Crescem o consumo e as mortes por overdose de heroína nos EUA

The Wall Street Journal
A morte do ator Philip Seymour Hoffman devido a uma aparente overdose de heroína assinala o recente ressurgimento da droga nos Estados Unidos, alimentado por um suprimento crescente vindo da América Latina e uma fiscalização maior dos narcóticos para uso medicinal — que dificulta o acesso a eles e empurra os viciados para as drogas ilegais.

O número de usuários de heroína nos EUA saltou quase 80% entre 2007 e 2012, para estimados 669.000, segundo pesquisas da Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias, a Samhsa, uma repartição do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país. O número anual de mortes por overdose atribuídas à heroína chegou a 3.094 em 2010 (ano mais recente para o qual há dados disponíveis), um aumento de 55% em relação a 2000, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças.

Ao contrário da invasão da heroína ocorrida entre o fim dos anos 60 e o começo dos 80, que se concentrou nos centros urbanos, a epidemia atual está se alastrando pelas cidades menores e pelas áreas rurais. Num evento realizado em janeiro no Instituto Nacional de Abuso de Drogas, 17 entre 20 pesquisadores de todo o país relataram que a heroína era o seu maior problema emergente, diz James Hall, um epidemiologista do Centro de Pesquisa Aplicada sobre Uso de Substâncias e Disparidades de Saúde da Universidade Nova Southeastern, em Miami.

“A heroína não tem nenhum tipo de fronteira geográfica ou demográfica”, disse Rusty Payne, um porta-voz da agência de combate às drogas dos EUA, a DEA, em Washington. “Ela atinge basicamente todos os segmentos da sociedade.”

Um fator importante por trás do retorno da heroína são os viciados em analgésicos narcóticos que mudaram para a heroína à medida que os remédios se tornaram “caros demais ou menos acessíveis”, diz Gil Kerlikowske, diretor do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas (ONDCP).

Cerca de 80% das pessoas que experimentam heroína pela primeira vez usaram analgésicos antes, segundo um relatório divulgado no ano passado pela Samhsa. Novos usuários geralmente começam fumando ou cheirando o pó da heroína e então passam para o uso intravenoso, o que acelera e aumenta a intensidade do estímulo.

Outro fator a considerar é que os produtores de heroína do México vêm ampliando sua produção nos últimos anos, dizem autoridades. Os traficantes estão cada vez mais distribuindo a heroína mexicana não apenas nas cidades do oeste dos EUA, onde a droga sempre esteve presente, mas também do leste, uma região antes dominada pela heroína colombiana.

As apreensões de heroína ao longo da fronteira entre EUA e México saltaram 232% entre 2008 e 2012, para 1.855 quilos, segundo dados da DEA.

A droga também está de modo geral se tornando mais potente, em parte devido a métodos de produção mais sofisticados, dizem autoridades.

Embora a heroína ainda seja misturada a outras substâncias antes de ser vendida nas ruas, os compradores geralmente obtêm um produto mais puro do que no passado, diz James Hunt, agente especial que dirige a divisão da DEA em Nova York. Enquanto a heroína dos anos 80 podia ter uma pureza de 5%, hoje não é incomum achar um papelote com uma droga 50% pura, o que a torna potencialmente letal, diz ele.

Além disso, a heroína é às vezes combinada com outras drogas perigosas, como o opioide sintético fentanil. Esta combinação está sendo responsabilizada pelo surto de mortes ocorrido nos últimos meses na costa leste dos EUA, incluindo 37 no Estado de Maryland e 22 na Pensilvânia.

Os usuários “pensam que estão recebendo uma dose normal de heroína”, diz Thomas Carr, diretor da Área de Tráfico de Drogas de Alta Intensidade na região de Washington e Baltimore. “Em vez disso, eles estão recebendo algo que poderia matar um cavalo.”

Os resultados da autópsia de Hoffman, realizada na segunda-feira, eram esperados a qualquer momento ontem. A polícia encontrou vários papelotes no seu apartamento em Nova York que continham o que parecia ser heroína.

O fornecimento de heroína em Nova York vem crescendo desde 2009, diz Bridget Brennan, uma promotora especial da cidade para a área de narcóticos. “Começamos a ver laboratórios que eram capazes de produzir centenas de milhares” de papelotes por dia, diz ela. A epidemia atual se equipara à dos anos 70 em dimensão, mas “a diferença é o novo usuário”, acrescenta. “Esse novo usuário tende a ser mais jovem e mais afluente.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)