Um pacto com o coração

Correio Braziliense

O mundo se une com uma meta em comum: diminuir em 25% as mortes por doenças cardíacas até 2025. Para tanto, é preciso combater o tabagismo, entre outros esforços

Os fatores de risco relacionados a doenças do coração estão muito bem mapeados — já não há desculpa para ignorá-los. Com os avanços da medicina, descobriu-se que hábitos antes tidos como seguros hoje estão entre os maiores causadores de morte entre pacientes cardíacos. Cigarro, sedentarismo e má alimentação são apenas alguns dos fatores que tornam as doenças cardiovasculares tão letais — no mundo, são 17,3 milhões de mortes por ano. No Brasil, 300 mil.

Sendo esses fatores controláveis — e, quase todos, evitáveis —, grande parte dessas vidas poderia ser salva, com impacto positivo nos orçamentos governamentais destinados à saúde. Atenta a esse aspecto, a Organização das Nações Unidas (ONU), com apoio da Federação Mundial do Coração (World Heart Federation — WHF), maior organização voluntária de cardiologia do mundo, estabeleceu uma meta: diminuir em 25% as mortes prematuras causadas pelas doenças cardiovasculares e outras não transmissíveis em todos os estados-membros até 2025.
 
Para tanto, o foco é justamente combater os hábitos danosos. “São 119 países que pretendem alcançar a meta até 2025. Nós temos certeza de que isso é possível no Brasil”, garante Johanna Ralston, CEO da Federação Mundial do Coração. Durante o simpósio “Reduzindo a Mortalidade Global em 25% até 2025”, em 5 de abril, no Rio de Janeiro, Johanna detalhou a agenda política da WHF e elogiou o atual Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) do governo federal. “É preciso manter o foco no programa brasileiro”, ressaltou. São consideradas DCNTs enfermidades como infarto, diabetes, câncer, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral (derrame) e doenças respiratórias crônicas.
 
O plano brasileiro dá conta dos quatro principais grupos de doenças não transmissíveis, somados aos seus riscos modificáveis — tabagismo, abuso de álcool, sedentarismo, alimentação inadequada e obesidade. Além disso, coloca as enfermidades cardiovasculares como a principal causa de morte e invalidez no Brasil, salientando a necessidade de reforço na vigilância da hipertensão, bem como maior investimento em educação e mobilização social, visando à saúde.
 
Durante o simpósio, a coordenadora do plano, Deborah Malta, garantiu que as doenças cardiovasculares são as que mais oneram o serviço público de saúde. Por isso, a ênfase em prevenção, como consagra em nosso ordenamento jurídico a lei que proíbe o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo fechado, privado ou público (artigo 49 da Lei nº 12.546/2011). “A lei já existe e está em processo de regulamentação”, explicou Deborah. Quando regulamentada, nem mesmo fumódromos serão permitidos.
 
A diminuição do número de fumantes no Brasil é considerada uma grande vitória. Uma pesquisa do ano passado do Instituto Nacional do Câncer (Inca), em parceria com a Universidade de Georgetown, em Washington, EUA, aferiu que, nos últimos 20 anos, o número de fumantes no país foi reduzido pela metade. A legislação antifumo, associada ao aumento de impostos sobre o cigarro, certamente desempenhou um papel importante nessa mudança. Calcula-se que entre 1989 e 2010, 420 mil vidas foram poupadas.
 
A batalha de cada um 
Apesar de conhecer os riscos e ter desejo forte de abandonar o fumo, a produtora cultural Juliana Sangoi, 29 anos, sabe o quão complicado é deixar o maço de lado. Ela, que começou a fumar aos 15 anos, já conseguiu ficar sem o cigarro duas vezes. “Fiz o programa antitabagismo do Ministério da Saúde a primeira vez e parei por um ano. Quando achei que estava livre, experimentei um e o desejo voltou com tudo.”
 
Tentou novamente o tratamento e, de acordo com ela, o diagnóstico indica que sua dependência de nicotina é zero. “Eles me disseram que só continuo por conta da ansiedade”, afirma. Ela garante sentir medo, já que conhece todos os riscos envolvidos na sua escolha. Em compensação, mantém uma rotina de exercícios físicos e cuida da alimentação. “Só que cada cigarro que ponho na boca me faz pensar nos perigos. E isso me traz problemas até em casa, porque meu marido odeia.”
 
Manter cuidados em alguns aspectos e negligenciar outros não é um bom negócio, explica o professor de medicina Jagat Narula. Diretor do Programa de Imagem Cardiovascular do Zena and Michael A. Wiener Cardiovascular Institute, ele assegura que os fatores de risco não precisam estar conexos para desencadear doenças crônicas. Da mesma forma, a epidemia de mortes por doenças cardiovasculares não se explica apenas pelo tabagismo persistente de parte da população.
 
É preciso analisar a quantidade de pessoas expostas ao conjunto de fatores — daí entendemos de que forma aquele grupo é mais vulnerável. “Geralmente, herdamos fatores de risco e não doenças vasculares. A prevenção dos fatores de risco antecede a das doenças”, explica Jagat, que também é chefe de cardiologia da Philip J. and Harriet L. Goodhart. O médico alerta ainda sobre os valores que, hoje, são considerados normais para os perigos modificáveis, como a pressão alta e o colesterol: “Esses não são valores normais para um ser humano. São os valores normais de um ser humano em situação de risco de morrer prematuramente de doença vascular”.
 
Por isso, o susto que acomete aqueles diagnosticados com problemas relacionados ao coração. Quando tinha 45 anos, a empresária Virgínia de Pina Oliveira, hoje com 57, teve uma alta de pressão durante o trabalho, indo diretamente para o hospital. Lá, a suspeita: hipertensão. “Eu já tinha histórico familiar, não praticava exercícios e tinha uma rotina de trabalho muito estressante. Além disso, nunca havia me preocupado com a alimentação e sempre gostei de sal. Só que não imaginava que pudesse ficar doente”, lembra. Um mês de monitoramento fixou o diagnóstico. A adaptação veio com grande dificuldade.
 
“Tive que alterar muita coisa. Agora, sei o quanto gordura animal é ruim para o meu organismo e hoje passo mal quando como carne vermelha. Não como mais frituras e caminho todas as manhãs. Mas foi muito complicado.” Mesmo vendo a situação da esposa, o marido de Virgínia não mudou a relação com o cardápio e a atividade física. Agora, a empresária conta que ele também está sob o risco de desenvolver a doença. “Tenho muito medo de sofrer do coração”, garante.
 
Segundo Jagat Narula, não é correto relacionar diretamente o envelhecimento da população com uma maior incidência de mortes por doenças cardiovasculares. “A idade em si não pode ser considerada um fator de risco. Ela representa a duração da exposição aos fatores de risco.” Mesmo assim, o especialista afirma que, apesar de ser necessário pensar no todo, é contraproducente não mirar em determinados fatores com maior afinco. O cigarro é citado novamente nessa justificativa. “O fumo está relacionando a mais doenças, por isso deve ser visto com mais atenção. Quando se escolhe contra o que lutar, é preciso mirar nos obstáculos que afetam uma maior parte da população”, reflete. Para Narula, não há outro modo de vencer as DCNTs: “Quando a pessoa se torna um paciente, a vida não está mais somente nas mãos dela. O mais importante é prevenir”.

Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)