Qual é a droga de Denis Russo Burgierman?

por Carlos Roberto Rodrigues – Presidente da Abrafam

Na qualidade de pai de dependente químico e presidente da ABRAFAM – Associação Brasileira de Apoio às Famílias de Drogadependentes – não posso me calar diante do artigo “A droga de cada um” publicado no blog de Denis Russo Bugierman.

Não sei o que Burgierman usa para liberar os seus mediadores químicos, pois, seu texto não revela. Ele só revela como sua mãe, os glutões, os yogues e os jogadores fazem para liberar a dopamina. Assim, é impossível saber qual é a real intenção de Bugierman quando contesta os modelos de tratamento e recuperação do dependente químico que têm a abstinência às drogas como objetivo.

A dependência química é uma doença familiar, multifatorial, crônica e progressiva. As famílias quando buscam tratamento desejam ver o seu familiar livre de qualquer droga. Os pais não aceitam entregar os filhos a tratamento que tem o objetivo de trocar uma droga por outra ou de apenas reduzir a quantidade de uso.

Percebe-se que Burgierman e Ilona, quem também participou do Roda Viva de 20/05 e contestou os modelos citados, estão distantes das tragédias familiares causadas pelas drogas, sobretudo pelo crack, ao contrário do Dr. Laranjeira que, há mais de 20 anos, se mantém muito próximo das famílias assistidas pela ABRAFAM.

De maneira alguma posso calar também diante da afirmativa de que Ronaldo Laranjeira seja movido pelo poder. A posição de principal liderança em dependência química no Brasi,l ocupada por ele, hoje, é conseqüência de um trabalho competente, sério e incansável, dedicado e comprometido com a busca de melhor qualidade de vida para as famílias, que eu tenho assistido desde a fundação da ABRAFAM, em 1995.

Sr. Burgierman, a entrevista pode ter sido bem frustrante para o senhor, porém, para a maioria das famílias foi bem esclarecedora, principalmente para os familiares de usuários de crack, droga que aliás, o senhor precisa saber mais a respeito.

SAIBA MAIS SOBRE O CRACK
O crack é diferente de tudo. É uma droga que não admite padrões de uso experimental, recreacional, circunstancial ou regular. Todo usuário de crack é dependente químico desde as primeiras baforadas. Não há outro tipo de uso que não seja intenso, compulsivo e nocivo. Daí a razão de o dependente de crack ser chamado crackeiro ou pedreiro ou, ainda, nóia – gíria de paranóia que em psiquiatria significa o estado crônico de delírios e da esquizofrenia paranóide. Usuários de outras drogas, inclusive, usam essas denominações para se diferenciarem do dependente de crack.

De acordo com o II LENAD – Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pela UNIAD/INPAD/CNPq o Brasil é o primeiro país no mundo em uso de crack, com 1 milhão de usuários.

Baseados nesses resultados, podemos estimar que, em nosso país, 6 a 7 milhões de pessoas são diretamente atingidas pela epidemia do crack.

Pois, por conta dos graves transtornos de comportamento, o crackeiro causa sofrimento a todos, ao seu redor. Mas, é a vida dos familiares e dos amigos mais próximos que ele transforma num verdadeiro inferno. Muitos acabam adoecendo também, tornando-se codependentes.

Por trás de um crackeiro, há 6 ou 7 pessoas em média, sendo manipuladas e torturadas, diuturnamente. São reféns mantidas em cativeiro psicológico, que vivem atormentadas e aterrorizadas quando o crackeiro é presente ou preocupadas e amarguradas quando ele está ausente.

Quem faz parte dessa população ou acompanha de perto o problema, só pode estar indignado diante das opiniões emitidas no programa Roda Viva, da TV Cultura, segunda-feira, 20/05. Pessoas que, ao invés de desempenhar o papel para o qual foram convidados, de entrevistadores do Professor Dr. Ronaldo Laranjeira, se meteram a emitir opiniões que nitidamente só tinham o objetivo de confundir a opinião pública.

A abordagem ao crack tem que ser exclusiva e radical. O crackeiro é um doente grave, de conduta psicótica. Ele passa a maior parte do tempo fumando pedras, consumindo por horas a fio, toda a quantidade que consegue comprar – de 1 a 30 pedras. Ao esgotar o estoque, entra em crise de persecução, passando a se esconder, a espreitar através de frestas e fechaduras e a engatinhar, catando migalhas de pedra pelo chão para terminar de pipar.

Só pára, por algum tempo, quando está extenuado, sem pedra, nem dinheiro. Depois de dormir um pouco, volta a bater a fissura e o processo é repetido. O desejo de fumar crack é incontrolável. O indivíduo não consegue pensar em nada que não seja a devastadora pedra. Ele precisa, desesperadamente, conseguir dinheiro para buscar o bagulho e voltar a pipar. E, tem que ser rápido. A quem recorrer dessa vez? Ao pai? À mãe? Avó? Irmão? Amigo? Quem sabe, vendendo um botijão de gás? Ou o micro-ondas? O tênis? CD? Uma camiseta? Fazendo pedágio no semáforo? Roubar? Assaltar? Saidinha de banco? Servir de avião ao traficante?

O crack anula o discernimento do indivíduo. Na fissura, o crackeiro faz qualquer coisa para conseguir a droga. Na nóia, escolhe o meio mais fácil de obter a droga que sua mente doente vier a apontar. A pedra justifica o meio.

Enquanto as outras drogas conduzem uma parcela de usuários ao fundo do poço, o crack arremessa os crackeiros ao fundo da fossa.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas