O que os jovens brasileiros pensam sobre sexualidade, drogas, violência e felicidade

Zero Hora
Pesquisa diz que adolescentes usam menos camisinha, fumam mais maconha e abusam do álcool

Eles têm mais acesso à informação, mas vêm adotando mais comportamentos de risco. Uma pesquisa feita com 6 mil alunos entre 12 e 17 anos de escolas particulares em todo o país mostra que praticamente metade dos jovens prefere não usar camisinha e que o consumo de álcool e maconha entre os adolescentes é elevado. Os dados também ilustram as principais mudanças de atitude dos adolescentes na última década.

Para traçar o perfil da juventude atual, o projeto “Este Jovem Brasileiro” ouviu estudantes de 64 escolas, que preencheram anonimamente um questionário online sobre seus hábitos quando o assunto é sexo, drogas, violência, sentimentos e redes sociais. O resultado foi comparado com as informações obtidas em 2006, ano de início do projeto. As diferenças mais evidentes entre as duas edições estão nos campos da sexualidade, do consumo de drogas e do abuso de álcool.

O projeto é desenvolvido anualmente pelo Portal Educacional em parceria com o psiquiatra Jairo Bouer e com a rede Positivo Informática, e está na oitava edição. O objetivo é levar para discussão em sala de aula temas mais delicados, sobre os quais os jovens preferem não conversar com os pais.

— Nossa pesquisa não tem rigor científico, mas tem uma preocupação pedagógica muito forte. A ideia é montar um panorama nacional e oferecer informações e instrumentos para a escola tratar esses temas — afirma Andrea Maia de Santana, gerente de conteúdos dinâmicos do Portal Educacional, responsável pela pesquisa.

Algumas escolas da Rede La Salle participam do projeto e já utilizam os dados em classe. Na unidade de Caxias do Sul, os alunos da 1ª série do Ensino Médio responderam a enquete e desenvolveram atividades com Fábio Karling, professor de sociologia e ensino religioso, e Rejane Petereit, orientadora educacional.

— Para muitos, foi o primeiro contato com perguntas tão diretas, perguntas que ninguém havia feito. Os resultados serão trabalhados com quem participou da pesquisa e compartilhados com a equipe diretiva para servir de parâmetro na hora de planejar atividades que atinjam esse público. Não apenas lidamos com mentes em uma sala de aula, mas também com corpos, com seres que sentem, convivem e fazem escolhas — explica Rejane.

No Colégio La Salle Dores, em Porto Alegre, Zero Hora teve um bate-papo com quatro jovens de idades entre 14 e 17 anos para saber o que eles pensam sobre os principais tópicos e dados de comportamento apontados na pesquisa.

O QUE MUDOU EM SETE ANOS

2006
— 61% diziam sempre usar camisinha; 11% nunca usavam.
— Mais de 25% já tinham se sentido ameaçados, 21% se envolveram em brigas.
— 71% já tinham conhecido alguém pela Internet e 32% já “ficaram” com alguém que conheceram na rede.
— 46% tinham dificuldade de concentração. 31% diziam ter dificuldade na aula e 11% já haviam sido reprovados.
— 62% dos garotos e 44% das garotas se disseram satisfeitos com seu corpo.

2013
— 54% disseram sempre usar camisinha; 14% nunca usam.
— 19% já se sentiram ameaçados ou foram insultados, 17% se envolveram em brigas.
— 67% já conheceram alguém pela Internet e 29% já “ficaram” com alguém que conheceram na rede.
— 49% têm dificuldade para se concentrar. 35% dizem ter dificuldade para entender a aula e 13% já foram reprovados.
— 63% dos garotos e 40% das garotas se disseram satisfeitos com seu corpo.

SEXUALIDADE

O jovem de hoje usa menos camisinha e está mais preocupado com gravidez do que com as doenças sexualmente transmissíveis. Em 2006, 61% dos jovens diziam usar camisinha sempre. Este ano, o índice caiu para 54%, e 30% disseram não ter usado camisinha na primeira vez. Dos jovens sexualmente ativos, 15% afirmam nunca usar.

— Camisinha é uma coisa que todo mundo sabe que teria que usar, mas na hora fala “ah, vai sem, é melhor”, pensa “não dá nada, é só uma vez”. Informação tem, em casa, no colégio, na internet. É por irresponsabilidade — diz Giovani Simon, do 3º ano do Ensino Médio.

Os namoros também são curtos: cerca de 25% duram entre um e três meses. Nas escolhas dos métodos anticoncepcionais, os emergenciais são mais utilizados do que os de rotina. Dos 44% que já pensaram ter engravidado alguma vez, 32% recorreram à pílula do dia seguinte e 43% decidiram esperar para ver o que ia dar. Foram registradas na pesquisa 84 gestações (9% dos que declararam já terem feito sexo) e, desses, 24 afirmaram que não tiveram o bebê — a pesquisa não entra em detalhes sobre a causa da interrupção. Em 2006, o índice foi de 7,5%.

VIOLÊNCIA

O bullying virou tema recorrente de discussão, e tanto escola quanto estudantes têm tentado se preparar melhor para lidar com o assunto. A pesquisa mostrou que os índices de violência psicológica diminuíram em relação a 2006. Enquanto 25% dos jovens foram ameaçados ou insultados há sete anos, atualmente o índice caiu para 19%. As meninas são mais ofendidas que os meninos: 20% delas foram vítimas, enquanto, entre os garotos, 18%.

Os dados relativos à violência física permanecem quase sem alteração. Em 2013, 17,3% se envolveram em brigas. Apesar da melhora, a violência segue como um fenômeno relativamente frequente na vida do jovem.

— As pessoas ficam acuadas de falar para os pais o que estão sofrendo. E às vezes também não é aberto, as ameaças são mais fechadas. A sociedade não aceita as pessoas diferentes — diz Felipe Mesquita, 14 anos, do 9º ano.

A pesquisa também mostrou que 4,3% fizeram sexo sem ter vontade.

DROGAS

Quando o assunto é álcool, 62% dos jovens afirmaram ter bebido pelo menos uma vez. Entre os maiores de 17 anos, o índice chega a 84%. A maioria começou entre 12 e 15 anos. Quase um terço já tomou ao menos um porre.

O uso frequente do cigarro diminuiu, acompanhando uma tendência nacional em outras faixas etárias. Apesar de mais adolescentes terem experimentado cigarro (16%) do que maconha (10%), o consumo mais frequente é o da droga ilícita. Entre os que já fumaram, 18% afirmam fazer uso da substância diariamente ou quase todos os dias. De acordo com o psiquiatra Jairo Bouer, alguns fatores podem explicar esse crescimento: a droga ilícita é de fácil acesso e, como é consumida em quantidades menores e em grupo, o custo é baixo se comparado ao do maço de cigarro.

Para Valentina Aubim, 15 anos, aluna do 1º ano do Ensino Médio, os jovens sentem muita curiosidade e às vezes rola uma certa pressão ao consumo para serem aceitos pelo grupo:

— Em relação a transar não tem tanta pressão, mas em relação a bebida e droga é bem mais. Fica com curiosidade mesmo. Não é tanto pressão, é querer saber como é.

FELICIDADE

Ansiedade, irritação e dificuldade de concentração estão entre as emoções que mais incomodam os jovens: 47% são ansiosos sem motivo aparente, 44% se irritam com facilidade e 49% têm dificuldade para se concentrar. A boa notícia é que, apesar de um leve decréscimo em comparação à pesquisa de 2006, 84% se consideram felizes.

A pesquisa apontou maior insatisfação com o próprio corpo: quase 28% já pensaram em fazer cirurgia plástica, 22% consideram ter preocupação exagerada com alimentação e 9% já forçaram o vômito para não engordar.

A geração que cresceu com a internet também acha mais difícil ficar quieta prestando atenção. Os alunos querem conteúdo mais ágil e interativo, mas é possível cativar o estudante quando o assunto é próximo do cotidiano.

— Se a aula não está interessante, tu pegas o celular pra ver a hora, aí acha uma mensagem e continua ali. Mas depende do assunto. A gente está aprendendo sobre ditadura, e agora está vendo os protestos. Isso é muito legal, juntar as duas coisas. Levar isso no seu dia a dia faz ficar muito interessante — diz Yasmin Assad, 14 anos, aluna do 9º ano.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)