Políticas Públicas para a Maconha

ABEAD
Artigo escrito por Carlos Salgado

Carlos Salgado

Maconha não sai da pauta desde os anos 60. Ora com imagem maligna ora até terapêutica. Não é, certamente um produto qualquer. Como o tabaco e o álcool, merecem muito espaço em nossa reflexão cotidiana. Pois não é que, dia desses, uma jovem paciente me falava de uns dias passados na Califórnia, Estado americano cheio de ousadias sociais. Fumou maconha por Los Angeles sem qualquer constrangimento. E mais, soube que, por vinte ou trinta dólares, compraria um cartão que o habilitaria a apresentar-se como doente que demanda uso de maconha. Isto lhe permitiria acesso franqueado a farmácias verdes especializadas. Outros estados americanos avançaram para a liberação do uso chamado recreacional. Na Europa e mesmo na America latina, outros países ensaiam liberar a maconha.

É tentador fechar a reflexão possível em posições extremas, mas também parece inútil A perspectiva de uma sociedade com grande número de usuários de uma droga de ação longa e modeladora de atitude diante da vida e que desfruta de imagem de benignidade parece assustador. mas esta é a perspectiva do Psiquiatra que dá atenção a usuários transformados em pacientes por peculiaridades da interação gene-ambiente, incluindo, é claro, no ambiente a maconha. É uma vulnerabilidade muitas vezes já bem conhecida da família, outras tantas surpreendente para os entes mais queridos. Tipicamente são pais perplexos com a prioridade dada à droga, em meio a tantos potenciais interesses.

Jovens letárgicos, sedentários, gregários, entre iguais usuários mistificadores do estado mental produzido e mantido pela maconha. Todos, ainda que exitosos, inscrevendo-se dentre os de potencial significativo insuficientemente explorado. Um manto de ideologização de uma vida percebida como hedônica e avessa a supostos exageros de entrega a um sistema social devorador de ambições e, quem sabe, de vida.

Enfim, pregadores de uma vida simples, na verdade muitas vezes tristemente simplória. Cabe sempre lembrar que o viés aqui utilizado é o do Psiquiatra diante de sua clientela usuária de maconha a queixar-se de um desempenho pífio, pobre para um dado potencial. A vida tem muito a exigir e oferecer. A maconha entra na lista das ofertas de um custo não tão evidente, mas bem alto.

Todo esse arrazoado para enfocar a organização de Políticas Públicas específicas para a maconha em nosso Brasil. O debate já se tornou endêmico e segue aquecido. Em nosso congresso Brasileiro da ABEAD, marcado para a semana da Pátria deste próximo setembro vai repercutir a pauta social e científica que acolhe o tema da maconha. A tradição de debates aquecidos pela ciência e detonados por posições definidas deverá produzir um evento a marcar o calendário nacional na área da dependência química. Estamos tramando nos bastidores para que seja um sucesso histórico, capaz de mexer também em Políticas Públicas para a álcool, tabaco, maconha e outras drogas!

* Carlos Salgado é psiquiatra e coordenador da Comissão Científica do Congresso Brasileiro da ABEAD 2013