Usuários de drogas estão mais sujeitos a acidentes

Usuários estão mais sujeitos a quedas e atropelamentos, como ocorre na Avenida Antônio Carlos e viadutos da Lagoinha, onde se arriscam no meio do trânsito e no alto das encostas

em.com.br – Mateus Parreiras
De laje em laje, se esticando na ponta dos pés sobre um estrado velho de cama que serve de escada e apoiando as mãos em canos de drenagem e buracos, um rapaz de camisa xadrez escala as ruínas de edificações derrubadas para a duplicação da Avenida Antônio Carlos, no Bairro São Cristóvão, Região Noroeste de BH. Quando já está bem alto, a mais de 15 metros da avenida, se sente à vontade para preparar um cachimbo de crack e tragar sem se preocupar com a polícia.

A sensação de segurança contra a abordagem, na verdade, expõe os usuários de drogas da região da antiga cracolândia a riscos de acidentes e de mortes ao despencar das alturas ou serem atropelados em travessias às cegas durante o barato da pedra. Pouco abaixo do rapaz de camisa xadrez, numa outra laje, um travesti consumia a droga, absorto como se estivesse numa varanda sobre a via movimentada. Do outro lado, numa plataforma pouco mais baixa, quatro pessoas baforavam sem medo da altura.

O crack consumido por uma legião de maltrapilhos no entorno da Avenida Antônio Carlos e Complexo da Lagoinha aproxima os usuários do trânsito intenso, provocando atropelamentos e outros acidentes. Dos 167 mortos na capital mineira por uso de drogas lícitas e ilícitas, o crack respondeu por 40 (24%), perdendo para o álcool que teve 92 (55%) óbitos. Contudo, em 2000 a droga, que é subproduto da cocaína, registrava apenas um morto entre os 79 computados por todos os tipos de entorpecentes, descrevendo um crescimento de 2.400%. Naquela época, a taxa de mortes por drogas em BH seria de 3,5, exatamente a metade do risco atual, que é de 7, o segundo maior do país.

O corpo franzino e repleto de cicatrizes da jovem Marli*, de 24 anos, mapeia uma série de acidentes que ela sofreu perambulando entre as vias e viadutos do Complexo da Lagoinha para fumar crack. “É como a gente diz: estava doidona, né. Nem via que estava atravessando a rua. O carro passa, bate de lado na gente. As pessoas freiam depois, mas desistem de ver se a gente machucou e vão embora”, lembra. Em um dos acidentes, foi parar deitada no asfalto e esfolou pernas, braços e mãos. Marli conta que muitos amigos já foram atropelados. Por causa das feridas que não cicatrizam e da sujeira dos locais onde dormem, geralmente infestados de insetos e dos próprios excrementos, acabam vítimas de infecções. “Uma menina que vinha aqui foi atropelada. Machucou a perna toda, mas não tratou. A ferida ficou feia, a assistente social quis levar ao médico, mas ela só queria saber de fumar a pedra, fumar a pedra. Teve de cortar (amputar) a perna fora”, relata a usuária.

Vítimas

Segundo o presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas, Aloísio Andrade, os efeitos do crack são diferentes do álcool na formação de vítimas de acidentes. “Quem usa crack não se fere no trabalho, porque dificilmente trabalha sob o efeito do tóxico. Por outro lado, a degeneração cerebral é muito grande e rápida. A pessoa tem estímulos que interpreta mal, perde reflexos e até os instintos básicos de sobrevivência e autopreservação, que nos fazem escapar de situações de perigo”, afirma. Ainda de acordo com Andrade, a rotina de quem usa crack por longos prazos consiste apenas em usar a droga até perder os sentidos, acordar e usar a droga de novo “até não aguentar mais e sem se importar com o que está ao seu redor”.

Edu*, de 27, morador de Contagem, na Grande BH, diz ter escapado por várias vezes de acidentes enquanto estava alucinado pela droga nesses últimos meses em que vive entre viciados nos arredores da Antônio Carlos. “Não pode dar mole, não. Mas a gente vai e esquece mesmo. Aliás, nem lembra para onde estava indo”, disse. Um amigo dele não teve a mesma sorte. “O cara estava do meu lado. Aí, do nada, atravessou a avenida. A gente nem viu. Só escutou uma freada e um barulho de batida. Igual tem toda hora aqui. Foi então que vimos o cara no meio do asfalto”, lembra. O atingido teve fratura exposta na perna esquerda e precisou ser levado às pressas para o hospital. “Na hora do acidente, mesmo estando anestesiado, a gente sente. A dor é muita. O cara teve fratura exposta, berrou e chorou. Depois que a ambulância o levou, nunca mais vi.”

(*)Nomes fictícios
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas