Associação entre baixo consumo de álcool e comportamentos de risco no trânsito entre universitários brasileiros

Acidentes de trânsito são responsáveis por mais de 1,2 milhões mortes no mundo a cada ano. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é a sexta principal causa de morte em países de renda média, como o Brasil. O Ministério da Saúde estima que entre 30 e 50% das vítimas que sofreram acidente de trânsito no país haviam ingerido bebidas alcoólicas previamente, reforçando o consumo dessa substância como um dos principais fatores de risco para internações hospitalares e mortes relacionadas aos acidentes de trânsito.

A literatura científica aponta uma forte associação entre comportamentos de risco no trânsito – em especial, a direção de veículos automotores e o pegar carona com motorista intoxicado – e o consumo excessivo de álcool. Entretanto, não há evidências que mostrem esta mesma associação com baixos níveis de consumo dessa substância.

Desta forma, um estudo recente teve como objetivo examinar se existe algum tipo de relação entre os padrões leves e moderados de álcool e os comportamentos de risco no trânsito entre universitários que participaram do “I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e Outras Drogas entre Universitários das 27 capitais brasileiras” realizado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), em parceria com o Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Foram selecionados 7.037 alunos de uma amostra representativa nacional, segundo critérios rigorosos de inclusão. Os participantes responderam voluntariamente a um questionário estruturado, anônimo e de auto-preenchimento, sobre dados sociodemográficos, comportamentos de risco e, com relação ao uso de álcool, o número médio de doses* habitualmente consumidas nos últimos 12 meses.

Os resultados mostraram que o risco de pegar carona com um motorista alcoolizado foi quase 4 vezes maior entre estudantes que ingeriram até 2 doses de álcool do que entre aqueles que não bebiam. Ainda, a probabilidade de esse comportamento ocorrer foi proporcional ao número de doses consumidas: os indivíduos apresentaram 6, 9 e até 15 vezes mais chances de engajarem-se nesse comportamento após consumir, respectivamente, 3, 4 e 5 ou mais doses de bebidas alcoólicas.

Em paralelo, o risco do estudante dirigir embriagado foi 4 vezes maior entre aqueles que consumiram álcool em níveis moderados (3-4 doses) quando comparados aos que haviam consumido 1 dose. Indivíduos que beberam 5 ou mais doses estavam 4,5 vezes mais propensos a se envolver em um acidente de trânsito.

Mesmo que pouco significativos, os dados também mostraram um aumento na probabilidade dos universitários (principalmente os homens) apresentarem outros comportamentos de risco no trânsito com aumento do número de doses consumidas. Entre eles, destacam-se: dirigir automóveis sem o cinto de segurança, em alta velocidade, ser advertido ou brigar no trânsito.

Em suma, este estudo destacou que, mesmo em baixas quantidades, o uso do álcool está associado a comportamentos de risco no trânsito, especialmente tratando-se de pegar carona com motorista embriagado. Os autores reforçam a necessidade de aplicação da Lei 9.503/1997 no que se refere às infrações de trânsito e sugerem que intervenções mais específicas devam ser implementadas a fim de prevenir consequências danosas do uso de álcool entre os universitários – não apenas aos motoristas, mas também para os passageiros.

* No referido estudo, uma dose de bebida alcoólica corresponde a 13 g de álcool puro, que equivale a 285 ml de cerveja, 120 ml de vinho ou 30 ml de destilados.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool