Beber pesado episódico – causa ou consequência do desemprego?

Diversos estudos indicam uma associação entre o consumo excessivo de álcool e o desemprego, principalmente entre homens. Entretanto, não há um consenso sobre como esta associação ocorre: enquanto alguns estudos mostram que o desemprego leva ao aumento do consumo de álcool e problemas relacionados, outros apontam o uso abusivo de álcool como causa do desemprego. Há pesquisas que ainda consideram que os problemas de saúde associados ao uso de álcool também diminuem as chances de reingresso na carreira profissional, estendendo o tempo de desemprego do indivíduo, e outras que sugerem que o desemprego leva a uma diminuição na ingestão de bebidas alcoólicas, provavelmente devido à diminuição da renda. Nota-se, portanto, a complexidade dessa associação e a relevância de estudos nessa área.

Grande parte desses estudos não considerou a população feminina, bem como não explorou uma diferenciação quanto ao “beber pesado episódico” (BPE*), um padrão específico de consumo de álcool associado a maiores riscos de envolvimento em acidentes automobilísticos e em brigas, comportamento sexual de risco, infarto agudo do miocárdio, problemas psicossociais, entre outros.

A partir deste cenário, pesquisadores da Suécia investigaram a relação entre o BPE e o desemprego, se o consumo de álcool neste padrão poderia aumentar as chances de um indivíduo se tornar desempregado e vice-versa, tanto em homens como em mulheres. O estudo de coorte avaliou 13.031 adultos residentes em Estocolmo, capital do país, com 20 a 59 anos de idade e empregados ou temporariamente afastados do serviço (licença-maternidade, por exemplo) no ano da primeira entrevista, realizada em 2002. Os mesmos indivíduos foram entrevistados novamente em 2007, sendo coletados dados sobre o consumo de álcool e estado empregatício em ambos os períodos.

Com relação aos homens, os resultados da pesquisa mostraram que o BPE frequente (1 vez ou mais por semana) estava inicialmente associado a uma maior taxa de desemprego posterior. Entretanto, não houve associação quando se analisou a relação inversa, ou seja, o desemprego não predispôs os homens ao BPE. No que diz respeito às mulheres, observou-se uma forte associação entre o BPE frequente e períodos longos de desemprego (acima de 6 meses). Isso sugere que, uma vez nessa situação, as mulheres que consomem álcool neste padrão encontram dificuldades em encontrar um novo emprego.

Em suma, os pesquisadores sugerem que, pelo menos entre as mulheres, o BPE seria um preditor do desemprego. A relação inversa também seria verdadeira, entretanto, não tão forte quanto a primeira. Mais estudos ainda são necessários para elucidar a relação entre o consumo abusivo de álcool e o desemprego e, segundo os autores, outros fatores importantes a serem considerados em futuras análises seriam o nível de estresse no trabalho anterior e a habilidade dos indivíduos de lidar com situações estressantes que poderiam levá-los a beber de modo mais pesado ou frequente.

*Embora este estudo tenha definido o BPE como a ingestão de 5 doses ou mais por ocasião tanto para homens quanto para mulheres, geralmente considera-se para mulheres o consumo de 4 doses ou mais por ocasião devido às diferenças entre gêneros com relação aos efeitos do álcool.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool