Vício em crack é ativado mais por condições sociais que pela própria droga, diz cientista

Diário Gaúcho
Segundo pesquisador, entre 80% e 90% dos usuários não desenvolvem dependência

Muito antes de começar a trazer pessoas para fumar crack em seu laboratório na Universidade de Columbia, Carl Hart testemunhou os efeitos da droga em primeira mão. Nascido na pobreza, ele viu familiares se tornarem usuários, vivendo na imundície e roubando as próprias mães. Amigos de infância acabaram em prisões e necrotérios.

Aqueles viciados pareciam escravizados pelo crack, como ratos de laboratório incapazes de parar de consumir cocaína, mesmo quando estão morrendo de fome. O crack oferece um estímulo de dopamina tão forte no centro de recompensa do cérebro que os dependentes não conseguem resistir a outra tragada.

Ao menos, essa era a impressão de Hart quando começou sua carreira como pesquisador nos anos 1990. Assim como muitos outros cientistas, ele esperava encontrar uma cura neurológica para o vício, algum mecanismo que bloqueasse a atividade de dopamina no cérebro para que as pessoas não sucumbissem à necessidade irrefreável pela cocaína, heroína e outras drogas extremamente viciantes.

No entanto, quando começou a estudar os dependentes, Hart viu que as drogas não eram assim tão irresistíveis.

– Entre 80% e 90% das pessoas que usam crack e metanfetamina não ficam realmente viciadas. E a pequena parcela dos viciados não se parece nem um pouco com as caricaturas com as quais estamos acostumados – afirmou Hart, hoje professor de psicologia.

Hart recrutou dependentes por meio de um anúncio no The Village Voice, oferecendo-lhes a oportunidade de ganhar US$ 950 (cerca de R$ 2 mil) para fumar crack feito a partir de cocaína de nível farmacêutico. A maior parte dos interessados, assim como os dependentes que conheceu quando era criança em Miami, eram homens negros vindos de bairros de baixa renda. Para participar, eles teriam de viver em uma ala do hospital por várias semanas durante o experimento.

No começo de cada dia, os pesquisadores observavam por trás de um vidro espelhado, enquanto uma enfermeira colocava certa quantidade de crack em um cachimbo – a dose variava a cada dia – e o acendia. Enquanto fumavam, os participantes eram vendados para que não pudessem ver o tamanho da dose daquele dia.

Em seguida, depois daquela dose de crack pela manhã, cada participante tinha outras oportunidades de fumar a mesma quantidade de craque durante o dia. Contudo, a cada vez que a oferta era feita, os participantes poderiam optar por uma recompensa diferente, que receberiam depois que deixassem o hospital. Algumas vezes a recompensa eram US$ 5 em dinheiro, às vezes era um ticket no mesmo valor para comprar produtos em determinada loja.

Quando a dose de crack era relativamente alta, os sujeitos geralmente preferiam continuar fumando ao longo do dia, mas quando as doses eram menores, eles preferiam ficar com os cinco dólares em tickets ou dinheiro.

– Eles não se encaixavam na caricatura do viciado em drogas que não consegue mais parar depois que experimenta. Quando tinham uma alternativa ao crack, eles tomavam decisões econômicas racionais – afirmou Hart.

Quando o crack foi substituído pela metanfetamina, a droga que mais causa problemas nos Estados Unidos, Hart trouxe viciados em metanfetamina ao laboratório para realizar uma experiência similar – cujos resultados exibiram escolhas igualmente racionais. Ele também descobriu que quando aumentava a recompensa para US$ 20, absolutamente todos os dependentes de crack e metanfetamina preferiam o dinheiro. Eles sabiam que não receberiam o dinheiro até o final do experimento e mesmo assim estavam dispostos a dispensar o barato imediato.

Essas descobertas fizeram Hart refletir sobre o que viu quando era jovem, conforme relata em seu novo livro, “High Price” (Preço Alto, em tradução livre). O livro é uma combinação de memórias e ciências sociais, com cenas de miséria e violência, acompanhadas de uma análise detida de dados históricos e resultados de laboratório. Hart conta histórias aterrorizantes – sua mãe o atacou com um martelo e o pai o banhou com uma panela cheia de xarope fervendo – e, em seguida, tenta encontrar tendências estatísticas significativas.

Hart destaca que, obviamente, algumas crianças foram abandonadas por pais viciados em crack, mas muitas famílias foram destruídas antes mesmo do crack – incluindo a dele (Hart foi criado principalmente pela avó). É verdade que seus primos se tornaram viciados miseráveis, vivendo em barracos no quintal, mas eles abandonaram a escola e estavam desempregados muito antes que o crack aparecesse em suas vidas.

– Parecia haver ao menos o mesmo número de casos – senão mais – em que as drogas ilícitas tinham pouca ou nenhuma influência, quanto situações nas quais seus efeitos farmacológicos tinham qualquer relevância – escreveu Hart, que tem 46 anos.

O crack e a metanfetamina são especialmente problemáticos em alguns bairros pobres e nas zonais rurais, mas não necessariamente por serem drogas tão potentes.

– Se você vive em um bairro pobre e sem opções, existe certa racionalidade em continuar tomando uma droga que dará ao menos algum prazer temporário – afirmou Hart, argumentando que a caricatura dos dependentes escravizados pelo crack é produto de uma interpretação errônea dos experimentos com ratos de laboratório.

– O principal fator é ambiental, estejamos falando de ratos ou de seres humanos. Os ratos que continuavam pedindo mais cocaína foram estressados pelo fato de terem sido criados em condições solitárias e por não terem outras opções. Porém, quando seu ambiente era enriquecido e eles tinham acesso a doces e podiam brincar com outros ratos, eles paravam de apertar a alavanca que liberava a cocaína – disse o pesquisador.

Os paladinos da luta contra as drogas podem duvidar de seu trabalho, mas outros cientistas ficaram impressionados.

– O argumento do Carl é convincente e motivado por dados – afirmou Craig R. Rush, sicólogo da Universidade do Kentucky que estudo o abuso de estimulantes. – Ele não está dizendo que o uso excessivo de drogas não seja prejudicial, mas demonstra que as drogas não transformam as pessoas em lunáticos. Elas são capazes de parar de usar drogas quando recebem alternativas.

Uma avaliação similar foi feita pelo Dr. David Nutt, especialista britânico no uso de drogas.

– Tenho muita simpatia pelos pontos de vista de Carl – afirmou Nutt, professor de neuropsicofarmacologia no Imperial College London – A dependência possui um elemento social que é amplificado por sociedades com poucas oportunidades de trabalho e de satisfação pessoal.

Sendo assim, por que continuamos nos concentrando tanto em drogas específicas? Uma das razões é a conveniência: é muito mais fácil se concentrar nos malefícios das drogas do que lidar com os problemas sociais por trás do uso. Todavia, Hart também coloca parte da culpa nos cientistas.

– De 80% a 90% das pessoas não são negativamente afetadas pelas drogas, mas na literatura científica, quase 100% dos relatórios apresentam resultados negativos. Existe um foco enviesado na patologia. Nós, cientistas, sabemos que conseguimos mais dinheiro se continuarmos dizendo ao Congresso que estamos resolvendo esse problema terrível. Nós temos um papel nada positivo na guerra contra as drogas – concluiu.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)