Quem está mais exposto ao uso nocivo de álcool?

O uso nocivo de álcool é um grande problema de saúde pública no Brasil e no mundo. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de dois bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas (40% da população mundial acima de 15 anos de idade) e, a cada ano, cerca de dois milhões de pessoas morrem em decorrência de consequências negativas desse uso (intoxicações agudas, violência e acidentes de trânsito).

No Brasil, a maior parte das pessoas é abstêmia ou consome de forma leve a moderada (15-30 g de álcool por dia, ou seja, de 1 a 2 doses*); por outro lado, 1 em cada 4 indivíduos faz uso pesado (acima do moderado) dessa substância. Em estudo conduzido na região metropolitana de São Paulo, denominado “São Paulo Megacity”, foi estimado que 9% da população apresenta diagnóstico de abuso, 3% apresenta dependência do álcool, e mais da metade da população consome álcool regularmente. No que se refere às transições entre os estágios de uso do álcool (não uso, uso, regular, abuso e dependência), mais da metade dos indivíduos (63,1%) que experimentaram álcool tornaram-se usuários regulares, cerca de 20% desenvolvem abuso e por volta de um em cada três indivíduos com diagnóstico de abuso chegam à dependência (1).

Para entendermos quais são os fatores que influenciam o consumo de álcool, devemos observar: políticas de saúde relacionadas ao uso do álcool, contexto cultural, gênero, idade e nível socioeconômico dos alcoolistas.

As principais políticas públicas que visam à diminuição do consumo nocivo no Brasil são: proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos e redução da tolerância dos limites de alcoolemia ao dirigir. Apesar de serem medidas importantes, carecem de fiscalização regular.

Em algumas situações, o uso do álcool está associado ao contexto cultural. É possível que o uso entre os jovens possa estar diretamente relacionado ao exemplo e até à permissividade por parte de familiares. Outro fato comum, é o jovem iniciar o consumo para se auto afirmar e ser aceito por um determinado grupo. Embriagar-se na tentativa de esquecer alguma situação adversa ao invés de enfrentá-la também pode estar relacionado à “cultura para o beber”. Há ainda pessoas que utilizam o álcool como uma opção de lazer, na falta de alternativas esportivas, culturais ou educacionais.

Estudos mostram que no Brasil há uma associação negativa entre o nível socioeconômico (geralmente medido pela renda e nível educacional) e o abuso e/ou dependência (1 – 5), ou seja, quanto menor a renda e o nível educacional do indivíduo, maior o consumo. Entretanto, no nordeste do país um estudo evidenciou o inverso(6), mais uma vez mostrando que o contexto cultural pode influenciar o padrão do uso de bebidas alcoólicas.

Quanto ao gênero, estudos de abrangência nacional demonstraram de modo consistente que os homens consomem mais álcool do que as mulheres em todas as idades e são mais propensos a desenvolver abuso e dependência, principalmente os adultos jovens (18 – 39 ou até 44 anos de idade). Porém, um estudo de abrangência internacional evidenciou que o consumo vem aumentando entre as mulheres, principalmente as de alto nível socioeconômico que vivem em países pobres ou emergentes (10).

O estado civil mostrou efeitos diferentes em homens e mulheres; homens solteiros apresentaram maior risco para uso do álcool, enquanto que as mulheres separadas/divorciadas/viúvas foram mais expostas ao beber pesado episódico (2, 7 – 9).

Nota-se que o uso do álcool permeia todas as classes sociais, gêneros e idades. Uma vez que os padrões de uso são complexos e multifatoriais, estratégias que visam reduzir o consumo e conscientizar a população dos riscos à saúde devem ser desenvolvidas por diversos setores da sociedade, como educação, política, economia e saúde. Nesse aspecto, une-se tratamento, prevenção, desenvolvimento educacional e social, sempre baseados em evidências científicas.

* 1 dose = 350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 40 ml de bebida destilada.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool