Álcool e anorexia: uma combinação explosiva

Zero Hora
Drunkorexia, termo em inglês, refere-se à associação entre álcool e a anorexia e é o mais novo agravante associado ao distúrbio alimentar.

Também conhecido como ebriorexia, o distúrbio consiste em inibir o apetite devido à ingestão excessiva de bebida alcóolica, embora o contrário também possa acontecer: o dependente químico desenvolver um distúrbio alimentar. A esse quadro acrescente vômitos, restrição alimentar, compulsão, angústia e características típicas da anorexia. É comum as pessoas acometidas desse distúrbio passarem fome para compensar as calorias adquiridas com o álcool ou provocarem o vômito por causa do excesso de bebida e de comida ingerida.

O álcool adquire a característica de diminuir a ansiedade e a dor gerada pela comida, além do efeito embriagante que serviria como uma fuga da realidade angustiante, falta de crítica, enfraquece a exigência da alimentação e, poroutro lado, sustenta a dependência em manter um corpo extremamente magro. Apropósito, pessoas com distúrbios ou traumas de infância têm uma probabilidade maior de utilizar o álcool como recurso para lidar com frustrações e conflitos emocionais.

Estudos do Centro de Informações sobre saúde e álcool (CISA) indicam que os anoréxicos estariam mais propensos à dependência de álcool, principalmente no que diz respeito a mulheres. No caso da drunkorexia, o uso de substâncias como cocaína, crack e anfetaminas também são comuns, pois ajudam a suprir a sensação de fome.

De acordo com o Programa da Mulher Dependente Química (Promud/IPq), 56% das usuárias de álcool ou de drogas que estavam em tratamento tinham algum tipo de transtorno alimentar. Desse percentual, 41% tinham transtorno do comer de modo compulsivo; 30%, bulimia; e 8% eram anoréxicas. Percebe-se que a compulsão é o ponto de intersecção entre os distúrbios alimentares, nos quais um dos alicerces que reforçam o problema é uma imagem distorcida do próprio corpo e, portanto, uma exagerada necessidade de se enquadrar a modelos de beleza e estereótipos estéticos. Talvez esse seja o principal motivo de mulheres sofrerem mais com os distúrbios alimentares: a vaidade. Porém, enganam-se aqueles que pensam ser a anorexia seja uma doença de gênero. Homens estão sujeitos às mesmas influências sociais e dificuldades semelhantes.

Em uma sociedade individualista, na qual o vínculo social está cada vez mais deteriorado, o culto ao corpo só evidencia o desamparo e o estado de abandono entre as pessoas. A falta de limites e os excessos são, portanto, formas destrutivas de preencher essas lacunas. Daí também a compulsão por jogos e compras.

A cantora britânica Amy Winehouse, que faleceu dia 23 de julho de 2011, é um exemplo de tudo isso. Bebia constantemente em seus shows, já havia sido presa por dirigir bêbada e por agressões, internada inúmeras vezes em clínicas e hospitais e usava crack. Nos últimos meses que antecederam sua morte, estava extremamente magra. É o retrato, possivelmente, do distúrbio.

Fato é que o ser humano reinventa-se todos os dias, transgride seus princípios e abdica das responsabilidades. A escassez de referências vem aniquilando as pessoas, que, por sua vez, recriam suas doenças. A drunkorexia é um mal contemporâneo, sinal do fracasso de expectativas e idealizações.
Breno Rosostolato
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)