A economia do tabaco a caminho do cinzeiro?

Revista Amanhã
Tradicional no sul, a indústria do setor se mobiliza contra a aprovação do relatório que será analisado na próxima semana na COP 5, na Coréia do Sul.

A indústria do tabaco está apreensiva. Na próxima semana, em Seul, na Coréia do Sul, o Brasil participará de mais um encontro – o quinto – da Conferência das Partes (COP 5) da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT). Tradicionais no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, as empresas do setor sabem que o governo brasileiro vem se esforçando para diminuir a comercialização do cigarro dentro do país. Pudera: 80 mil pessoas morrem por ano no Brasil pelo uso frequente do tabaco. A indústria, porém, maneja argumentos econômicos – e invoca o interesse de milhares de pequenos produtores que vivem do fumo – para combater a adesão cada vez mais nítida do governo brasileiro às recomendações da Convenção-Quadro.

Segundo Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (Sinditabaco), os produtores da região sul estão de olhos bem abertos para acompanhar os desdobramentos da próxima edição do encontro. O possível apoio do Brasil ao relatório que será apreciado em Seul, afirma Iro, poderá prejudicar a produção de fumo de um país que é dono da segunda maior indústria de tabaco do mundo, e o maior exportador mundial da planta. As diretrizes estabelecidas pelo secretariado do COP 5 como proibir o acesso dos produtores de tabaco ao serviço de assistência técnica constam no relatório que, da parte do Brasil, será apreciado por representantes do primeiro escalão do governo federal – entre eles o Ministério da Agricultura e o da Saúde. Está incluída no relatório uma normativa que impede a criação de novas áreas de cultivo da planta e, ainda, estabelece a diminuição de área daqueles que já produzem. Além disso, a oferta de linhas de crédito para os agricultores diminuiria de forma considerável. “As medidas que estão previstas no relatorio estão no sentido de fazer uma migração forçada da produção de tabaco”, reage Iro Schünke.

Ele se diz preocupado com histórico comportamento do Brasil, que vem aderindo às diretrizes propostas pela COP 5, muitas vezes de forma pioneira. Ainda que os países participantes do encontro não sejam obrigados a fazer valer as sugestões da Conferência, o Brasil – indo na contramão de outras nações, reclama Schünke – é o único produtor de tabaco que assinou e ratificou as sugestões do colegiado internacional na última edição. O país foi além: por meio de resoluções, adotou a algumas medidas em forma de lei. Um exemplo recente foi o impedimento da produção de cigarros com ingredientes, um tipo de cigarro que representa 99% da comercialização no país. A imposição da Anvisa foi inspirada em um relatório aprovado no COP 4, realizado em Punta del Este, no litoral uruguaio, em 2010. “Quem adotou primeiro foi o Canadá. A diferença é que lá esse tipo de cigarro representa 1% das vendas”, compara Schünke. Nos EUA, onde o consumo dos cigarros com sabor é elevado, diversas pesquisas estão sendo feitas para constatar cientificamente se o produto é mais prejudicial que as demais opções de tabaco. “E aqui, sem nenhuma comprovação cientifica, simplesmente proibimos”, alega Schünke.

Os EUA, o maior produtor de fumo do mundo, somente assinou as recomendações, mas não as implantou em seu território. Países como Argentina, Zimbábue e Indonésia sequer assinaram os termos do relatório. “Isso é um contrassenso para o país que mais exporta fumo no mundo”, condena o presidente do SindiTabaco. O mercado brasileiro exporta, atualmente, 85% da produção de tabaco – fomentando um mercado que nos cálculos de Schünke deixa anualmente, somente na região Sul, um montante de R$ 4,6 bilhões de renda no campo, e emprega mais de 30 mil pessoas. “Durante todo o ano, várias tentativas foram feitas, envolvendo representantes da cadeia produtiva, no intuito de pedir mais diálogo sobre o tema. O pedido do setor é que haja um equilíbrio entre os aspectos relacionados à saúde e a importância da cadeia produtiva do tabaco”, argumenta Schünke.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)