Dependente químico custa 4 vezes mais que um aluno

Estado gasta mais dinheiro na recuperação de usuários do que com estudantes

Jornal A Cidade – Marcelo Fontes
São Paulo gasta, em média, R$ 316 por mês para manter cada um dos 4,3 milhões de alunos do ensino médio – o levantamento é do MEC (Ministério Educação). Já para tentar recuperar os dependentes químicos, o Estado vai pagar quatro vezes mais – R$ 1.350 por mês. É o chamado programa Cartão Recomeço, apelidado de “bolsa crack”.

Até agora, Ribeirão Preto tem oito vagas no programa e nenhuma unidade cadastrada – os tratamentos vão ocorrer na clínica Grauus, de Sertãozinho. Segundo apurado, ainda não existe data para os oito escolhidos serem internados. O convênio depende de pendências burocráticas.

Muito dinheiro
De acordo com estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Ribeirão Preto tem 5,3 mil usuários de crack – que consomem, em média, 16 pedras por dia. Para tratar todos os usuários, seria necessário que o estado desembolsasse, por mês, R$ 7,2 milhões.
O valor é quase a metade do que é gasto mensalmente para manter os cerca de 50 mil alunos na rede estadual de Ribeirão Preto – R$ 15,8 milhões.

Opinião
Os especialistas ouvidos pelo A Cidade apontam que o investimento em educação é baixo, mas deixaram claro que aprovam o Cartão Recomeço.
“No meu entender, a educação precisa de muito mais investimento. Defendo a opção da escola em tempo integral”, diz o professor José Marcelino de Rezende Pinto, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP de Ribeirão Preto.
“O ensino de qualidade oferece perspectiva para o jovem, tirando-o do caminho das drogas. O investimento per capita deveria ser o dobro, pelo menos R$ 600 por mês. Esse gasto, hoje, traria economia para o futuro”, completa o professor da USP
“O investimento para recuperar o dependente químico é válido. Mas o valor gasto por aluno com educação é muito baixo”, aponta o sociólogo Carlos Eduardo Guimarães, do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia de São Paulo (IFSS), campus Araraquara.
“A escola em tempo integral é a saída. O ideal é oferecer atividades como música, esportes e artes. Com esse investimento, a vulnerabilidade dos jovens seria menor e evitaria gastos futuros do poder público”, avalia.

Única
Através da assessoria de imprensa, o Governo do Estado informou que possui apenas uma escola com período integral em Ribeirão Preto – a Baudilio Biagi, no bairro Adelino Simioni, zona Norte, que atende o ensino fundamental. Ao todo, a rede estadual tem 62 escolas em Ribeirão Preto.
O Estado também informa que está ampliando o número de escolas que atendem no período integral, mas não está prevista nenhuma unidade para Ribeirão Preto.
A assessoria da prefeitura disse que a “Secretaria Municipal da Educação oferece atendimento em período integral em todos os 33 Centros de Educação Infantil (CEIs) – “em 26 das 41 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIis) e, por enquanto, em sete Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEFs)”, informou a prefeitura.

Ação civil
O promotor Naul Felca, que atua na área da infância e juventude, planeja abrir uma ação civil pública para obrigar a prefeitura a se responsabilizar pelo tratamento dos dependentes químicos. O representante do Ministério Público diz não ter acompanhado nenhum avanço desde o início do ano.
“Durante a campanha eleitoral [2012], foram feitas promessas e nada foi posto em prática. Estou aguardando até o fim do mês as respostas dos ofícios que enviamos. A prefeitura precisa montar uma clínica para tratar os dependentes”, disse Naul Felca.
A promotoria tem inquérito aberto desde 2009 para apurar suposta omissão da prefeitura no tratamento dos dependentes. É esse inquérito que deve ser concluído e dar início a ação civil. “Vejo falhas sistemáticas do poder público e o caso dos dependentes químicos gerou um problema gravíssimo de saúde, acrescentou o promotor.
O promotor também defende a implantação do período integral nas escolas. “O ambiente escolar é protetivo. A prioridade seria implantar período integral para evitar o primeiro contato do jovem com as drogas”, opinou o promotor. “Também é importante ressaltar que o Cartão Recomeço é uma iniciativa importante”, lembrou.

Drama
Wilian Barbosa, 49 anos, é pai de um dependente e luta para libertar o filho do vício. No incío da semana passada, após fugir da terceira clínica de tratamento – estava internado de forma compulsória –, o filho de Wilian acabou ferindo um enfermeiro com uma tesoura. “Ele está preso, mas estamos buscando uma maneira de conseguir transferi-lo para a clínica novamente”, disse Barbosa.
Segundo o pai, o filho, de 25 anos, é usuário de cocaína desde os 15. “Ele estava indo bem na clínica, mas fez amizade com uma pessoa que influenciou a fuga. Ele se arrependeu”, garantiu o pai. “Ele usou drogas pouco antes dos profissionais da clínica virem buscá-lo e, por isso, teve a reação agressiva contra o enfermeiro”, explicou.
Segundo o apurado, o enfermeiro Fábio de Paula, 29 anos, ainda vai passar por cirurgia, mas não corre risco de morte.

Flagrantes
Não é difícil flagrar usuários de entorpecentes. No entorno da rodoviária, na Praça Schmidt, os dependentes consomem droga durante o dia. “Não consigo passar duas horas sem usar drogas”, disse Claudemir, que pediu para não divulgar o sobrenome.
A Via Norte é outro ponto frequentado pelos dependentes. “Às vezes, a polícia passa e manda a gente ir embora, mas, no dia a dia, é tranquilo”, disse Janaína Silva, 21 anos.

Outro lado
A prefeitura de Ribeirão Preto diz que tem atuado para dar assistência ao dependente químico. “Nos últimos quatro anos, a atual administração implantou o Caps [Centro de Atenção Psicossocial] Infantil em coerência com a Política Nacional de Saúde Mental”, disse o Executivo, por meio de assessoria.
“A Secretaria da Saúde estabeleceu credenciamento com clínicas terapêuticas que atendem os casos em que é necessário isolamento social. Também estabeleceu convênio com entidades da sociedade civil para manutenção de casas de apoio transitório”, informa. De acordo com a prefeitura, “essas medidas mostram-se suficientes para o atendimento da demanda existente no município”.
Por fim, a prefeitura garante que implantará uma clínica pública no quadriênio 2014/2017.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas