Uso de drogas por universitários

Revista Ensino Superior
48,7% dos estudantes já experimentaram drogas ilícitas, o dobro da taxa da população brasileira

O uso de substâncias psicoativas (SPA) lícitas (bebidas alcoólicas, tabaco, medicamentos com potencial de abuso) e ilícitas (cocaína, maconha, ecstasy, entre outras) é um dos temas que figuram entre as principais preocupações da sociedade atualmente.

As possibilidades de recorte do assunto são muitas e incluem: a compreensão antropológica sobre a antiga relação do homem com substâncias com potencial hedônico; aspectos sociais que tentam situar o uso de drogas na contemporaneidade; análise epidemiológica que aponta o crescimento do uso de várias SPA, além da experimentação em idades mais precoces; aspectos jurídicos que alimentam o intenso debate sobre legislações mais proibicionistas ou mais liberalizantes; vertente psicológica, que discute o tema a partir de aspectos emocionais e de personalidade; e recorte clínico, que aponta repercussões na saúde física e mental para usuários que desenvolvem com as SPA uma relação problemática. Isto para citar apenas alguns possíveis enfoques.

Toda esta gama de aspectos mantém-se quando discutimos o uso de drogas em um contexto particular que é o uso entre universitários e o papel da Universidade na abordagem do tema.

Dados nacionais recentes registram que 19% dos universitários fazem uso frequente de bebidas alcoólicas, 44% informaram ter bebido em binge (porre) no último mês, 48,7% já experimentaram drogas ilícitas, o dobro da taxa da população brasileira, e 26% informaram o uso de mais de uma droga no último ano. Não é possível observar tais cifras sem questionarmos o que significam, compreender as pessoas atrás dos números e discutir o papel do ambiente universitário como pano de fundo.

O uso de drogas entre universitários está relacionado a uma série de consequências, entre elas má qualidade do sono, falta de atenção, atrasos, faltas, saídas mais cedo das aulas, gerando prejuízo nas atividades acadêmicas, além de acidentes automobilísticos, violência e atividade sexual de risco.

Outro fenômeno apontado por diferentes pesquisas nacionais e internacionais no tema é a modificação da distribuição por gênero, com uma significativa redução da proporção homem/mulher. O que este dado indica? Por um lado uma mudança no papel social das mulheres, que tem apresentado com maior frequência comportamentos historicamente tidos com mais “masculinos” tais com o uso de drogas. Embora tal dado indique uma “igualdade” entre homens e mulheres, também traz em si riscos particulares, considerando que de forma geral as mulheres apresentam maior vulnerabilidade de danos físicos e psíquicos relacionados ao uso de SPA, que se potencializam quando o uso é feito durante a gestação e amamentação.

Estudos indicam que em torno de dois terços das vezes o uso de SPA se inicia antes do ingresso na Universidade, todavia, no ambiente universitário ele é intensificado e iniciado para uma parcela significativa de jovens.

Torna-se pertinente discutir o que há de particular neste contexto, uma vez que a entrada na Universidade representa uma diferenciação nas oportunidades não apenas profissionais, mas também (e talvez principalmente) vivencias e relacionais. É importante apontar alguns elementos que permeiam esta etapa da vida: a transição da adolescência para a idade adulta, com decorrente modificação dos papéis vivenciados até então; adaptação à vida acadêmica, incluindo novas formas de aprendizado e avaliação; distanciamento da família, por muitos vivenciado com intenso sofrimento; necessidade de ingresso em nova rede social, com códigos próprios, nem sempre claros, além de se constituir na faixa etária de eclosão de vários transtornos mentais, com destaque para quadros ansiosos, depressivos e psicóticos.

Considerando isso, pergunta-se como a Universidade e seus constituintes (estudantes, professores e demais funcionários) lidam com as questões relacionadas ao uso de drogas lícitas e ilícitas.

Existem hoje acaloradas discussões relacionadas ao campo do uso de drogas, que frequentemente pecam por não fazer distinção entre medidas de abordagem preventiva, destinadas aqueles que não usam SPA ou que o fazem de forma não problemática e estratégias dirigidas a indivíduos que apresentam um uso de risco ou que já tenham danos instalados, destinatários de abordagens terapêuticas propriamente ditas. Penso que este é um dos principias desafios, a explicitação da política institucional no tema e estratégias de ampliação da participação da comunidade universitária na construção de formas mais criativas e eficazes de enfrentamento da questão.

Cabe assim sugerir potenciais espaços de atuação da Universidade, que deve ter como foco a criação de um ambiente propício ao debate sobre o tema, norteando-se por dados científicos que auxiliem na escolha de estratégias de abordagem; que seja capaz de promover iniciativas preventivas que desequilibrem a balança entre fatores de risco e proteção, tornando a Universidade um espaço protetivo no que tange à ampliação da rede social, do sentimento de pertencimento, da qualidade de vida, dos horizontes culturais, das alternativas de prazer e lazer e da divulgação de informação sobre riscos associados ao uso de SPA, permitindo uma reflexão sobre as escolhas.

Acrescido a isso, é importante haver iniciativas contínuas e periodicamente reavaliadas que abarquem estratégias preventivas e abordagens ágeis e acolhedoras por meio dos equipamentos de auxílio dentro e fora da Universidade quando da instalação de problemas relacionados ao uso de drogas.

Este conjunto de dados pode embasar uma agenda que tenha por meio uma discussão ampla e democrática com os diversos setores da Universidade e como fim a consolidação de uma política institucinal sobre as questões associadas ao uso de drogas entre universitários.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)