Usuários de crack na cidade podem chegar a 6 mil

O Globo
Estimativa do MP é o dobro da Secretaria de Assistência Social e leva em conta quem usa droga em casa.

O número de dependentes de crack no Rio pode chegar a seis mil, o dobro dos três mil estimados pela Secretaria municipal de Assistência Social com base nas abordagens feitas nas cracolândias da cidade. A avaliação é do promotor Marcos Kac, coordenador de Justiça Terapêutica do Ministério Público. Segundo ele, a estimativa de três mil não leva em conta quem usa a droga em casa e outros ambientes fechados:

— São casos de quem compra a droga, mas não é recolhido, por não estar em cracolândias. Por isso é muito difícil termos um número preciso. Mas essa quantidade pode ser o dobro. Estado e município têm que se preparar para essa demanda. Para isso, não basta só acolher os dependentes e tratá-los como se tivessem uma gripe. Para reintegrá-los efetivamente à sociedade, tem que se investigar a razão pela qual se drogam e buscar soluções.

Menores cheiram na orla

A Secretaria municipal de Saúde preferiu não antecipar as estratégias da nova política municipal, a ser anunciada em novembro, para os usuários. Essa política foi discutida quinta-feira entre o prefeito Eduardo Paes e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. As ações de recolhimento da Secretaria de Assistência Social continuam: nas proximidades de Manguinhos e Jacarezinho, quase não se veem mais dependentes.

Na quinta-feira, a prefeitura acabou com mais um “curral” do crack, derrubando tapumes na Avenida Brigadeiro Trompowski, na entrada da Ilha do Governador, em Ramos. Uma outra área cercada por tapumes do BRT Transcarioca, a poucos metros dali, já tinha sido alvo da mesma ação na quarta-feira. Sem as duas cracolândias, os usuários migraram para uma calçada na mesma via.

Além de lidar com o crack, os assistentes sociais podem ter um novo desafio. O uso de solventes, como cola de sapateiro, como entorpecente parece voltar a ganhar força. Na sexta-feira, em Copacabana, O GLOBO registrou flagrantes de menores cheirando cola. O presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Copacabana, Horácio Magalhães, disse ter observado nas últimas semanas um aumento do número de moradores de rua no bairro. E muitos se drogam com solventes ou crack. Na quinta-feira, Horácio enviou um ofício à Secretaria de Assistência Social alertando para o problema.

— Percebemos que a população de rua vinha aumentando mesmo antes da ocupação das favelas de Jacarezinho e Manguinhos. Isso pode estar acontecendo porque o número de abordagens da prefeitura à população de rua no bairro diminuiu — disse Horácio.

Moradora do bairro, a psicóloga Beatriz Acâmpora contou que foi abordada na manhã de ontem na orla por um rapaz que parecia drogado. Ele estava perto de outros moradores de rua entre a Rua Santa Clara e a Constante Ramos.

— Nos últimos dias, aumentou muito o número de pessoas dormindo na praia. Esse rapaz me abordou pedindo R$ 1,50 para o café. Eu me senti acuada e dei o dinheiro — disse Beatriz.

O comandante do 19º BPM (Copacabana), coronel Cláudio Costa, disse, baseado em relatos do serviço de inteligência, não acreditar que dependentes de crack tenham migrado para o bairro com o fim das cracolândias de Jacarezinho e Manguinhos. A Secretaria de Assistência Social informou que também não identificou esse problema.

Na sexta-feira, usuários de crack, segundo a polícia, causaram um incêndio, durante a madrugada, num depósito de carros da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), na altura do Trevo das Margaridas, em Irajá. O fogo atingiu diversos carros apreendidos pela especializada. O incêndio, que começou por volta de 1h30m, foi controlado pelos bombeiros. O trânsito na Avenida Brasil ficou tumultuado.

De acordo com agentes da DRFA e guardas do depósito, é comum usuários de drogas irem ao local a fim de roubar peças dos veículos para comprar drogas nas favelas da região. Um dos seguranças contou que, durante a madrugada de ontem, alguns usuários fizeram uma fogueira perto da cerca do depósito. O vento estava muito forte e levou as chamas até os veículos.

Carcaças são incendiadas

O Corpo de Bombeiros informou que ninguém se feriu. Apenas carcaças de carros foram atingidas. Automóveis que ainda continham combustível foram retirados do local. O acesso à Avenida Brasil, no sentido Zona Oeste, pela Via Dutra, precisou ser interditado. Os motoristas desviaram por um campo que fica em frente ao depósito. A via foi liberada durante a madrugada.

Essa não é a primeira vez que o local é atingido por um incêndio. Em agosto deste ano, cerca de 200 veículos foram destruídos pelo fogo provocado pela ação de vândalos. O local guarda mais de 31 mil veículos, mas a maior parte deles é sucata.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)