Drogas: histórias de quem convive com o vício

Viva Bem
Os dependentes químicos sofrem, assim como a família. Entretanto, quem já passou por isso afirma que é possível vencer.

Cresce cada vez mais o número de jovens que se envolvem com drogas por curiosidade e acabam como dependentes químicos. Sander Mecca, ex-integrante do grupo Twister e escritor do livro “Inferno Amarelo”, faz parte desse grupo. No entanto, após ficar preso dois anos por tráfico, não usa mais entorpecentes e é convicto: “Não vale tudo isso, qualquer viagem não vale tudo o que pode acontecer”.

Sander conta que começou a se envolver com drogas aos poucos, mas logo se viu viciado em cocaína, LSD, maconha e ecstasy. Quando foi preso por tráfico de drogas, em 2001, sofreu com a abstinência, mas ficar preso para ele foi o pior momento. Hoje vai ao psicólogo para controlar a doença, e admite: “o vício é uma coisa que eu vou carregar pra sempre”.

De acordo com o 1º Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre universitários das 27 capitais brasileiras, divulgado pela Obid (Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas), em 2010, 48,7% dos jovens universitários já experimentaram algum tipo de droga ilícita alguma vez na vida. Um quarto deles fizeram uso de quatro tipo diferentes de substâncias.

O problema é que, muitas vezes, o primeiro uso leva ao uso casual, mais tarde ao regular e, por fim, à dependência física e psicológica do usuário. Foi assim com Pedro*, 28 anos, que é viciado desde os 12. Ele começou a usar drogas por influência do pai, também dependente químico. “Eu nem sabia que meu pai usava alguma coisa, um dia vi ele fumando maconha e pedi para experimentar”, conta.

“Eu preciso do apoio da minha família”

Depois de ser internado por mais de seis vezes e fugir das clínicas, Pedro afirma que usa droga para fugir dos problemas. “Eu já estive pior. Teve momentos em que eu acordava e tinha que usar drogas, mas hoje eu uso como fuga”. Além disso, ele diz que em várias clínicas sofreu torturas, choque, e já ficou 87 dias trancado em um espaço muito pequeno sem ver a luz do sol. E quando volta para casa, há descrença da família sobre a sua recuperação. “O que adianta eu ser internado e quando eu voltar, ser como se eu não tivesse passado por nada?”, desabafa.

Ele admite o erro e diz que se arrepende de ter se envolvido com drogas, mas que acredita na própria recuperação. “Se eu já não acreditasse mais em mim, eu ia morar na rua, iria parar de trabalhar, mas eu sei que eu consigo”.

“Ele acabou com a minha vida”

Por outro lado, Sônia Maria Daniel, 52 anos, tia de Pedro e dona da casa onde ele mora, acredita que a recuperação dele virá somente após uma internação mais longa, de até dois anos. Ela conta que já sofreu ameaças do rapaz. “Eu tenho dó, mas ele entra dentro de casa pra fazer chantagem e ameaça por dinheiro”, conta. Segundo ela, o rapaz por várias vezes tentou a agredir e, na última semana, colocou fogo em um colchão dentro de casa.

Sonia lembra que, antes de usar drogas, Pedro era maleável, apesar de ter o gênio forte. Ela própria diz que tinha uma “vida de rainha”, era alegre e divertida. “A quantidade de dinheiro que eu gastei com ele dava pra comprar uma casa”.

Apesar disso, a tia não se sente culpada pelo envolvimento do sobrinho com drogas, mas para aceitar teve que entender que já tinha tentado todas as formas de tirá-lo dessa vida. Para ela, Pedro tem o pai como espelho, e por isso os dois são usuários. “Os dois já tentaram se matar! Eles chegaram a pegar uma faca cada um para brigar. Uma vez os traficantes já vieram cobrar dívida de droga na minha porta. Não é fácil conviver com dois dependentes químicos”, desabafa.

A relação de Sonia e Pedro com as drogas já dura mais de uma década, mas esse não é o caso de Leila*. Ela tem 51 anos, e é mãe de Felipe*, que tem 20, e se envolveu com drogas em 2008. “Quando eu descobri chorei muito. Comecei a perceber que o rendimento escolar dele estava péssimo e a maioria das coisas que ele falava era mentira”, conta.

No ano passado Felipe foi internado em uma clínica para reabilitação, na época usando também muita cocaína e álcool. Ele pediu perdão, mas já fugiu da clínica uma vez. “Em julho veio para casa e ficou seis dias, mas estava arrogante. Ele encerraria o tratamento após oito meses, só que a bomba veio três dias antes”, diz a mãe.

Felipe não foi liberado reiniciou o tratamento por mais seis meses. Ele teve o direito de sair para ajudar a cuidar de outros dependentes na praça da cidade onde está internado, mas conseguiu comprar a droga e a levou para dentro da clínica e, por isso, foi transferido novamente. Leila afirma que a família “já não é tão alegre como antes”, mas busca apoio em organizações especializadas neste tipo se situação. Além disso mantém a fé e o apoio que o filho precisa para encarar o problema. “Nós que só podemos ficar aqui fora orando, orando e orando”.

*Nomes fictícios foram usados para preservar os personagens
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)