Baixa adesão no combate ao crack

Correio Braziliense
Das 27 unidades da Federação, apenas 12 aderiram ao programa Crack, é possível vencer.

Presidido pelo ministro Alexandre Padilha, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) vai cobrar, em reunião marcada para amanhã, mais recursos ao programa Crack, é possível vencer, lançado pela presidente Dilma Rousseff no fim do ano passado. O colegiado pretende pedir um extra de até 15% do valor previsto inicialmente — R$ 4 bilhões até 2014. Apesar da reivindicação, a verba mal começou a ser gasta. Até agora, somente R$ 1,3 bilhão foram comprometidos para serem aplicados nos três anos de programa. Das 27 unidades da Federação, apenas 12 aderiram ao plano. Enquanto o governo diz que está tudo dentro do cronograma, especialistas criticam a iniciativa.

O conselheiro nacional Clóvis Boufleur reconhece que o programa passa por um momento de fragilidade por não apresentar resultados expressivos. “Certamente a gente tem pouco conhecimento do índice de sucesso para poder, inclusive, pedir aumento. Qual o índice de sucesso dos programas de governo na área de saúde mental? Não tenho essa informação”, explica.

Entretanto, Boufleur, baseado na abrangência do dano que a droga traz à sociedade e no público em potencial do programa de 50 milhões de pessoas, acredita que a proposta é justificável. Índice da Confederação Nacional dos Municípios mostra que 71% das cidades brasileiras enfrentam problemas causados pelo uso de entorpecentes. “Estamos falando de um quarto da população brasileira que precisa de atenção especializada”, alega.

A proposta de reajuste, elaborada pela Comissão Intersetorial de Saúde Mental (CISM) do CNS, será apresentada aos demais conselheiros, representantes de entidades civis organizadas e do governo federal. Caso não consiga o aumento do repasse do programa — que envolve também os ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da Justiça e da Educação — o conselho promete lutar para que, pelo menos, o previsto não seja alterado nem sofra contingenciamento.

A limitação de recursos, porém, não é o principal entrave para o desempenho do Crack, é possível vencer, na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Joaquim Ferreira de Melo Neto. “Falta alguém para fazer a ação acontecer. A adesão é baixa. Estados como São Paulo, que tem o maior montante a ser comprometido (R$ 569 milhões só do MS) e é um dos principais, ainda nem sequer aderiram. Pelo que vemos, muito pouco foi criado”, analisa.

Neto também critica a organização do plano. “A intenção é boa, difícil é operacionalizar. Consultórios de rua, que estão sendo potencializados no plano, não vão dar resultado, mas pode ajudar. Os estudos mostram que clínicas ou comunidades terapêuticas têm dado mais resultado, mas é preciso obedecer uma metodologia séria. Melhorar com essas verbas que já existem”, avalia.
Câmeras

A ausência de resultados expressivos também está na área de segurança, por exemplo, as câmeras em pontos estratégicos das cracolândias para fazer monitoramento e rastrear traficantes prometidas pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, só devem chegar aos estados em novembro, quase um ano após o lançamento do programa.

Os ministérios da Saúde e da Justiça, entretanto, não consideram que as ações estão atrasadas ou enfrentem obstáculos. A assessoria de comunicação do Ministério da Saúde informou que o programa federal e o orçamento foram aprovados pelo CNS e ressaltou que a demora é normal, pois as equipes técnicas visitam os unidades da Federação para conhecerem a realidade e firmar uma ação participativa, processo que demanda tempo.
Colaborou Edson Luiz e Renata Mariz
Adesão lenta
As ações nos estados já enfrentam problemas. No Rio de Janeiro, por exemplo, só no primeiro mês de cumprimento do plano, 40% das 1.528 pessoas que foram retiradas das ruas abandonaram os abrigos e o tratamento para voltar às drogas. Na época, a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil afirmou que as estratégias de abertura de novos serviços na rede de atendimento ainda estavam sendo implantadas. A capital carioca deveria ter estreado o programa no Brasil, no entanto, a queda de dois prédios em janeiro e o desencontro na agenda dos representantes do governo federal e estadual atrasaram a inauguração, realizada apenas em abril, após três estados aderirem ao programa. O primeiro deles foi Pernambuco.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)