Redução de danos ou tratamento médico?

Jornal do Campus – USP
Especialistas falam sobre as consequências do uso do crack e contrapõem tendências diferentes no tratamento do usuário.

Parece consenso que a existência de redutos de usuários de crack é um grande problema, característico dos maiores centros urbanos do país. Apesar de concordarem sobre esse ponto, especialistas de diversas áreas têm pontos de vista diferentes quanto aos encaminhamentos que devem ser dados para resolver essa questão: trata-se, afinal, de um problema criminal, de saúde pública ou social?

Para Cassia Baldini Soares, professora do departamento de Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem (EE), encarar essas zonas de consumo de drogas como um problema que cabe apenas à polícia ou às autoridades de Saúde não é a melhor saída. “As Cracolândias são compostas por pessoas com problemas de ordem social. A droga está inserida no contexto da moradia de rua, de viver à margem da margem da sociedade.”

A visão de Cassia se enquadra em uma concepção do uso de entorpecentes diferente da que é mais comumente discutida. Trata-se do movimento de redução de danos, uma contraposição ao paradigma da guerra às drogas, criado nos Estados Unidos, mas implantado no mundo todo. Segundo a docente, o modelo americano “parte de duas premissas: a de que todo o consumo de drogas é ruim e que é preciso aniquilar essas substâncias da face da terra”. As ações desse modelo se concentram, portanto, em ações educativas de prevenção em escolas e por meio dos meios de comunicação, assim como no combate intensivo tanto ao comércio quanto ao uso de entorpecentes.

No seu contraponto, acredita-se que o tratamento deve ter o usuário como foco, e não o combate direto ao uso da substância. A chamada Redução de Danos Ampliada tem como objetivo principal fomentar o debate público sobre o tema das drogas. “Nessas discussões, também é importante que os usuários sejam ouvidos”, destaca Cassia. Por isso, estimular que eles se organizem em grupos é imprescindível. “Além disso, é importante que eles tenham a oportunidade de reorganizar sua vida por meio do acesso a políticas públicas de educação, emprego, saúde”, complementa.

Outras medidas que fazem parte da mesma concepção têm como objetivo reduzir as consequências à saúde trazidas pelo consumo de drogas. Entre elas encontra-se, por exemplo, a distribuição de insumos como cachimbos e piteiras para evitar queimaduras, cortes ou a transmissão de doenças pelo compartilhamento desses insumos. “O usuário não necessariamente precisa entrar em abstinência da droga”, explica Cassia. Apesar disso, a utilização de tratamentos médicos, como a internação, não são descartados desde que o usuário concorde.

Para Arthur Guerra, psiquiatra, professor da Faculdade de Medicina (FM) e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Álcool e Drogas, a metodologia da redução de danos deve ser uma exceção, aplicada apenas quando o paciente não consegue deixar de consumir a droga. “Acredito muito pouco no modelo em que a pessoa continua se tratando mesmo usando o crack, por exemplo. O uso da droga é sempre prejudicial. Se o objetivo é que não haja danos, deve-se ficar em abstinência. É isso que vejo com meus pacientes”, conta Guerra.

O professor também critica a forma como a Polícia se relaciona com os usuários da região da Cracolândia de São paulo, onde, segundo ele, policiais ficam junto com os usuários, autorizam a venda e “fingem que está tudo bem”. “Eu entendo o lado social dessa atitude, mas como médico, não entendo aquele espaço. As ações deveriam ser mais objetivas. Não se pode fumar crack no shopping ou no metrô, então não se deveria poder fumar na Cracolândia”.

Tratamento

O primeiro passo do tratamento tradicional oferecido para os dependentes de crack é a abstinência completa. Depois, é preciso avaliar se existem motivos primários para o começo do uso da droga, como depressão, ansiedade, medo ou fobia. “Nesses casos, nos quais existe algum quadro que leve ao consumo, o crack é a ponta do iceberg. Existem outros fatores embaixo”. Esses fatores são tratados com medicamentos para controlar a ansiedade ou a depressão. Não existem, entretanto, medicamentos específicos para tratar ou controlar o vício.

O terceiro ponto do tratamento é o afastamento do álcool. Segundo o psiquiatra, o paciente não pode consumir nem doses reduzidas, pois o uso de bebidas alcoólicas o deixa mais vulnerável a retornar ao crack. Por último, a pessoa deve ter uma atividade que a ocupe. “A volta ao trabalho ou aos estudos vai dar base para que ela continue o tratamento de forma adequada”.

A internação, que pode ser voluntária ou compulsória, é um dos pontos mais polêmicos nas discussões tanto entre especialistas quanto entre leigos. “Quando o paciente não é internado, dificulta-se o tratamento. A internação pode ser curta, de duas ou três semanas, para fazer a desintoxicação e controlar a abstinência”.

Em casos extremos, quando o paciente apresenta comportamentos suicidas ou a paciente está grávida, por exemplo, Guerra defende a internação compulsória: “a menina não tem consciência do que está acontecendo, não sabe que toda a droga consumida irá direto para o feto. É a vida do bebê que está em jogo”. A internação, seguida da abstinência, vai permitir que a mulher avalie posteriormente o que quer para si mesma, de acordo com o especialista.

Entretanto, Guerra cita que muitos médicos não concordam com essa parte do tratamento, por acreditarem que o crack é um problema apenas social e para o qual a internação não traz resultados.

Efeitos da droga

Crack e cocaína são a mesma coisa. A diferença está na forma física e no modo como se dão os efeitos. “É uma cocaína mais barata, mais potente, com maior poder de dependência e bastante divulgada”, afirma o psiquiatra. Essa droga é um estimulante no sistema nervoso central e funciona dando um pico de energia. “Segundo os usuários, a primeira ‘pancada’ ou ‘tuin’ é muito prazerosa. Após alguns segundos, o efeito acaba e a pessoa vai fumar outras vezes buscando a mesma sensação, que nunca voltará a acontecer”.

Os efeitos do crack são muitos: paranóia, quadro de desconfiança, sintomas semelhantes ao da esquizofrenia. Arthur Guerra explica que a droga age principalmente no cérebro, no coração, nos rins e no fígado. Após um certo tempo de uso, a pessoa perde o referencial, os valores, se afasta de casa, vende tudo o que tem para conseguir a droga. Também deixa de cuidar da saúde, da alimentação e da higiene, ficando mais suscetível a doenças. Em mulheres, no geral, o vício leva à morte em seis ou oito meses. Em homens, o tempo é de um ano a um ano e meio.

Guerra considera o crack a pior droga por inúmeros motivos. Além de causar dependência de forma extremamente rápida – segundo o médico, a maioria das pessoas vicia depois do primeiro uso –, não existem programas efetivos de prevenção nem medicamentos que inibam o vício. Também faltam médicos, psicólogos e enfermeiros treinados para atender o paciente, segundo o especialista.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)