Usuários de crack são mais vulneráveis a contrair vírus da aids

Midia Max News
Pesquisa mostra que, no Recife, 5,3% dos usuários possuem HIV. Fato se dá porque muitos viciados se prostituem sem qualquer proteção para conseguir o dinheiro de comprar a droga.

Conhecer essa população ajudaria a guiar políticas públicas. A voz de Paulo era daquelas graves e firmes, o orgulho da mãe, Maria. Parece escutá-lo enquanto acaricia o retrato do rapaz, lembrança de quando o crack ainda não tinha se avizinhado para calá-lo. “Meu filho era lindo. O que dói mais é a vergonha de ele ter se acabado nas drogas. Não criei meu menino para isso”, lastima a mulher que não revela sobrenome. Em 2011, o técnico de som de Água Fria, Zona Norte do Recife, sentiu a devastação causada pelo derivado da cocaína ao mesmo tempo em que um vírus silencioso minava suas defesas. Sem saber que a aids vencia batalhas contra seu sistema imunológico, abriu a guarda para a pedra e perdeu a guerra. Desafiar a morte é exercício diário para consumidores da droga. Na capital pernambucana, 5,3% dos 365 usuários entrevistados em uma pesquisa do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM) tinham HIV, prevalência dez vezes maior que entre a população em geral no País.

O estudo do CPqAM, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é de 2009, mas constitui a mais recente investigação sobre como a aids afeta um grupo até então invisível para as políticas de combate à doença. “No começo, estávamos centrados no uso das drogas injetáveis, porque o veículo de transmissão era sanguíneo. Com a evolução da epidemia, observamos que comportamentos criminalizantes também estão associados à aids”, destaca a pesquisadora Ana Brito, do CPqAM. No caso do crack, o comportamento de risco está baseado na troca do sexo sem proteção por dinheiro para comprar o entorpecente: 66% dos entrevistados nunca usaram preservativo ou raramente se protegem.

Paulo se prostituiu para sustentar o vício até morrer, aos 32 anos. Morou na rua, como 21% dos usuários do levantamento da Fiocruz, e tinha menos de 35 anos, como 78% deles. No rosto da mãe, a autônoma Maria, nenhuma sombra de remorso por ter expulsado o filho de casa. Nem quando se lembra do dia em que o viu pela última vez, numa maca do Hospital Agamenon Magalhães (HAM). “Estava irreconhecível. Magro demais, sujo. Mas não me arrependo de ter botado para fora. Nada justifica ter ido para as drogas.”

As consequências da aids entre os usuários de crack são mais graves devido à vulnerabilidade em que se encontram. “Essas pessoas estão desprovidas de qualquer rede de apoio, estatal ou familiar. Estão fora do SUS e não acham que vão se infectar com o vírus da aids. Por isso tanto o HIV quanto o crack têm uma base social determinante. Combatê-los passa por mudanças de valores e comportamentos individuais e coletivos. Temos que ressignificar a vida”, conclui Ana Brito.

A relação entre o consumo de crack e o HIV não consta da notificação compulsória de aids no Brasil. Os usuários que se expõem ao sexo sem proteção para conseguir dinheiro entram no rol dos infectados por meio de relação sem camisinha. Conhecer essa população ajudaria a guiar políticas públicas integradas – ações conjuntas em saúde, educação, segurança, assistência social – que combatessem ambas as epidemias. Na esfera governamental, porém, esse plano não saiu da primeira infância.

Coordenador de um estudo nacional da Fiocruz que pretende traçar um mapa do consumo de crack nas capitais, encomendado pela Secretaria Nacional de Políticas Antidrogas, o pesquisador Francisco Inácio Bastos, da área de epidemiologia do abuso de drogas e da aids, considera pouco efetivas as políticas que enfocam a repressão policial.

“Tirar essa pessoa de um lado e ela ir consumir 500 metros à frente não adianta. Muitas vezes temos um trabalho imenso de atuar numa comunidade, ganhar a confiança, e aí vem a polícia e dispersa essas pessoas. Ou você integra segurança pública com saúde ou vai enxugar gelo para o resto da vida”, critica, referindo-se à extinção das cracolândias.

Os consultórios de rua, equipes multidisciplinares dos municípios, têm sido a estratégia mais eficaz na prevenção e adesão ao tratamento pela população com HIV usuária de crack. Eles levam para a rua profissionais de saúde que dão acesso a teste rápido de HIV, medicamento e acompanhamento clínico e psicológico, já que pessoas com esse perfil dificilmente buscam médicos por conta própria.

Francisco Inácio Bastos acrescenta que falta investimento na capacitação dos profissionais de saúde. “Isso vem desde a faculdade. Na minha não tive nenhuma aula de manejo desse tipo de problema, e hoje, quando pergunto a meus alunos na esperança de que tenha melhorado, vejo que não.”

Diante das falhas na assistência, as ONGs assumem parte da responsabilidade. Cláudia, 35 anos, moradora do Recife que prefere omitir o sobrenome, diz que só obteve apoio para deixar o crack há seis meses, com o grupo GTP+. Soropositiva desde 2002, trabalha na cozinha da entidade e já pensa em abrir banca de acarajé no bairro onde mora. “No mundo em que eu vivia, pensei até em me matar. O crack era o pior castigo. Vi amigos morrerem. Hoje sei que tenho direitos.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)