80% dos detentos são usuários de álcool e drogas em Araraquara, SP

G1
Projeto do Comad e da Funap previne o uso na penitenciária do município.
Ciclo e palestras apresenta vídeos com depoimentos de ex-dependentes.

O Conselho Municipal Antidrogas (Comad), a Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (Funap) e outras instituições de Araraquara (SP) criaram uma parceria para prevenir o uso de álcool e drogas entre os detentos. Segundo a direção da penitenciária do município, 80% dos presos são usuários.

Entre as ações do projeto, que também tem a participação do Alcoólicos Anônimos (AA) e do Narcóticos Anônimos (NA), está um ciclo de palestras que apresenta vídeos com depoimentos de ex-dependentes e desperta a atenção para a importância de deixar o vício.

“Temos que considerar que uma faixa etária da dentro da penitenciária é de 25 anos e nós temos adolescentes de 18 e 19 anos cumprindo sentença. O uso de uma droga como a maconha pode causar déficit de aprendizagem e problemas de memória”, disse Marcos Servino, presidente do Comad.

Exemplos

Longe da bebida há 10 anos, um homem, que preferiu não ser identificado, quer servir de exemplo para outras pessoas. “Comecei com 14 anos e com 35 resolvi parar de beber. Fui casado, tinha um casamento de 15 anos que perdi por consequências do álcool. Acho importante trazer para dentro da penitenciária um pouco da minha experiência de vida”, contou.

Para outro homem, que também não quis ser identificado, é possível driblar a abstinência e viver longe das drogas. “Hoje eu me sinto livre. Liberdade. Antes eu vivia para usar e usar para viver. Eram 24 horas com drogas, dando trabalho não só para a minha família, mas para a sociedade”, afirmou.

Os depoimentos são um incentivo para o grupo de presidiários que, mesmo atrás das grades, ganham uma nova oportunidade. O ciclo de palestras capacitou 150 pessoas para atuarem como multiplicadores na penitenciária. Segundo a coordenadora do Programa de Educação para o Trabalho, Elizandra Mazzei de Oliveira, existem outros projetos para que os presos se tornem monitores de atividades.

“Na maioria das vezes, os delitos cometidos pelos detentos têm alguma ligação com o uso da droga, seja como usuário ou traficante. Então, ele tem essa dificuldade de ter o interesse pelo preparo para o trabalho ainda tendo uma ligação com a droga. Estamos trabalhando nessa perspectiva de formação do preso e ele ser um multiplicador”, explicou.

Consumo na penitenciária

Neste ano, oito mulheres foram presas em flagrante tentando entrar com drogas na penitenciária no dia de visitas. O detento Marcelo Cristovão, preso por roubo, confessou que já consumiu entorpecentes dentro da unidade.

“Até usei no começo, mas depois coloquei na minha cabeça que eu não deveria seguir mais esse caminho. Atualmente, estou vendo que sem a droga sou uma pessoa melhor”, contou.

Rafael de Freitas dos Santos experimentou droga pela primeira vez aos 16 anos. O usuário se tornou traficante e há três anos cumpre pena em Araraquara. “Ver essa palestra aqui abriu muito meu coração. Quando sair quero uma nova vida, ser um novo homem. Quero começar do zero”, declarou.

Segundo o diretor da penitenciária, são feitas revistas diárias nas celas, que são escolhidas de forma aleatória. Os presos e os visitantes também são revistados. Ainda de acordo com o diretor, o detector de metais não acusa a presença dos entorpecentes, que entram na unidade pelos visitantes.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)