Um mal aparente

Revista Melhor
Empresas precisam consolidar políticas claras sobre o combate ao uso de drogas para preservar seus colaboradores e manter perspectivas de crescimento dos negócios.

Entre 2004 e 2011, o uso da cocaína e do seu derivado de baixo custo, o crack, cresceu 189% entre trabalhadores brasileiros, passando a ocupar o segundo lugar na preferência dos usuários, em lugar dos inalantes e solventes. A maconha continua sendo a substância ilícita de maior consumo entre os trabalhadores (veja mais em Consumo crescente). As informações fazem parte da pesquisa feita pelo Serviço Social da Indústria no Rio Grande do Sul (Sesi/RS) que, desde 1994, desenvolve com o escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) o Projeto de Prevenção ao Uso de Drogas no Trabalho e na Família. Nos seis anos desse que é o mais recente levantamento sobre o assunto, foram entrevistados 2.805 funcionários de 14 empresas de distintos segmentos. Essa amostragem serve como base para indicar quem já consumiu, ao menos uma vez na vida, drogas lícitas ou ilícitas no mercado de trabalho brasileiro. De acordo com Rosângela Lengler, gerente de responsabilidade social do Sesi/RS, à frente do projeto, vivemos numa época em que está mais fácil consumir drogas. Além disso, a sociedade tem mais dificuldade para se organizar no combate a essa disseminação. “Há uma sensação no aumento do consumo [das drogas] pela facilidade de sua distribuição e pela agilidade com que são estabelecidas as redes [de distribuição de entorpecentes], que se constituem mais rapidamente em comparação à formação de redes de enfrentamento, que pressupõe, entre outros aspectos, organização da sociedade civil e custos”, diz.

Rosângela conta que o consumo de drogas não é uma questão de etnia, credo ou condição socioeconômica. “Essa é uma situação extremamente democrática”, assegura. Segundo ela, ninguém está preparado para enfrentar essa realidade. Por isso, é preciso identificar onde o consumo começa e quais são os pontos de intervenção possíveis. “Sobretudo, deixar cada vez mais claros por programas educativos, os danos causados com esse comportamento”, define. Os primeiros registros de uso de crack por trabalhadores brasileiros surgiram em 2003. O consumo da substância cresceu rapidamente. Os dados históricos das duas primeiras edições do Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (2001 e 2005), realizadas pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid), com aproximadamente 8 mil pessoas de 12 a 65 anos de idade, apontaram o avanço da droga na sociedade como um todo. No período que separa as duas pesquisas, o percentual daqueles que haviam experimentado crack passou de 0,4% para 0,7%. A região Sul foi a que apresentou a maior quantidade relativa de usuários: 1,1% das pessoas entrevistadas na região relataram ter tido experiência com a droga. Mas o levantamento da entidade indicou, também, aumento no consumo de outras substâncias, entre elas, álcool, tabaco, maconha e cocaína.

Até o final de 2011, levantamentos de organismos federais e estaduais indicavam existir no Brasil de 600 mil a 1,2 milhão de usuários de crack, sendo 13 anos a idade média para início do uso. Nos anos de 2009 e 2010, entre os dependentes da substância tratados na rede estadual de saúde de São Paulo, o número de pessoas que ganhavam acima de 20 salários mínimos cresceu 155%, dos quais de 60% a 70% são considerados de classe média e principalmente da alta sociedade. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2002, ou seja, há 10 anos, já dimensionava o tamanho do problema gerado pela pedra do crack aos seus consumidores. Ao rastrear, na época, 131 usuários tratados em São Paulo, a universidade identificou que: 33% ficaram curados; 20% morreram; 17% recaíram no uso; 10% foram parar na cadeia. Outros 20% sumiram.

Todas as drogas

O uso de drogas é fato disseminado na sociedade e as empresas não estão livres de enfrentar esse problema: dependentes químicos são, em sua maioria, adultos inseridos no mercado de trabalho. Drogas são utilizadas, majoritariamente, por pessoas em fase de trabalho independentemente do setor de atuação. E a dependência de substâncias viciantes não se restringe apenas às drogas ilícitas. As psicólogas Mariana Guarize e Janaína Xavier Santos, do Hospital do Coração (HCor), de São Paulo, coletaram, entre abril de 2009 e março de 2010, dados sobre uso de remédios controlados feitos por 829 trabalhadores de nível gerencial e superior. O resultado desse trabalho, divulgado ano passado, mostra que 15% dos executivos entrevistados declararam usar substâncias psicoativas (ansiolíticos ou antidepressivos), em seu cotidiano, para combater algum tipo de sintoma causador de incômodos.

Segundo a médica, é comum os executivos terem receio de falar abertamente sobre o uso de alguma medicação psiquiátrica. “Há medo da estigmatização, de demonstração de vulnerabilidade. Outros sequer reconhecem o quanto estão estressados. O profissional só assume o uso de psicotrópicos em entrevista, não em formulários”, diz Mariana. Por gênero, as mulheres representaram 20% da amostra e todas apresentaram estresse elevado. “Isso está relacionado às maiores exigências a que estão submetidas quando ocupam cargos de destaque na empresa. Além disso, são elas, socialmente, as responsáveis por dar conta da família, da casa. Elas têm de estar presentes na vida dos filhos. É o que chamamos de “mulher elástico”, enfatiza.

Sob tensão

Ao sentir-se pressionada, uma pessoa tende, em boa parte dos casos, a recorrer aos ansiolíticos para controlar a parte emocional. É o caso, por exemplo, de circunstâncias nas quais um profissional precisa fazer apresentações para grupos de colegas, falar em público na organização. Nessas ocasiões, torna-se frequente o consumo de medicação para gerar tranquilidade. “Ele acredita obter melhor desenvoltura ao usar desse expediente. Entretanto, essa prática esconde uma série de questões individuais que necessitam de acompanhamento médico para solucioná-las”, argumenta Mariana. Daí, o uso frequente de remédios pela manutenção da sensação de calma ser base para transformar seu usuário em dependente químico. Outro exemplo frequente é o uso de remédio para combater a insônia. Grande parte dos executivos, com esse distúrbio do sono, depende de alguma substância para se desligar do trabalho e, consequentemente, relaxar. “Isso acaba gerando um quadro de dependência, quando utilizado com constância”, avalia Mariana. “O estresse está muito banalizado na atual sociedade. É como se fosse normal estar estressado. Drogas [lícitas ou ilícitas] tornam-se saída para algumas pessoas sentirem-se mais adequadas no convívio com os outros”, reflete.

Para Mariana, a saúde mental e emocional dos colaboradores no trabalho é atualmente um ponto de atenção das empresas. Mas é preciso avançar ao possibilitar que eles tenham maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, independentemente dos resultados gerados para o negócio. “É importante que as empresas ofereçam espaços para atendimento psicológico. Que a cultura da organização incentive à terapia. A inserção de psicólogos clínicos é uma prática de resultados”, garante.

Política de prevenção

De acordo com relatos médicos, usuários abusivos de substâncias entorpecentes possuem doenças psiquiátricas prévias não diagnosticadas, não tratadas ou mal tratadas. A droga funciona, então, como uma forma de driblar os sintomas. Por exemplo, a ansiedade pode ser encoberta, momentaneamente, pelo uso da maconha ou do álcool. A cocaína pode causar a impressão de um estado de alerta. Uma exceção a essa regra são os dependentes chamados de “pacientes puros”, aqueles sem nenhuma outra patologia psiquiátrica associada ao uso da droga, como transtorno bipolar, alimentar ou depressão. Por isso, ganha força a importância do desenvolvimento de uma política de prevenção em atenção à saúde emocional e mental dos colaboradores, evitando, no limite, possíveis perdas financeiras nos negócios.

Uma maneira de iniciar uma ação efetiva é a observação constante do comportamento do colaborador, principalmente, pelo gestor direto, a fim de identificar alterações de humor frequente, irritabilidade, sonolência, baixa produtividade, entre outras características associadas aos dependentes químicos. “A primeira fase do diagnóstico é feita por quem trabalha diretamente com a pessoa, que vai conseguir identificar alterações no comportamento do profissional”, reforça o psicanalista Arthur Guerra, que possui 32 anos de trabalho na recuperação e prevenção da dependência química. O segundo passo é encaminhar a pessoa para uma equipe multiprofissional, habilitada a lidar com essas situações. Em seguida, deve-se evitar a recaída. Em outras palavras, Guerra se refere a: tratamento, reabilitação e reinserção social. “Para o paciente nesse processo, difícil é não consumir a droga”, afirma. Dessa maneira, ele acredita que os empresários devem olhar para essas situações num contexto moderno de qualidade de vida. “No fundo, o objetivo da empresa é ter lucro. Mas elas precisam se manter, se preocupar com a sustentabilidade do negócio. E, para isso, é fundamental investir nas pessoas”, pontua.

Profissionais de amanhã

Na visão do psicanalista, a sociedade, sim, está mais usuária de drogas. Isso é preocupante por três motivos: a grande oferta; o consumo cada vez mais cedo na vida das pessoas; e o avanço das drogas sintéticas, fabricadas em fundos de quintais. “É um cenário pavoroso”, enfatiza Guerra, que foi um dos organizadores do primeiro levantamento nacional sobre o uso de álcool, tabaco e outras drogas, entre os universitários das 27 capitais brasileiras. Os resultados dessa pesquisa são importantes para as empresas porque são esses atuais universitários os profissionais de amanhã.

Os dados encontrados no trabalho de Guerra se assemelham aos levantamentos feitos pelo programa do Sesi/RS. Entre os universitários, 86% já fizeram uso na vida de álcool, 47% já consumiram produtos de tabaco e 49% usaram alguma substância ilícita. Quase 40% dos universitários usaram duas ou mais drogas nos últimos 12 meses e 43% relataram já ter feito uso múltiplo e simultâneo de drogas na vida. O estudo aponta, ainda, que 22% dos universitários estão sob risco de desenvolver dependência de álcool e 8% de maconha.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)