrar no mundo das drogas. O parente o incentivou a consumir crack e cocaína.

Teve dois filhos, mas a dependência química o afastou da mulher e da convivência com as crianças. Mais agressivo, começou a pedir dinheiro na rua para sustentar o vício, até que agentes de saúde o abordaram e o convidaram a frequentar um programa de tratamento que inclui trabalhos artesanais e diálogos em grupo – o Espaço Drop In da ONG Pode Crer.

Morador da zona oeste, ele é G.L.D., um dos dependentes sorocabanos beneficiados pela rede de apoio do Programa de Combate às Drogas de Sorocaba, que tiram jovens e adultos da área de exclusão para a reinserção, gradual e nunca obrigatória, à sociedade. “Meu tio me incentivou a consumir droga injetável, na veia, logo cedo. A partir daí, perdi o controle da minha vida”, diz o rapaz, hoje com 29 anos.

“Cheguei ao ponto de limpar vidros dos carros na Vila Angélica para arrecadar dinheiro e comprar crack no fim do dia. Até que um cara apareceu no farol e me convidou para sair daquela vida. Demorei para responder, mas aceitei”, conta.

Hoje, o jovem trabalha em uma obra e não troca seu dia a dia por nada. “Acordo diariamente às 6h, nem preciso de despertador. Sinto prazer pelo que faço. Não dou um ‘back na veia’ há nove meses”, afirma, orgulhoso. “O trabalho do agente foi fundamental para mim. Sem ele, estaria pedindo dinheiro na rua até agora.”

Ainda em tratamento, ele conta com o apoio da ONG Pode Crer. Na organização não-governamental, junto com outros companheiros, cozinha, organiza a casa (das 14h às 18h) e participa de oficina terapêutica. “Além do meu trabalho, vendo quadros de mosaico para salas e números de casas. “Aqui, me deram banho e comida. Graças a Deus, me reergui.”

Aos poucos, o rapaz tenta reconquistar a confiança da mulher, que ainda não o permite se aproximar de seus dois filhos. “Minha irmã me ajuda a convencê-la, mas ela não acredita que estou me recuperando. Meu estado era muito grave”, lamenta. “Me sinto mais valorizado.

Tento alugar uma casa para viver com a família. Estou de boa, tranquilo. Tinha 60 quilos, hoje tenho 75. Tive vergonha dos agentes, no começo, mas depois percebi que eles fazem o bem para a gente.”

Apoio/ O dependente tem o poio da ONG Pode Crer. O espaço acolhe e encaminha os dependentes, dentro de uma metodologia de tratamento comunitário. “Trabalhamos a relação da pessoa com a droga. Não somente oferecemos apoio a ele, como o acesso à saúde e moradia”, diz Marta Meirelles, coordenadora da organização. “Quanto mais rede de proteção, menor será o fator de risco. A dependência diminui.”

Ainda segundo ela, o encaminhamento deve ser feito quando a pessoa quer parar ou diminuir o vício. “Nossa meta é ajudar a parar, mas quem decide não é a gente. É o usuário.”

Hospital interna grávidas dependentes de crack

Nos próximos dois anos, a Secretaria de Estado da Saúde garante que vai investir mais de R$ 250 milhões para a implantação de 710 leitos de internação para dependentes em álcool e drogas no Estado de São Paulo.

Entre os projetos, está em fase de implantação mais 15 leitos especializados para tratamento de gestantes em Itapira, no Instituto Américo Bairral. Na região, o serviço deve ser implementado no Conjunto Hospitalar de Sorocaba, mas não há prazo.

Em março, o Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas), na Capital, passou funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo feriados.

Nove leitos de observação foram disponibilizados para atendimento de casos agudos. Agora os dependentes em álcool e drogas que necessitem de observação por um período maior de tempo não precisarão ser transferidos para outros serviços.

O primeiro serviço especializado no tratamento de gestantes com dependência química em São Paulo foi inaugurado em 10 de abril. O investimento é R$ 700 mil anual para a unidade estadual no Hospital Psiquiátrico Lacan, em São Bernardo do Campo, que oferece dez leitos para gestantes, com acompanhamento clínico, psiquiátrico e obstétrico.

Sérgio Tamai, coordenador de Saúde Mental da Secretaria da Saúde, afirma que “a criação do serviço foi feito a partir da observação de um aumento considerável de mulheres que, em razão da dependência, acabavam se prostituindo ou ficando em situação de vulnerabilidade”.

Para ser encaminhada ao novo serviço, a gestante deve procurar voluntariamente o Cratod e passar por processo de triagem. É o médico que indica a necessidade de internação, cujo período será variável, conforme a recomendação terapêutica proposta pela unidade.

O hospital encaminhou, em 2011, para a Vara da Infância e Juventude, 52 crianças cujas mães não tinham condições de manter a guarda do filho em virtude da dependência química.

Rede municipal acolhe mais de 7 mil usuários

Sorocaba tem unidade de atenção ao usuário de drogas desenvolvida, mas que ainda pode ser melhorada; município investe em consultórios de rua, treinamento a profissionais, ambulatórios e casas de acolhimento; objetivo é qualificar a abordagem

O Programa “Entre Nós”, coordenado pela Secretaria da Juventude, lançado em junho de 2011, criou um sistema que articula ações como tratamento em sistema de internação em comunidades terapêuticas.

O projeto mantém convênios com o Grasa (Grupo de Apoio Santo Antônio), para dependentes de 12 a 24 anos, Esquadrão Vida (tratamento masculino) e Lua Nova (adolescentes mulheres a partir dos 15 anos).

O Caps (Centro de Atenção Psicossocial) – Álcool e Drogas possui uma unidade para o jovem, que atende mais de 2.500 pessoas desde o início do tratamento e o outra para o adulto, que atende 4.500 sorocabanos.

Os Caps trabalham em sistema ambulatorial desenvolvendo grupos terapêuticos para o dependentes e seus familiares. Dispõem ainda de atendimento individual e acompanhamento psiquiátrico.

O Consultório de Rua, que já atendeu mais de dois mil dependentes, atua em nove regiões da cidade – Brigadeiro Tobias, Sabiá, Ana Paula Eleutério, Vitória Régia, Cajuru, Aparecidinha, Vila Helena, Nova Esperança e Ipiranga. “É uma unidade móvel que tem como estratégia ir até os usuários e dependentes de álcool e outras drogas a fim de garantir ampliação do acolhimento”, diz Maria Clara Suarez, presidente do Comad (Conselho Municipal Anti-Droga).

O Consultório faz atividades e intervenções educativas na rua, com equipe especializada de educadores comunitários, redutores de danos, psicólogo, assistente social e a supervisão médica.

Segundo Maria Clara, os hospitais fazem internação para os casos que necessitam de internação com contenção imediata. “Há grupos de mútua ajuda para famílias e dependentes de drogas, como Amor Exigente. O procedimento para as famílias e os próprios dependentes é buscar qualquer um dos serviços disponíveis na cidade, pois todos estão aptos a fazer a triagem, o acolhimento ou mesmo o encaminhamento dos casos”, explica Maria Clara. “Os Centros de Referência e Assistência Social e o Conselho Tutelar [para menores de 18 anos] também podem fazer os encaminhamentos”, acrescenta.

O Cread (Centro de Referência em Educação na Atenção ao Usuário de Drogas) treina profissionais que lidam com usuários. Até o fim do ano é prevista a inauguração de uma Casa de Acolhimento para crianças e adolescentes em tratamento no Caps.

Atendimento pode ser solicitado por telefone

A Secretaria Municipal de Saúde encaminha crianças, adolescentes e adultos para as instituições, casas de acolhimento ou ambulatório mais indicados ao caso do usuário. Se você é parente ou identificou um doente na rua, ligue para o telefone 156 ou para a Secretaria de Saúde, no (15) 3238-2100. Os contatos do Conselho Tutelar de Sorocaba (para denúncia de crianças e adolescentes em situação de dependência) são: 3233-0054 ou 3234-1704.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)