Inspiração de Meu nome não é Johnny ajuda atletas em luta contra drogas

Boa Informação
João Guilherme Estrella é detentor de uma história ligada ao tráfico de drogas que acabou nas livrarias e cinemas do Brasil. Inspiração por trás de “Meu nome não é Johnny”, o carioca de 52 anos foi o principal distribuidor de cocaína para a elite do Rio de Janeiro entre 1989 e 1995, quando foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Se a história de criminalidade envolvendo Estrella é conhecida pelo grande público, o mesmo não se pode dizer sobre a atuação com o futebol, o apoio aos atletas que buscam se livrar das drogas e até o seu lado vira-casaca.

Johnny recebeu a reportagem do UOL Esporte em sua residência. Com o bom humor caracterizado por Selton Mello no longa de 2008, o atual músico e produtor revelou passagens marcantes que ficaram fora do filme de sucesso. Entre elas está a parte envolvendo conversas com jogadores que desejam parar de consumir drogas e álcool.

“Mantenho contatos pela internet com alguns jogadores. É uma questão de aconselhamento. Aconteceu há um tempo de uma figura polêmica do futebol trocar uma ideia comigo, me parabenizar pela história de vida e dizer que queria parar. Achei que daria sequência ao processo, mas não rolou. É uma coisa muito discreta. As pessoas têm o receio de assumir o problema da dependência química. Tenho vontade de procurar as ONGs dos jogadores e propor uma parceria de prevenção. Os atletas têm acesso a tudo isso de imediato. É difícil driblar o poder de sedução das drogas”, afirmou.

Estrella contou que forneceu drogas para profissionais do futebol nos anos 90 em festas que aconteciam na Barra da Tijuca. Porém, jamais manteve comércio direto com qualquer craque do esporte.

“O filme mostra muitas festas em minha casa, mas me lembro apenas de duas celebrações grandes com a permissão do meu pai. Às vezes, alugava uma casa de festas na Barra. Pessoas de A a Z compareciam, inclusive jogadores. Não posso citar nomes, mas tivemos uma festa antológica. Todo mundo usou de tudo. Saí de lá e fui direto para o motel com uma ex-mulher. Só fui para casa dois dias depois. Foram 15 horas desmaiado na hidromassagem, consumindo cocaína e cerveja”, disse.

“A galera do futebol sempre tinha um cara para fazer a parte perigosa e conseguir a droga. Jamais tratei com os atletas sobre isso. Claro que não são todos que usam drogas. Por exemplo: só vi o Romário na noite duas vezes e estava tomando suco de laranja. O [Ronaldo] Fenômeno já vi bebendo cerveja, normal. Amigos já me contaram que muitos craques detonaram e detonam nas drogas. Cigarro, álcool, maconha, cocaína, tudo o que podem. A prostituição também está sempre ligada. É difícil para esses caras pararem. Quando vão para fora do Brasil dificulta ainda mais”, completou.

João diz acreditar ser necessária a implantação de um projeto sério no futebol brasileiro para prevenir casos de dopping e prolongar a duração da carreira dos jogadores. “Não é certo demitir alcoólatras e drogados. É preciso tratamento. Demitir é muito mais caro do que tratar. As drogas levam a outras doenças muito graves. Puxa a bebida, o próprio excesso de álcool é um problema grave mesmo sem a cocaína. É tipo o caso do Adriano. Me parece um quadro depressivo com a questão da bebida. Não acredito que tenha qualquer droga no meio”, ponderou.

Torcida escondida na infância e lado vira-casaca
Apesar de ajudar a criar a boa imagem de João Estrella em sua recuperação, o filme não retrata a realidade quando o assunto é futebol. Johnny é reconhecido até hoje como torcedor do Vasco nas ruas do Rio de Janeiro. Pela devoção do seu pai ao clube de São Januário, o então garoto ficou automaticamente ligado ao Cruzmaltino. Entretanto, o coração sempre bateu forte e escondido pelo maior rival, o Flamengo.

“O meu pai era um vascaíno fissurado. Ele sempre conquistou os outros e convencia a torcer pelo clube. Acho que tinha a certeza de ter me convencido. Mas a minha paixão sempre foi o Flamengo. Sofri durante um bom tempo da vida com essa divisão. Muitos pais fazem campanha, chantagem. O filme me mostra como vascaíno, mas isso era quando moleque, aconteceu, sempre fui Flamengo”, revelou.

“Não tive coragem de contar ao meu pai. Era Flamengo no colégio e me fazia de vascaíno em casa. Sofria, pois peguei a era Zico e não comemorava. As vitórias eram difíceis. Não sou um rubro-negro alucinado contra o Vasco, respeito muito o clube e não torço contra. As pessoas me chamam de vascaíno até hoje. Em 2011, o Flamengo ganhou o título estadual e estava andando pelo Leblon. Veio um grupo de loucos me sacaneando pela perda do título. Disse que era Flamengo e me arrastaram junto para comemorar o campeonato”, completou aos risos.

Recuperação com título em torneio no manicômio judiciário
Sem usar drogas desde 1995, quando foi preso, João Estrella ministra palestras em colégios, faculdades e empresas contra o uso de entorpecentes. Após consumir altas doses de álcool, maconha, cocaína e LSD, ele contou que o futebol teve papel fundamental em sua recuperação. Quando saiu da carceragem da Polícia Federal, na qual dividia a cela com criminosos do Comando Vermelho, foi direto para o manicômio judiciário. Lá, organizou e foi campeão de um torneio de futebol entre internos. Emocionado, ele ressaltou a importância do episódio em sua recuperação.

“Passamos a noite fazendo bandeiras. Malucos para um lado e para o outro. A galera que não tinha condição de jogar bola virava torcida. Como tinha um lençol azul chamei o nosso time de Grêmio. Havia um cara que jogava muita bola, mas se distraía. Era complicado (risos). O meu goleiro tomava remédio o dia inteiro, mas aquilo era fundamental para a melhora de todos”, afirmou.

“Fiz o gol da morte súbita e fui comemorar. A torcida não tomava banho, os caras fediam muito, parecia que estavam mortos e todo mundo querendo me abraçar (risos). Foi um dia muito bom, quase a sensação de um jogo profissional. O gol de empate do meu time [o jogo terminou 2 a 1] foi feito por um cara que não tinha a ideia do que estava fazendo. Era quase um robô de tanto remédio. Ele ficou na banheira, a bola bateu nele e entrou. Todo mundo correu para comemorar. O cara saiu em disparada pensando que entraria na porrada. Nosso time era a Família Addams da cadeia, uma coisa pavorosa, mas ajudou bastante (risos)”, encerrou.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)