Entrevista com Paula Johns – Substâncias Aditivas do Cigarro

Paula Johns, mestre em estudos de desenvolvimento internacional pela Universidade de Roskilde e diretora da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT), fala sobre as substâncias aditivas do cigarro. Confira!

– Na primeira semana de maio, a área técnica da Anvisa rejeitou em primeira análise a inclusão de 140 substâncias novas aditivas ao cigarro. De acordo com sua experiência na área, quais serão os benefícios imediatos se a medida entrar em vigor?

A proibição de aditivos nos cigarros, em particular os aditivos de sabores, que disfarçam o gosto do tabaco, é uma medida de prevenção à iniciação no tabagismo importantíssima. Pesquisas demonstram que 60% dos adolescentes preferem os cigarros de sabor, em especial os mentolados. No entanto, o mercado de cigarros de sabor entre os fumantes regulares é bem pequeno no Brasil, algo em torno de 2%. Isso significa que os sabores são a porta de entrada no tabagismo. Uma vez dependentes de nicotina, a maioria dos fumantes migra para os cigarros regulares.

– Entre 2007 e 2010, o número de marcas de cigarros com sabor, cadastradas na Anvisa, cresceu de 21 para 40. Esse índice pode revelar um interesse crescente da indústria em um público jovem? Como avalia este cenário?

Esse aumento indica uma forma de inovação para aumentar a atratividade do produto. Segundo informações da Anvisa, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a testar o lançamento de cigarros com cápsulas de mentol que podem ser acionadas. Ao que tudo indica, os resultados do teste foram um sucesso, pois esses cigarros foram lançados em vários outros países na sequencia. Mas alguns já estão proibindo esse tipo de cigarro, como por exemplo a Alemanha. Com as restrições ao fumo em ambientes fechados, a crescente restrição da publicidade, promoção e patrocínio, é natural que a indústria tenha que buscar novas maneiras de promoção. Temos depoimentos de muitos jovens que começaram a fumar com os cigarros de sabor e mais recentemente adolescentes declarando que tiveram curiosidade de experimentar o tal cigarro que muda de sabor com um clique.

– Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam que 45% dos fumantes de 13 a 15 anos consomem cigarros com sabor. Em sua opinião, a proibição dos aditivos resultaria em uma significativa redução no número de jovens fumantes? O que mais pode ser feito?

Certamente a proibição dos aditivos de sabores, dificultará a experimentação, pois o gosto ruim ficará mais evidente sem os artifícios que os mascaram e diminuiria o apelo do produto. Isso deve ser adotado em conjunto com outras medidas de prevenção, como a proibição total da publicidade, promoção e patrocínio de produtos de tabaco. Como a embalagem também é propaganda, seria importante adotar embalagens genéricas, como já aconteceu na Austrália e está em vias de acontecer na Irlanda.

– Outro fato bastante discutido com relação ao público jovem é a publicidade no ponto de venda, e o posicionamento estratégico do produto perto de doces, por exemplo. Qual sua opinião o a respeito?

O nosso posicionamento é de que isso tem que acabar, os cigarros deveriam ser vendidos embaixo do balcão e deveríamos adotar embalagens genéricas. Hoje temos mais de 500 mil pontos de venda no país. Quando vamos à padaria, à banca de jornal, ao bar, ao mercado, sempre nos deparamos com os cigarros expostos no ponto mais privilegiado, no caixa, que é o local que coloca três elementos que induzem ao consumo no mesmo local: o produto, o dinheiro e o impulso do consumidor. Além disso, estão sempre posicionados ao lado de outros produtos que atraem os jovens. Mas enquanto não temos ferramentas que permitam que acabemos com isso de vez, o mínimo exigido no momento é a regulamentação de Lei sancionada em dezembro de 2011, que proíbe a publicidade no ponto de venda, mas que ainda não foi regulamentada.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)