Consumo de heroína aumenta nos Estados Unidos

O Globo
Papelotes são vendidos por até US$ 6 nas ruas de Nova York

Nas décadas de 1960 e 1970, ela chegou a ser considerada uma praga em Nova York. Foi até eternizada pela banda The Velvet Underground, na letra do recém-falecido Lou Reed, que cantava em “Heroin” sua experiência com a substância que lhe fazia sentir-se “como o filho de Jesus”. Mas, após anos esquecida, ultrapassada por analgésicos cada vez mais poderosos, a droga voltou. E em níveis epidêmicos não só em Nova York, mas em todo o território dos Estados Unidos. De acordo com a Autoridade de Repressão às Drogas (DEA, na sigla em inglês), o consumo de heroína cresceu 79% no país entre 2007 e 2012, com 669 mil pessoas tendo admitido o uso da substância.

O problema de saúde pública veio à tona no fim de semana, diante das suspeitas de que a heroína tenha matado o ator Philip Seymour Hoffman, de 46 anos, vencedor do Oscar por sua atuação como Truman Capote em 2005. O primeiro motivo para o aumento do consumo é econômico: trata-se de uma alternativa barata e acessível a analgésicos controlados, elaborados de materiais sintéticos derivados do ópio. Num país onde o vício em analgésicos é grande, um frasco de medicamentos opiáceos prescritos contra dores fortes, como o Oxycontin ou o Vicodin, altamente viciantes e que exigem receita médica, pode chegar a custar US$ 140 (cerca de R$ 340). Nas ruas de Nova York, porém, uma dose de heroína pode ser comprada por míseros US$ 6 em papelotes com nomes exóticos tipo “Ás de Espadas” e “Ás de Copas” – como os encontrados na casa do ator.

Os dados mais recentes da Administração do Serviço de Saúde Mental e Abuso de Substâncias dos EUA mostram que em 2011 pelo menos 178 mil americanos usaram heroína pela primeira vez. Não se sabe, porém, quanto disso é fruto de uma contradição política: nos últimos anos, governos estaduais têm feito esforços para reduzir o abuso de medicamentos controlados, impondo mais restrições à compra. Mas já há quem acredite que essas medidas possam estar contribuindo para o aumento do consumo da droga pura.

– Como as pessoas têm menos e menos acesso aos opiáceos prescritos, a heroína transformou-se na alternativa mais viável – afirmou Sharon Stancliff, diretora médica da ONG nova-iorquina Harm Reduction Coalition.

Usuários mais jovens

Outra razão alegada para a volta do entorpecente é simplesmente o aumento da produção de ópio no México – hoje o terceiro maior produtor do mundo atrás de Afeganistão e Mianmar – e a expansão da atividade dos narcotraficantes. Se, em 2008, a DEA registrou a apreensão de 558 quilos de heroína contrabandeados pela fronteira, esse número mais que triplicou em 2012, chegando a 1.885 quilos.

– O uso atingiu proporção epidêmica nos EUA – cravou o porta-voz da DEA, Rusty Payne.

A situação é alarmante. E é possível observar uma expansão do consumo – antes concentrado nas grandes cidades – a áreas rurais, principalmente por jovens adultos entre 18 e 29 anos, segundo o epidemiologista Jim Hall, da Universidade Nova Southeastern, na Flórida.

– Não víamos nada tão rápido assim desde a popularização da cocaína e do crack no meio dos anos 1980 – garantiu Hall.

A heroína é derivada da morfina e produzida a partir do ópio extraído da papoula. No ano passado, um estudo da DEA identificou uma alta incidência da substância pura disponível ao consumidor americano nas ruas. E o comércio é organizado: em Nova York, por exemplo, não faltam serviços de entrega e fábricas altamente organizadas em áreas de classe média como Riverdale, no Bronx, e Fort Lee, em Nova Jersey. É a cidade de Nova York, berço de modismos e tendências, que serve como termômetro para as autoridades. Ali, as mortes provocadas pela substância aumentaram 84% entre 2010 e 2012, quando foram registrados 382 óbitos. A apreensão também aumentou: 67% nos últimos quatro anos. Em 2012, o escritório nova-iorquino da DEA apreendeu 144 quilos de heroína, quase 20% do total no país, no valor de cerca de US$ 43 milhões. A ação mais recente, na semana passada, levou à incineração de 13 quilos de heroína, com valor de US$ 8 milhões, no Bronx.

Mas não é só Nova York. Autoridades de estados como Pensilvânia, Ohio e Vermont também têm registrado aumentos preocupantes. Neste último, a situação é tão grave que dominou o discurso anual sobre o estado, feito no mês passado pelo governador Peter Shumlin. Segundo ele, o uso de heroína cresceu 250% em Vermont desde 2000, sendo 40% somente no ano passado.

– O que começou como um problema de prescrição para drogas viciantes como Oxycontin transformou-se agora numa crise de heroína em larga escala – advertiu o governador.

Há quem diga que, na verdade, a heroína, que nos anos 1970 ajudou a difundir o vírus da Aids pelo compartilhamento de seringas, nunca se foi. Ela ressurge em ondas como a que agora vitimou Philip Seymour Hoffman e, no ano passado, matou outra estrela de Hollywood, Cory Monteith, da série de TV “Glee”.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)