Nova arma contra a cocaína

Correio Braziliense
Em um estudo com ratos, cientistas americanos observam que um remédio já receitado para pacientes com diabetes melito tipo 2 pode ser eficaz na redução do desejo de consumir a droga.

Consumida mundialmente, a cocaína age no cérebro inibindo a remoção do excesso de dopamina para o interior da célula. Com a substância circulando em maiores quantidades, o usuário da droga tem uma sensação de prazer em grande escala. Embora pareça inofensivo, o acúmulo do neurotransmissor no tecido cerebral provoca, com o tempo, a morte de neurônios, danificando o sistema nervoso central. Como se trata de uma substância viciante, combater seu uso se torna uma tarefa árdua que depende, principalmente, da força de vontade do usuário. Contudo, um medicamento utilizado no tratamento do diabetes melito tipo 2 pode ser um grande aliado no combate ao vício da cocaína. Pesquisadores da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, nos Estados Unidos, comprovaram que o remédio agiu no mecanismo de compensação da cocaína e os resultados foram publicados hoje na revista Molecular Psychiatry, do grupo de publicações da Nature.

A Exendina-4 (Ex-4) é utilizada no tratamento do diabetes por promover uma grande sensação de saciedade, além de reduzir os níveis de glicose no plasma e aumentar a produção de insulina após o consumo de alimentos. No estudo norte-americano, ela foi escolhida por ser uma versão de longa duração do glucagon-like peptide-1(GLP-1) natural. Este é liberado em resposta à ingestão de alimentos para, por meio dos mecanismos centrais e periféricos, regular a homeostase energética. A Ex-4 tem ação semelhante a essa proteína natural, só que mais potente.

De acordo com um dos autores do estudo, Gregg D. Stanwood, o medicamento foi injetado nos ratos para que fossem observados os efeitos de recompensa da cocaína. “Nós mostramos que a administração do Ex-4 atenua o gratificante efeito da cocaína em camundongos, salientando assim a terapêutica potencial do GLP-1 para o tratamento de dependência de psicoestimulantes”, diz o grupo responsável pelo estudo em um informe. Alguns dados sugerem que os hormônios e os peptídeos envolvidos no comportamento alimentar — como a insulina, o GLP-1, a orexina, a leptina e a grelina — podem ter o mesmo mecanismo de recompensa da droga. Dessa forma, as pesquisas buscam saber se essas substâncias podem ser utilizadas no tratamento de dependência. “Como a Ex-4 reduziu os efeitos de recompensa da cocaína, é possível que seja considerado um medicamento antidependência”, afirma o comunicado.

Já se sabe que as compulsões alimentares têm o mesmo mecanismo que o do desejo pelo consumo de drogas. Ambos envolvem o circuito de recompensa cerebral, agindo no núcleo accumbens e na área tegmental ventral. Essa ação é mediada especialmente pela dopamina. “A ativação desse circuito é um dos responsáveis pela sensação de prazer em compulsivos”, explica Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Universidade de Brasília (UnB).

Sem viciar

A constatação é que o GLP-1 desestimula o consumo de alimentos e diminui a compulsão ao ativar o sistema mesolímbico (via que projeta células para todo o sistema límbico, ligado ao processamento das emoções). Assim, o correspondente Ex-4 poderia ativar os circuitos cerebrais, sobrepondo os mecanismos ligados à sensação prazerosa da cocaína. Agora, se essa substância é capaz de substituir a sensação de prazer da droga, ela pode, também, causar dependência? “Embora nosso estudo envolva apenas ratos (veja infografia ao lado), não observamos nenhuma evidência de que o medicamento tenha propriedades que causam dependência por conta própria, mas sim que ela reduz as propriedades de dependência de cocaína”, explica Stanwood.

Como o Ex-4 causa tais efeitos ainda não foi totalmente estabelecido, mas acredita-se que o medicamento consiga ultrapassar a barreira hematoencefálica (membranas que protegem o cérebro) dos circuitos de dependência do cérebro e, pelo sistema dopaminérgico mesolímbico, altere as respostas de prazer tanto para a comida quanto para a cocaína. “A exendina-4 teve pouco efeito sobre o comportamento evidente, embora seja bem conhecida, a partir de estudos anteriores, que ela promova sensações de saciedade a alimentos”, ressalta o cientista. “O nosso estudo estende o potencial do valor terapêutico do GLP-1 para além dos distúrbios metabólicos e identifica um novo alvo molecular para o tratamento de abuso de psicoestimulantes”, completa.

Tratamento
Apesar dos resultados serem interessantes, Raphael Boechat, da UnB, ressalta que existem grandes diferenças entre os mecanismos de drogadição em humanos e em camundongos. “Mas concordo com os autores que o uso deste análogo ao GLP-1, que já é aprovado para o uso em humanos com diabetes, facilitando muito as pesquisas, pode abrir uma nova perspectiva para o tratamento biológico de drogadições, uma nova classe medicamentosa para se juntar às que já existem”, observa.

O tratamento de dependentes de outras drogas também pode ser pesquisado, incluindo o crack, um grande problema de saúde pública em vários países, inclusive no Brasil, atualmente. A droga tem mecanismos de ação muito similares aos da cocaína. “Hoje em dia, temos vários estudos para tratamento de cocaína, medicações de diversas classes e até técnicas não medicamentosas de neuromodulação com cargas elétricas e/ou magnéticas no cérebro. Temos ainda técnicas psicoterápicas e motivacionais, que não podem ser esquecidas em humanos”, enumera Boechat.

Segundo a equipe responsável pelo estudo americano, ainda são realizados testes para analisar as funções completas da dose utilizada e da resposta esperada. Na primeira fase, a dosagem de 10mg foi suficiente para atenuar os efeitos da cocaína. Autoestudos de administração também serão necessários para explorar a capacidade da GLP-1 em regular os processos que causam dependência. “É importante ressaltar que, apesar de eficaz, até mesmo a dose mais elevada de Ex-4 (100mg) não eliminou completamente a resposta da cocaína”, salienta Stanwood.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)