Consumo excessivo de álcool cresce 24% entre as mulheres

Folha de S. Paulo
Entre 2006 e 2012, aumentou para 18,5% a parcela de brasileiras que tomam quatro doses ou mais em duas horas

As mulheres estão bebendo mais e com mais frequência. Nos últimos seis anos, a proporção das que consomem álcool de maneira excessiva aumentou 24%, passando de 15% para 18,5% das brasileiras.

É o que revela o segundo levantamento nacional de álcool, divulgado ontem pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Foram entrevistadas 4.607 pessoas com 14 anos ou mais em 149 municípios brasileiros. Desse total, 1.157 eram adolescentes.

Segundo Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Unifesp e coordenador do levantamento, o aumento do consumo de álcool por mulheres reflete a maior frequência do ato de beber socialmente, e não em casa.

“Mulheres que socializam como homens estão bebendo tanto quanto eles.”

Esse consumo excessivo de álcool é o que os especialistas chamam de “binge”, isto é, a ingestão de quatro unidades ou mais de bebida, para mulheres, e cinco unidades ou mais, para homens, em um período curto de tempo (duas horas).

Na pesquisa, uma unidade de álcool equivale a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de vodca.

Entre 2006 e 2012, houve um aumento de 31% nessa forma de consumo entre os brasileiros que bebem.

Os dados mostram que, no geral, houve um aumento de 20% na proporção de bebedores frequentes (uma vez por semana ou mais).

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Segundo Laranjeira, o brasileiro tem um comportamento diferente em relação à bebida do observado em outras partes do mundo.

“Na Europa e nos EUA, há uma taxa baixa de abstêmios e uma taxa alta de bebedores moderados. Aqui, há muitos abstêmios e, comparando com os dados de 2006, quem já bebia passou a beber mais e com maior frequência”, disse o psiquiatra.

O levantamento mostra que quase um em cinco bebedores frequentes consome álcool de forma abusiva e tem um comportamento compatível com dependência.

Os dados também revelam que 32% dos adultos que bebem dizem já não terem sido capazes de conseguir parar de beber em alguma ocasião.

É o caso da funcionária pública federal Joyce, 49. Ela conta que sempre bebeu acima da média das amigas. “Enquanto elas estavam no primeiro copo, eu já estava no terceiro.” Após os 30 anos, ela perdeu o controle.

“Queria parar, mas não conseguia. Não bastava o fim de semana, comecei a beber também durante a semana. Não rendia no trabalho.”

Assim como ela, 8% dos entrevistados que bebem admitem que o uso de álcool já teve um efeito prejudicial no trabalho e 9% relataram que houve o prejuízo à família ou ao relacionamento.

“Minha filha já me viu sair bêbada de um bar. A sorte é que ela foi estudar no interior e não presenciou as piores cenas de bebedeira”, diz Joyce, livre do vício há dez anos.

Para Laranjeira, o aumento no consumo excessivo de álcool pela população brasileira reflete o aumento da renda nos últimos anos, principalmente entre as classes mais baixas.

Enquanto na classe A o consumo “binge” se manteve estável, nas classes C, D e E houve, respectivamente, um aumento de 43%, 43% e 48% nesse comportamento.

Os efeitos da Lei Seca também já podem ser percebidos: houve diminuição de 21% na proporção de pessoas que relatam terem dirigido após o consumo de álcool no último ano, em relação a 2006.

Para Ilana Pinsky, professora da Unifesp que também participou do estudo, entre as medidas que podem reduzir o consumo estão o aumento de preço das bebidas e a restrição dos locais de venda e da publicidade. Ela defende ainda mais ações de prevenção e tratamento.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)