Nicotina: grande vilã por trás do hábito de fumar

Panorama Brasil
Falar para os fumantes sobre os males que o hábito de fumar lhes causam, quase sempre não é novidade, mas o que muitos não têm conhecimento, é sobre o maior motivo que os levam a acender e tragar o cigarro: a dependência da nicotina.

Na última quarta-feira (29) foi celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Criada em 1986, a data tem como principal objetivo intensificar as ações de conscientização da população brasileira para os danos causados pelo cigarro.

A ação dá continuidade à campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS), lançada no Dia Mundial Sem Tabaco — 31 de maio — que aborda o tema “A Interferência da Indústria do Tabaco”, com o intuito de mostrar os prejuízos causados para o meio ambiente e, especialmente, para a saúde de milhares de pessoas no mundo inteiro. Além de alertar os jovens para que não adquiram o hábito de fumar.

Aos que duvidam dos efeitos das campanhas sobre a população, dados comprovam suas eficácias. No último dia 16 de agosto, um estudo divulgado pela revista inglesa de medicina The Lancet aponta o Brasil como um dos países que lideram o número de ex-fumantes no mundo.

Com base em uma pesquisa realizada entre outubro de 2008 e março de 2010, no Reino Unido, Estados Unidos e mais 14 países — Brasil, Bangladesh, China, Egito, Índia, México, Filipinas, Polônia, Rússia, Tailândia, Turquia, Ucrânia, Uruguai e Vietnã —, o país do carnaval e do futebol contabilizava 46,4% dos homens e 47,7% das mulheres que haviam deixado de fumar. Atrás apenas do Reino Unido — com 57,1% (homens) e 51,4% (mulheres) — e dos Estados Unidos — 48,7% (homens) e 50,5%, (mulheres) garantiu o terceiro lugar no ranking.

Campanha Nacional

A ação realizada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) — órgão do Ministério da Saúde —, neste ano, levanta a questão dos impactos negativos da indústria tabagista no meio ambiente, com foco especial nos homens e mulheres de 16 a 50 anos de idade, fumantes e não fumantes, para combater e prevenir a dependência. São seis os pontos abordados na campanha: desmatamento; poluição do ar, das águas e matas; uso de pesticidas e agrotóxicos; entrave ao desenvolvimento; incêndios; e fumo passivo. Para se ter uma ideia, nos países em desenvolvimento, cerca de 5% do total desmatado são utilizados nos fornos à lenha e estufas para secagem das folhas do fumo de tabaco que serão industrializadas, o que corresponde a uma árvore inteira queimada para cada 15 maços de cigarros que são comercializados.

Outra questão abordada na campanha é sobre a colheita das folhas de fumo que ocorre de dezembro a janeiro, utiliza a mão de obra infantil e interfere inclusive no calendário escolar das regiões produtoras da planta. A campanha lembra também que, no Brasil, cerca de 2.655 não fumantes — sete por dia — morrem por ano em razão de doenças relacionadas ao fumo passivo.

Nicotina: a vilã

Altamente viciante, a nicotina é a principal substância ativa encontrada no tabaco. Ela estimula o sistema nervoso central e altera o funcionamento cerebral. Por esse motivo causa rápida dependência. Euforia, excitação, liberação de adrenalina, e como consequência sensação de prazer e bem estar, são os principais motivos que levam as pessoas a ficarem viciadas.

Isso porque quando a quantidade da substância atinge seu mais baixo nível no sangue, o fumante sente a vontade de fumar novamente e a cada vez que ascende um cigarro, o intervalo de tempo para o próximo é ainda menor. Da mesma forma que a nicotina chega rápido ao cérebro — cerca de 10 segundos depois do primeiro trago — sua metabolização também é rápida e a sua necessidade de reposição é cada vez menor.

Tratamento sem nicotina

O processo viciante da nicotina, as propagandas que induz a sociedade de modo geral a fumar e como lidar com a fase de abstinência são os temas abordados na terapia, que demora cerca de seis horas, aplicada por Lilian Brunstein, da Allen Carr’s Easyway São Paulo (www.easywaysp.com.br). Ela afirma que a pessoa que fuma apenas um cigarro por dia é tão dependente de nicotina quanto a pessoa que fuma dez por dia e, por essa razão, o principal inimigo a ser combatido é a nicotina.

“Nosso método torna fácil parar de fumar porque ensinamos o fumante não enxergar a abstinência de forma assustadora. Removemos o medo que o fumante sente de sofrer com esse período”, afirma a terapeuta. “O fumante percebe que o fumo não representa nenhuma forma de apoio ou prazer”.

O método aplicado por Lilian foi desenvolvido em 1983, pelo inglês Allen Carr, tão dependente da nicotina que fumava aproximadamente 100 cigarros ao longo do dia. Sua técnica objetiva fazer “parar de fumar facilmente, de forma instantânea e sem sofrimento, sem uso de remédios, substitutos ou da força de vontade”.

Ao desenvolver seu próprio método de cessar com o vício da nicotina, Allen zerou a quantidade de cigarros que fumava diariamente e passou a aplicar sua técnica em amigos, até que abriu sua primeira clínica e escreveu o livro “O Método de Parar de Fumar”.

“Com o nosso método não há sofrimento nem saudade do cigarro, pois ele remove, sem luta ou tortura, a crença que o fumante tem, de que o fumo é um apoio ou prazer”, completa a terapeuta que afirma ter parado de fumar com o seminário que assistiu em Londres no ano de 2008.

“Comecei a fumar com mais de 30 anos, após passar por um período de estresse na minha vida”, relata. “Eu estava em Londres com meu marido, assistimos o seminário lá mesmo e nunca mais fumamos”, explica Lilian ao lembrar que durante os dois anos seguintes iniciou a tramitação para implantar o tratamento no Brasil, e desde março deste ano atende oficialmente pessoas interessadas em parar com a dependência.

Uma das primeiras clientes atendidas por ela foi a advogada carioca, 35, Luana Melo Martins Costa, que consumia até três maços de cigarros por dia. Fumante desde os 15 anos, ela viajou até São Paulo para se submeter a terapia e afirma que hoje “tem uma sensação boa de alívio”. “Não tenho mais cheiro de cigarro, recuperei meu fôlego. Foi a melhor coisa que fiz”, afirma. “Não sei explicar como isso acontece mas não tenho mais a menor vontade de fumar”, conclui.

Atualmente, a clínica atende em mais de 50 países pelo mundo e é responsável por transformar mais de 50 mil pessoas em ex-fumantes, a garantia está na devolução do investimento (R$ 590) caso o tratamento não ratifique o resultado esperado. Dentre as personalidades que pararam de fumar com o método estão os atores Ashton Kutcher, Anthony Hopkins e Anjelica Huston.

Outro tratamento que objetiva total eficácia no resultado de quem está disposto a parar com o vício é de auriculoterapia proposto pelo Instituto Marat (www.fumo.com.br), e aplicado pelo francês F. Marat há mais de 35 anos no Brasil.

Avesso aos tratamentos que incidem na reposição de nicotina, Marat aplica a técnica auricular em pessoas que realmente querem parar com a nicotina. “Fumar não é uma doença, mas leva às doenças”, critica ao lembrar que o tratamento por meio de chicletes ou cigarro eletrônico, por exemplo, é o mesmo que “fumar sem fumaça e podem até levar a uma maior dependência” e que os efeitos colaterais causados pelos antidepressivos utilizados no tratamento podem ser graves ao ponto de levar à morte. “Para administrar remédios a alguém é necessário ter uma doença. “Todos os vícios têm sempre a parte física e a psíquica. Nosso tratamento inibe a dependência que o organismo criou em relação à nicotina e faz com que ele não sinta mais a sua falta”, completa ao explicar que o processo incide em sensibilizar uma área estratégica da orelha, por meio de microporo, sem cortes e sem riscos de infecções.

O administrador de empresa Fábio Leite Bastos, 51, começou a fumar com 17, e em novembro de 2010 procurou o tratamento de Marat após ter tentado outras vezes, inclusive com antidepressivos. “Não sinto vontade de fumar, minha respiração meu paladar e respiração melhoraram”, afirma.

Responsável pelo êxito no tratamento de nomes como Muricy Ramalho e Carlos Alberto de Nóbrega, Marat coleciona milhares de isqueiros deixados por seus pacientes que largaram o fumo assim que saíram do consultório.

Para os que desejam realizar tratamento para cessar o vício da nicotina, mas não podem pagar, diferentes pontos de atendimento gratuitos estão disponíveis pela cidade e podem ser localizados em www.actbr.org.br

Repórter ex-fumante

Em julho a reportagem do Shopping News foi convidada por Lilian para o acompanhamento da terapia proposta pelo programa Allen Carr’s. Convocada para o desafio, aceitei e segui para o encontro. Confira:

“Fumante há 15 anos, nos últimos tempos comecei a sentir vontade de parar de fumar. Até já tinha conseguido ficar alguns meses sem consumir um único cigarro. Porém, qualquer situação, fosse de estresse ou até mesmo de descontração, me levavam a ascender mais um cigarro e aproveitar a sensação de prazer que ele me proporcionava. Por outro lado, minha preocupação com a saúde e com meu bolso tentava me convencer que era hora de parar. Eu ficava dividida entre a cruz e a espada: levar uma vida saudável ou ficar na pressão do que sentiria com a ausência do meu ‘companheiro’. No dia 3 de agosto fui ao consultório da terapeuta. Cheguei por volta 14h30 e não sai antes das 21h30.

Dias antes, eu havia recebido as instruções para participar da dinâmica. O que me chamou à atenção foi que eu deveria levar cigarros o suficiente para fumar em intervalos determinados pela terapeuta. Apesar de estranhar, segui a instrução.

Após o primeiro período de conversa, que durou cerca de 1h30, minha vontade de fumar era tamanha que quase pedi para sair da sala, quando Lilian propôs o intervalo. Fumei com muito gosto. Voltei ao consultório. Após mais 1h30 de conversa mais um intervalo para fumar. Fumei de novo, já não com tanto prazer, e sim com questionamentos. Voltei ao consultório.

Após mais 1h de conversa, mais um intervalo que eu já pensei um pouco mais se realmente valeria a pena fumar. Assim foi até o último intervalo, no qual Lilian informou que eu deveria descer e firmar um pacto comigo mesma: seria o último cigarro que eu fumaria na vida.

Fiquei um pouco insegura, porém, aceitei o desafio. Voltei entreguei minha carteira de cigarros com uma dedicatória a ela e desde então não coloquei mais nenhum cigarro na boca, mas minha respiração, sono e disposição estão muito melhor.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)