Jovens ingleses bebem cada vez menos

Os adolescentes do Reino Unido têm a reputação de abusarem do álcool, mas na verdade o número de jovens consumindo álcool tem sofrido uma queda abrupta. Por quê?

“Não há nada que diga que você não pode sair e se divertir sem beber”, diz Liam Brooks, 18 anos. Desde novembro, ele já tem idade suficiente para comprar álcool legalmente em pubs, mas nunca tomou um gole. “É senso comum na mídia dizer que todas as pessoas de 18 anos saem e abusam do álcool. Talvez as pessoas das gerações anteriores fizessem isso. Mas, hoje em dia, a maioria das pessoas sai para conversar”.

Qualquer um que acompanhe histórias de jornais sobre jovens criando problemas por terem bebido nos centros das cidades inglesas estaria perdoado por ficar surpreso com as palavras de Liam. Mas, ao mesmo tempo em que sua abstinência rígida pode parecer atípica, todos os números sugerem que os jovens ingleses estão ficando cada vez mais parecidos com ele.

Apenas 12% dos jovens entre 11 e 15 anos disseram que eles haviam consumido álcool na semana anterior em 2011 – uma década antes, o número era de 26%, segundo as estatísticas do Serviço Nacional de Saúde. A proporção que disse que eles já haviam experimentado álcool caiu de 61% para 45% no mesmo período.

Entre os adolescentes mais velhos e os jovens, o padrão foi o mesmo. Em 1998, 71% das pessoas de 16 a 26 anos de idade disseram que haviam bebido algo alcoólico naquela semana. Em 2010, o número era de somente 48%. É claro o contraste com as pessoas de meia idade, que estão gastando mais do que nunca em álcool.

É uma tendência que desafia as expectativas de muitas pessoas com relação aos jovens, e uma grande variedade de teorias são oferecidas por especialistas para tentar explicar esse fenômeno. Uma explicação pode ser que está se tornando cada vez mais difícil para os jovens conseguirem álcool, diz Jonathan Birdwell, pesquisador sênior do think-tank Demos e autor de dois relatórios sobre as tendências de álcool no Reino Unido.

“Pubs e baladas também estão ficando melhores em fazer valer a proibição de não deixar menores de idade beber”, acrescenta. Os donos desses estabelecimentos têm mais um incentivo para verificar carteiras de identidade depois que o governo dobrou para 20 mil libras a multa para quem for apanhado vendendo álcool a menores.

Campanhas recentes de conscientização sobre o álcool, a chegada de rótulos de garrafa com os dizeres “beba consciente” e um aumento na mídia das histórias negativas em torno da cultura do abuso do álcool podem ter tido sua parte. Circunstâncias econômicas mais difíceis também podem ter desempenhado um papel, Birdwell sugere. “Com o aumento das mensalidades da educação, os jovens que vão para a universidade desejam aproveitar melhor sua experiência para se certificar de que eles poderão competir no mercado de trabalho”.

Tendências demográficas também parecem ter contribuído. Britânicos de origem muçulmana têm menos tendência a beber por razões religiosas e culturais, e os muçulmanos são agora 8% da população com menos de 16 anos na Inglaterra e em Gales – em comparação com 5% em 2001.

A pesquisa também descobriu que os alunos que vão para escolas mais etnicamente diversas têm menos tendência a beber, qualquer que seja a origem pessoal deles, diz Birdwell. Mas com os muçulmanos sendo somente 5% da população residente no Reino Unido no censo de 2011, o declínio é muito abrupto para ser considerado somente dessa comunidade.

Também é relevante o crescimento da tecnologia que permite aos jovens socializar com amigos e manter-se entretidos, sugere Henry Ashworth, executivo chefe do Portman Group, que faz campanha na indústria da bebida sobre responsabilidade social. “Houve um aumento exponencial das mídias sociais desde 2005 e isso esteve correlacionado com um declínio abrupto nos riscos comportamentais como o da bebida – então parece que os jovens podem estar se direcionando para outras atividades”, ele diz.

Quaisquer que sejam as razões para o aumento, novos negócios têm aparecido para servir a essa população abstêmia. Em algumas partes de Londres, Manchester e Bradford, você pode ver ruas inteiras cheias de cafés e sorveterias abertas até tarde para uma clientela que não bebe.

Catherine Salway fundou o bar que não serve álcool Redemption no oeste Londres depois de ter prestado atenção às novas tendências. “Muitas pessoas pensam que eu estava louca de vir com a ideia de um bar que não vai servir álcool, mas eu gosto de eu pensar que eu estava na vanguarda”, ela diz. “São os jovens que estão à frente desse movimento”.

Não é somente o uso do álcool que caiu, no entanto. Jovens britânicos estão em geral mais abstêmios do que nas gerações passadas. As estatísticas do NHS mostram que, em 2011, 17% dos alunos havia experimentado drogas, comparado com 29% em 2001. O uso do tabaco também caiu.

Apesar dessas tendências, o abuso do álcool continua a ser um problema entre os jovens. Especialistas avisaram que doenças do fígado aumentaram entre pessoas com pouco mais de 30 anos. E, em termos internacionais, jovens britânicos ainda estão bebendo mais do que a maioria dos seus vizinhos, de acordo com o projeto The European School Survey on Alcohol and Drugs. “Os jovens que estão bebendo estão bebendo mais do que seus colegas europeus”, diz Rosanna O’Connor, diretora de drogas e álcool da Public Health England. Ela diz que a queda no consumo geral é “uma boa notícia, mas só uma parte da questão”.

Pode ser prematuro dizer adeus para a reputação de abuso de álcool da Inglaterra. Mas Birdwell concorda que os jovens deveriam receber algum crédito, de todo jeito. “As manchetes sobre abuso do álcool da mídia podem fazer muito sucesso, e algumas pequenas cidades realmente têm um problema significativo”, ela diz. “Mas eu acho que, no geral, no Reino Unido, nós precisamos ter uma conversa mais séria sobre o fato de que os jovens estão escolhendo não beber e notando os desenvolvimentos positivos disso”.

Mas jovens abstêmios ainda são exceções. Até agora, os amigos de Liam ainda não seguiram o seu exemplo. Por enquanto, ele diz: “Se eu estiver me divertindo com os amigos e eles estiverem mal, bebendo demais, sou eu que vou ficar de olho neles e garantir que eles não cometam nenhum erro”.

Dados sobre o uso de álcool entre jovens brasileiros

O VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras, publicado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas em 2010, também aponta para uma diminuição do uso na vida do álcool entre esses estudantes.

Em 2004, 65,2% dos estudantes diziam já ter experimentado álcool, número que diminuiu, em 2010, para 59,3%. A maior queda se deu no grupo de estudantes de 10 a 12 anos: em 2004, 41,2% deles diziam já ter feito uso na vida da substância, número que caiu, em 2010, para 27,9%.

O uso na vida de álcool também caiu, no mesmo período, de 69,5% para 60,3% na faixa etária de 13 a 15 anos. Já entre os estudantes de 16 a 18 anos, o uso na vida aumentou de 80,8% para 81,8%. Entre os de 19 anos e mais, também houve aumento: de 82,1% para 86,3%.

Para acessar o VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras, clique aqui.

Para receber informações sobre drogas e orientações acerca de locais para tratamento, ligue 132 e entre em contato com o VivaVoz, serviço de atendimento telefônico gratuito, exclusivo e especializado. Para mais informações, clique aqui.

Para encontrar instituições governamentais e não-governamentais relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas no Brasil, acesse o mapeamento desenvolvido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), com o apoio do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Comissão Interamericana do Controle de Abuso de Drogas, da Organização dos Estados Americanos (Cicad/OEA),clicando aqui.

Autor:
OBID Fonte: Traduzido e adaptado da BBC