Aprovação do projeto da lei antidrogas retoma polêmica sobre internação involuntária

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Psiquiatra do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp, Thiago Fidalgo, alerta que procedimento não é fórmula mágica, e defende a proximidade e o diálogo

Na última semana de junho, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do projeto que aletra a lei antidrogas, permitindo assim a internação involuntária de dependentes químicos. A medida faz parte de um pacote de ações do governo na área de dependência química, para desocupar a Cracolândia e outros locais da cidade. O procedimento, que depende da autorização da família e de atestado de um médico, tem causado muita polêmica não só na sociedade, como também no meio acadêmico.

Para o coordenador do Setor de Adultos do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD), do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo, Thiago Marques Fidalgo, essa não é a solução. “Você tira os usuários da rua, faz uma limpeza social, dá uma ideia de que o problema está sendo resolvido, porém, na verdade, sabemos que a eficácia de uma internação involuntária, fora do contexto de um tratamento integrado, é pouco eficaz”, opina o especialista. “Esse dependente vai ficar internado, vai ficar sem usar, mas e depois? Uma hora ele vai ter alta. Ou a gente vai deixar essas pessoas internadas para sempre? Tal procedimento é complicado não só do ponto de vista político, mas também operacional”, completa.

De acordo com Fidalgo, a internação é sim parte importante do tratamento da dependência química, desde que seja feita de forma integrada, envolvendo a família e olhando o paciente como um todo. “A internação, quando necessária, tem que ser feita dentro de um contexto do tratamento, por exemplo, se o paciente tem algum risco clínico, alguma doença psiquiátrica mais grave, está com risco de suicídio ou com quadro psicótico”, comenta. “De 80 a 90% dos casos, se resolvem com tratamento ambulatorial. No Proad, por exemplo, mantemos essa linha de trabalho, com uma proposta multiprofissional, atuando em conjunto com psicólogo, terapeuta ocupacional, terapeuta de família, psiquiatra, e visando sempre a reinserção do paciente na sociedade”, afirma.

Segundo o especialista, a questão chave dessa polêmica sobre a internação involuntária se resume em dois pontos, a liberdade individual e o custo social. “Gosto de usar o exemplo do cinto de segurança. A minha liberdade de não querer usar o cinto não é respeitada em favor do risco social. Porque se eu não usar o cinto e me esborrachar num poste, os cofres públicos vão gastar uma fortuna para que eu seja operado, reabilitado. Então a sociedade decidiu tolher a liberdade individual em favor do grupo”, explicou Fidalgo. De acordo com ele, é válido sim discutir o destino dos usuários da Cracolândia em São Paulo, mas também é preciso discutir o que fazer com os alcoolistas, por exemplo. “Em termos de saúde pública, a bebida é um problema muito mais grave. Segundo os levantamentos mais recentes, 10% da população brasileira é dependente de álcool, enquanto 0,7% depende de crack”, confirma. “O crack está aí, é um problema, e sempre foi, mas não deve ser o único foco das ações”, conclui.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)