Consumo de crack avança na capital federal

O Globo
Em 2006, polícia apreendeu 500 gramas; este ano já são mais de 55 quilos.

Um rapaz de camisa amarela caminha pelo Setor Comercial Sul, na área central de Brasília, olhando o chão em busca de alguma coisa. Ele recolhe as latinhas de refrigerante já vazias jogadas na rua e as parte com as próprias mãos. Lá dentro, espera achar os restos de pedras de crack que outros viciados deixaram para trás. Essa é a forma que ele, sem dinheiro, encontrou para alimentar o vício. O rapaz está no mesmo local em que, minutos antes, outra viciada, sem embaraço algum, abaixou a bermuda para urinar na calçada. Qualquer preocupação com a aparência ou com a higiene foi esquecida. As cenas estão a três quilômetros da Esplanada dos Ministérios, num dos focos mais comuns de consumo do crack na capital federal.

A 30 quilômetros do centro de Brasília, Ceilândia Norte é, segundo o delegado Luiz Alexandre Gratão, o ponto onde o problema é ainda maior. Logo em seguida, vem a zona central de Brasília, que inclui o Setor Comercial Sul, a cracolândia próxima ao Poder Federal. A área fica também a apenas três quilômetros da sede governo local. A polícia aparece, mas é só as viaturas se retirarem para os viciados voltarem.

— Sem dúvida, o crack é a droga que mais preocupa o governo do Distrito Federal, pelo crescente número de usuários que a gente vê na cidade, nas cenas explícitas de uso. Antigamente, a gente tinha o álcool e os inalantes como as drogas que via na rua. Hoje, essas drogas foram substituídas claramente, visualmente, pelo uso do crack, com o principal agravante de ser uma droga altamente viciante — diz o secretário de Justiça do DF, Alírio Neto.

O secretário não descarta a existência de cracolândias em Brasília. Mas acredita que o governo obteve êxitos desde que o Programa de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas foi lançado. Um desses “êxitos”: segundo ele, depois do trabalho do governo, os usuários deixaram os espaços públicos mais amplos e se refugiaram em outros lugares, como o Setor Comercial Sul, onde os prédios são mais aglomerados e permitem que eles se escondam.

— Esses usuários antes ficavam em praças públicas. E eles já estão de alguma forma procurando espaços não tão visíveis. Por quê? Porque com o nosso espaço de conscientização, de contato, de buscar adquirir a confiança dessas pessoas, eles ficam constrangidos e evitam (os lugares mais visíveis), se escondem — diz Alírio Neto. — Pode ter cracolândia, pode existir, sim. O que não existe em Brasília é uma política de colocar isso debaixo do tapete. Existe uma política de aproximação com o usuário e de convencimento de que ele deve se tratar.

— O usuário não se importa mais com as condições físicas, de higiene, de nada disso. O crack é devastador e dá uma visibilidade muito grande ao usuário. Ele fica na rua largado como um zumbi — resume o delegado Gratão, da Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) da Polícia Civil do Distrito Federal.

O consumo de crack em Brasília teve grande aumento nos últimos seis anos. Em 2007, segundo estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do DF, foram apreendidos 500 gramas da droga. Em 2008, foram quatro quilos. Em 2009, a quantidade triplicou e chegou a 12 quilos. No ano seguinte, o volume apreendido triplicou novamente, atingindo 36 quilos. Em 2011, foram 75 quilos. Somente no primeiro semestre de 2012, as apreensões chegaram a 55,7 quilos.

Além disso, em fevereiro, houve apreensão recorde da pasta-base da cocaína, a matéria-prima do crack: 365 quilos, o que equivale a 85% de todas as apreensões de cocaína no primeiro semestre deste ano.

— A estatística só de apreensão do crack é vaga, porque desses 300 e tantos quilos de pasta-base, a maioria iria para a produção do crack — explica Gratão.

Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), a fumaça do crack atinge o pulmão, vai à corrente sanguínea e chega ao cérebro, onde sua ação é responsável pela dependência. O uso da droga pode levar a doenças pulmonares, cardíacas e psiquiátricas, como psicose, paranoia e alucinações. O sistema neurológico é agredido, o que provoca oscilação de humor e problemas cognitivos, levando a dificuldades de raciocínio, memorização e concentração.

O crack atinge principalmente os mais pobres e vulneráveis, como os moradores de rua. Nos últimos anos, eles trocaram a merla — droga também obtida a partir da pasta-base da cocaína, misturada com substâncias como solução de bateria — pelo crack. As apreensões de merla no DF seguiram o caminho inverso do observado pelo crack: 138 quilos em 2009, 52 quilos em 2010, cinco quilos em 2011 e 1,4 quilo no primeiro semestre de 2012.

No Setor Comercial Sul, os usuários vão e voltam. Em geral o mesmo ocorre em toda a zona central de Brasília. É o chamado “efeito-sabonete”: quando a repressão policial chega a um lugar, os usuários procuram outro. Um dos locais do setor onde eles costumam se reunir é uma via que passa por baixo da Galeira Nova Ouvidor. Até o início dos anos 80, funcionavam lá dois dos melhores restaurantes da cidade — um deles, o Cachopa, frequentado pelas autoridades e pela elite brasiliense.

Hoje, no local, homens e mulheres se aglomeram para fumar crack, usando latas de refrigerante e de cerveja como cachimbo. Alguns deles vão em busca dos restos de outros usuários, catando o que sobrou e ainda é aproveitável. Os viciados não parecem se importar de estar num dos lugares mais movimentados da capital federal.

A higiene tampouco é uma preocupação: latas sujas são compartilhadas por vários usuários, em geral maltrapilhos, embora alguns se destaquem pelas roupas limpas e tênis de marca. Mas, independentemente da condição social, eles usam as mesmas latas e pedras de crack.

— O pessoal mais desfavorecido economicamente, as classes mais baixas e as pessoas que estão em condições de vulnerabilidade, que moram na rua, esse é o pessoal mais afetado. O que não quer dizer que não tenha uma entrada na classe média. A gente tem percebido isso — diz Gratão.

O governo do Distrito Federal não tem uma estimativa de quantos usuários de crack há em Brasília, mas eles estão entre os principais atendidos pelos Centros de Atendimento Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD). Segundo dados da Secretaria de Saúde do DF, no último levantamento, feito há um mês pelo CAPS-AD que funciona na Rodoviária do Plano Piloto — considerado o ponto central de Brasília —, foram registrados 702 prontuários ativos, dos quais 90% são usuários de crack.

Foi em setembro de 2011 que o governo do DF lançou o Programa de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, integrado por 15 secretarias e pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Segundo a Secretaria de Justiça, que coordena o plano, ele é composto por três pilares: prevenção, tratamento e repressão. O secretário Alírio Neto diz que o principal ponto é a prevenção:

— Prevenção é o foco principal do governo. O tráfico é um comércio e tem uma lei básica: da oferta e da procura. Se nós conseguirmos, por meio da educação, da cultura, criar a consciência, na juventude, na população, do risco de se envolver com a droga, a gente evitará também a dependência química. E diminuindo a procura, a gente diminui a oferta também. É uma forma também de combater o tráfico.

No campo da repressão, o delegado Gratão afirma que o foco da polícia no DF é atacar as grandes quadrilhas que trazem o produto para Brasília. Segundo ele, isso explica em parte o aumento das apreensões de crack e pasta-base de cocaína na cidade. Gratão não nega o problema, mas diz que ainda não é possível falar na existência de cracolândias em Brasília, como as vistas em São Paulo e no Rio.

Atacar o fornecedor também é a alternativa possível. Gratão acredita que, desde 2006, com a lei que instituiu Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), ficou mais difícil lidar com o usuário:

— Você traz o usuário para a delegacia e ele vai embora antes que você acabe o procedimento do termo circunstanciado (uma espécie de registro de ocorrência). Ele vai embora. Então não existe uma repressão mais. Não existe o risco do encarceramento do usuário. Isso deu mais tranquilidade para que eles possam adquirir drogas, usar drogas em quaisquer locais. Esse é um complicador. A polícia vai tirá-lo da rua, e daqui a pouco ele está lá de novo — critica.

Já para Alírio Neto, hoje, no Brasil, a falta de políticas públicas é o principal obstáculo para combater o problema do crack:

— O governo federal só lançou seu plano de enfrentamento às drogas este ano. E no último levantamento que fizemos na reunião de secretários de Justiça, quatro unidades da federação no Brasil têm políticas de enfrentamento às drogas. Não existem políticas públicas ainda.

Uma das medidas mais polêmicas — a internação compulsória — não é considerada pelo governo do Distrito Federal. Em nota, a Secretaria de Saúde informou que o procedimento é previsto na Política Nacional de Saúde Mental, mas “enquanto política pública não é cogitada no DF”.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)