IBGE mostra que 9,9% dos estudantes de BH usaram drogas na idade entre 13 e 15 anos

Há exatamente um ano, o motorista de caminhão F. B., de 47 anos, luta para tirar o enteado W., um garoto de apenas 15, da dependência das drogas. Até então estudioso, o adolescente se deixou envolver pelas más companhias, segundo o padrasto, e conheceu os efeitos da maconha, da cocaína e, agora, do crack.

W. faz parte de um universo de 9,9% de estudantes da capital mineira com idade entre 13 e 15 anos que afirmaram já ter tido contato com entorpecentes alguma vez. O dado é da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar(Pense), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O jovem ainda largou a escola para trabalhar para traficantes num bairro da Região Norte de Belo Horizonte. De bom aluno, passou a informante de bandidos com a função de avisar sobre a aproximação da polícia.

Segundo a pesquisa, na Região Sudeste, BH ocupa a terceira posição entre as capitais onde os alunos dessa faixa etária mais usaram drogas, atrás de Vitória (13,2%) e São Paulo (11,6%). Os meninos são os principais usuários, sendo que 10,7% deles relataram o consumo de entorpecentes, enquanto entre as garotas o percentual ficou em 9,2%.

Na comparação entre as redes de ensino, os estudantes dos estabelecimentos públicos lideram o uso, com 10,3%, contra 8,9% daqueles que estudam em instituições particulares.

O levantamento é um retrato dos hábitos, comportamento e da saúde de 109.104 alunos do 9º ano do ensino fundamental de todo o país e traz informações como tipo de alimentação, prática de atividades físicas, iniciação sexual e violência. Em Belo Horizonte, foram entrevistados 2.754 alunos, de 102 turmas, em 68 instituições de ensino públicas e privadas. Sem a presença de professores, os alunos responderam os questionários em smartphones.

Quando o assunto é o álcool, 76,3% do universo pesquisado em BH afirmaram ter experimentado bebida alguma vez. O percentual deixa a capital em quinto lugar no ranking nacional, atrás de Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e Campo Grande. A demógrafa do IBGE Luciene Longo acredita que o problema possa ser cultural. “A brincadeira de que Minas não tem mar, mas tem bar, pode ser uma cultura que acaba influenciando o adolescente a beber mais”, afirma.

A percepção da violência no entorno das escolas põe BH em posição de destaque no país. Entre os alunos entrevistados, 46,2% responderam que consideram a instituição onde estudam localizada numa área de risco. Em segundo e terceiro lugares aparecem Maceió e Salvador, com 45,9% e 41,6%, respectivamente. Aos olhos dos estudantes, a capital mineira está à frente até mesmo de cidades com alto índice de violência, como Recife (29,4%) e Rio de Janeiro (11%).

“Essa é uma percepção dos alunos. Pode ser que as escolas não estejam em área de violência, apesar de BH ter muitas instituições situadas dentro ou próximas a vilas e favelas. Pode até não estar num aglomerado, mas o aluno se sente desprotegido”, avalia Luciene.

O adolescente W. é um retrato da pesquisa do IBGE. A instituição na qual ele estudava e sua casa estão numa área de risco, no Bairro Heliópolis. Além de drogas, bebidas alcoólicas se tornaram parte de sua rotina. A saída da escola e o ingresso nessa nova vida tiveram como resultado pelo menos duas ocorrências policiais. No último episódio, relata o padrasto, ele escondeu uma bolsa com cocaína e maconha na casa da avó e, apesar de cobrar explicações, a família não chamou a polícia. Os parentes buscam, desde o início do tormento, um tratamento para ele, mas não conseguem apoio nem mesmo no conselho tutelar. “Não temos dinheiro para interná-lo numa clínica. Precisamos de ajuda para ele largar as drogas e voltar a estudar. Estou tentando de tudo”, afirma F.
Autor:
OBID Fonte: UAI