Agricultores conseguiram substituir o plantio de fumo por outras culturas alimetícias

Todos os anos, cinco milhões de pessoas ao redor do mundo morrem de doenças ligadas ao tabagismo, um número alarmante que figura em diversas campanhas internacionais. O que talvez soe como novidade é que, não só o consumo, mas também o plantio do tabaco pode provocar doenças, e até a morte, em casos extremos de intoxicação, pelo simples manuseio da folha de fumo. O “mal da folha verde”, como ficou conhecida a enfermidade, é um tipo de intoxicação aguda causada pela absorção dérmica da nicotina. Em 2011, o tema foi alvo de um estudo da Fundação Fiocruz, que reconhece ocorrência de casos da doença no Brasil. Desde 2007, porém, a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) já havia realizado investigações epidemiológicas com o objetivo de confirmar a ocorrência do mal da folha verde, que, em geral, causa náusea, vômito, fraqueza, tontura e cefaléia. Segundo os estudos da Fiocruz, 77% dos agricultores acometidos pela doença nunca fumaram.

Além da questão da saúde, a cultura do tabaco (ou fumicultura) amarga uma lista de problemas econômicos, sociais e ambientais relacionada à sua produção e comercialização, sem mencionar o consumo, que é considerado um problema de saúde pública mundial. Ainda assim, muitas vezes, o fumo é a única alternativa de renda para famílias agricultoras, sobretudo na região sul do País, que concentra 95% da produção no Brasil, maior exportador de fumo no mundo.

Por isso, desde 2003, o governo tem implementado, através do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, o Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco. A consultora Beatriz Christianne Belinzoni, mestre em Ciências Agrárias, explica que a proposta é propiciar consultoria técnica, baseada em pesquisas e projetos de extensão para que os agricultores tenham condições de substituir uma parte ou a totalidade de sua produção de tabaco por culturas alimentícias. Na prática, através de parcerias locais, a ideia é ensinar como plantar outras culuras, o que plantar, como vender e para quem, dependendo de cada região. Com a diminuição do uso de agrotóxico (usado em larga escala no cultivo do tabaco), há ainda a perspectiva da produção por meio dos princípios da agroecologia, que favorece a recuperação dos solos e nascentes em que atuam os produtores.

O Programa, que já envolveu cerca de 30 mil famílias no País, surgiu a partir de um tratado internacional adotado em maio de 2003 por membros da Organização Mundial da Saúde – OMS, depois de três anos de árduas negociações e fortes pressões dos fabricantes de cigarros. Na época, os 192 países membros foram unânimes em se unir para declarar guerra ao cigarro, no que diz respeito ao controle da publicidade, o patrocínio, a venda de produtos do tabaco a crianças e adolescentes, o tratamento da dependência da nicotina, o comércio ilícito, a proibição do uso de cigarro em lugares públicos e a substituição de cultura do fumo por outras culturas economicamente viáveis. Esse último item inspirou a criação dos projetos de diversificação no Brasil.

Na época, a OMS divulgou um comunicado alertando que o tabagismo é a segunda causa de mortes no mundo, sendo responsável pelo óbito de um adulto em cada dez. “É o único produto legal que causa a morte da metade de seus usuários regulares. Isto significa que de 1,3 bilhão de fumantes no mundo, 650 milhões vão morrer prematuramente por causa do cigarro caso algo não seja feito”, alertava o texto.

Para combater o mau prenúncio, o Brasil saiu na frente e já conseguiu vencer boas batalhas contra a publicidade e a favor de políticas restritivas do consumo.

Com relação à questão do cultivo, a consultora Beatriz Belinzoni também considera que os avanços são importantes. Ao todo, são cerca de 60 projetos de diversificação no País que estimulam e auxiliam na transição da fumicultura para diversas outras atividades agrárias, propiciando aos produtores mais qualidade de vida, mais lucros e menos riscos. Segundo a agrônoma, que desenvolveu sua tese de mestrado sobre a situação da produção de fumo em Santa Catarina, os dados econômicos e os resultados das entrevistas mostraram que existe uma superexploração dos agricultores pela indústria do tabaco, além de implicações negativas como as condições desumanas de trabalho e insalubridade, que envolve crianças, jovens e idosos, além do altíssimo custo dos insumos e da grande quantidade de agrotóxicos utilizada, que também impõe vários e sérios riscos à saúde dos lavradores.

A pesquisadora explica por que o trabalho do cultivo do tabaco é extremamente exaustivo. “A secagem do fumo em estufas movidas a gás exige uma dinâmica que determina que os trabalhadores acordem e regulem a temperatura de duas em duas horas, ou seja, à noite, dormem interrompidamente. Assim, durante três meses de colheita, trabalham cerca de 20 horas por dia”, conta. Além disso, o alto custo da produção consome 70% de tudo que os agricultores faturam, pois a cultura do tabaco exige altas quantidades de agrotóxicos e outros insumos agrícolas, além de equipamentos. No final, o preço pago pelo quilo de fumo é muito baixo, não compensando o investimento.

Um dos parceiros na implementação do Programa Nacional de Diversificação é a Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), uma organização não governamental que atua com agroecologia no estado de Santa Catarina. Segundo o colaborador Fernando Angeoletto, um dos motivos para o alto custo da produção do fumo nas propriedades é a relação de exploração que existe entre a indústria fumageira e os produtores. Fernando explica que os representantes da indústria exigem que os agricultores assinem um contrato que impõe condições abusivas como a utilização de uma enorme quantidade de insumos e agrotóxicos e equipamentos agrícolas que são financiados pela própria indútria a preços muito mais altos que o de mercado. Dessa forma, os produtores contraem dívidas que os deixam presos à indústria.

Com a conversão da cultura do tabaco por pasto ou plantações de frutas, hortaliças e verduras orgânicas, os agricultores economizam em fertilizantes, agrotóxicos e conseguem agregar valor à sua produção, que pode ser vendida em feiras agroecológicas, para supermercados ou mesmo para o governo, já que os produtores participam de um sistema de certificação participativa de orgânicos da Rede Ecovida, que, a partir desse ano, é reconhecida por lei.

Outra vantagem da produção alimentícia em detrimento da fumicultura apontada por Fernando é que o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF determina que as escolas municipais comprem 30% dos seus insumos dos agricultores familiares, o que gera uma renda certa e justa para muitos produtores da região.

O agricultor Reginald Melcher, do município de São Bonifácio, onde recebe assessoria da Cepagro, é um dos pioneiros na transição da fumicultura para a agroecologia e diz só ter motivos para comemorar. Com o ganho em saúde dele e de sua família, da melhor qualidade dos solos e do aumento dos rendimentos, ele conseguiu convencer seus vizinhos a abandonarem o tabaco também. Hoje, ele se transformou em uma liderança local e vende a produção dele e de outras famílias de sua comunidade em uma feira de orgânicos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. “Se fosse para continuar com o plantio de fumo, hoje, não estavam mais no campo”, assegura Reguinald.

Outro produtor que celebra a melhoria da qualidade de vida é Gilmar Cognacco, de Leoberto Leal, que substitui o cultivo de 160 mil pés de fumo por um sistema ecológico altamente diversificado. Em sua propriedade, mescla uva, hortaliças e verduras. Hoje, ele lembra do sofrimento que passou com o fumo e relata com entusiasmo as mudanças na propriedade, mais saudável, colorida e lucrativa.
Fonte: Aventura e ação
Fonte:INCA – Instituto Nacional de Câncer, Ministério da Saúde