Entrevista com Ricardo Meirelles – Cigarro Eletrônico

Cigarro eletrônico em pauta – Ricardo Meirelles, pneumologista da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer, explica os riscos do uso do cigarro eletrônico, o cenário da publicidade e venda do produto, e ainda orienta a melhor forma de deixar de fumar neste Dia Mundial Sem Tabaco.

Malefícios

“O cigarro eletrônico não é um recurso terapêutico para fumantes que desejam abandonar o tabagismo. A própria OMS não recomenda o seu uso como substitutivo do cigarro tradicional por vários motivos. Primeiro porque já foram descobertas substâncias cancerígenas no dispositivo responsável por fazer a névoa do cigarro eletrônico. Ou seja, ele não faz com que diminua o risco à saúde do usuário. Outra questão importante é que nós sabemos que o tabagismo, além de ser uma dependência fisiológica, também é uma dependência comportamental, e o cigarro eletrônico não desvincula esses fatores importantes para que a pessoa pare de fumar. Não existe comprovação científica a respeito do produto, então ele é contra indicado. Sua comercialização é proibida pela Anvisa no Brasil”.

Publicidade e Venda

“A exposição do cigarro eletrônico na mídia, como em filmes internacionais, ou seu uso por personalidades do meio artístico é um incentivo, assim como acontece com o tabaco. Há anos a exposição de personagens fumando cigarro, glamurosos, tem sido uma estratégia da indústria para atrair mais consumidores, principalmente os mais jovens. Na década de 60, virou moda fumar, as pessoas fumavam para seguir o comportamento dos seus ídolos. Toda vez que algum personagem dentro do filme, ou mesmo uma pessoa pública aparece fumando um e-cigarro, estimula que outras pessoas o usem. Isso é uma motivação para que as pessoas experimentem, passa a falsa ideia de que “se ele usa, não deve fazer mal”. A questão se agrava quando analisamos o lado ruim da internet, onde é possível importar cigarros eletrônicos. Isso faz com que as pessoas tenham facilidade em comprar esse produto, mesmo que sua comercialização seja ilegal em nosso país”.

Caminho Certo

“O primeiro passo é a pessoa se conscientizar que deseja realmente parar de fumar, observar os benefícios que essa atitude trará para sua vida, entender que o tabagismo é uma doença, uma dependência química. Depois, é hora de buscar um tratamento. Mesmo que ele já tenha algum problema de saúde decorrente do cigarro, com o início do tratamento ele também terá melhoras. A orientação é procurar profissionais de saúde, médicos, psicólogos, que estejam aptos a tratar o tabagismo. O tratamento que reconhecemos como o ideal é fazer com que o fumante entenda o que o faz fumar, pois ele vai receber orientações para isso, desde compreender o papel do cigarro, a questão comportamental, e também a questão psicológica no uso do cigarro, como por exemplo, fumar para aliviar o stress. Ele receberá explicações de especialistas sobre como resistir à fissura, e contornar o forte desejo de fumar. Resumidamente, o processo é baseado primeiro em fazer com que o fumante se entenda como dependente, compreenda o papel do cigarro na vida dele, receba orientações de como deixar de fumar e como viver sem o cigarro. Com o acompanhamento médico, ele receberá medicamentos para diminuir os sintomas da síndrome da abstinência, reduzindo a necessidade fisiológica nicotina no cérebro, tornando o ato de não fumar algo menos penoso, o que acaba facilitando sua mudança de comportamento, crenças e atitude. Somente dessa forma ele perceberá que o prazer que a droga causa é irreal e assim começará a buscar prazeres reais em sua vida. A partir deste momento ele se sentirá muito melhor sem o cigarro. Ainda é importante trabalhar na prevenção da recaída para que ele não volte a fumar”.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)