Dependência de heroína cresce nos Estados Unidos

Paul H. Coleman passou mais de três décadas ajudando pessoas que sofrem de abuso de substâncias. Mas, nos últimos anos, ele e seus colegas da Maryhaven, um centro de tratamento, em Columbus, Ohio, começaram a observar algo sem precedentes: um número pequeno, mas persistente de pacientes adolescentes cheirando ou injetando heroína.

Os jovens são uma amostra perturbadora de uma tendência mais ampla. O centro atualmente está tratando mais viciados em heroína que em qualquer outro momento de sua história de 60 anos, disse Coleman, presidente-executivo da Maryhaven, uma mudança que ele atribui à abundante oferta da droga e às conseqüências não intencionais de uma repressão aos analgésicos prescritos.

“Você pode comprar uma dose de heroína por menos de um pack de cerveja no centro de Ohio”, disse ele.

A recente morte do ator Philip Seymour Hoffman de uma aparente overdose de heroína em seu apartamento de Nova York está chamando a atenção para um problema crescente em todo os Estados Unidos. Longe de ser uma droga do passado, o número de consumidores de heroína – e o número de pessoas morrendo de overdose – está em ascensão.

Quatro pessoas foram presas na terça-feira por terem conexão com as drogas encontradas no apartamento do Sr. Hoffman, onde policiais encontraram cerca de 50 envelopes de heroína, juntamente com seringas e medicamentos, de acordo com um relatório da CNN.

O número de usuários de heroína continua a ser inferior ao de substâncias ilícitas como a cocaína, mas os especialistas estão particularmente preocupados com a velocidade do aumento nos últimos anos. Um estudo realizado por um ramo do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos descobriu que 669 mil pessoas usaram heroína em 2012, contra 373.000 em 2007.

No mês passado, Peter Shumlin, governador de Vermont, usou um discurso anual para destacar o que chamou de uma “crise de heroína” em seu estado. Desde 2000, o número de pessoas que recebem tratamento para a heroína mais do que triplicou, observou ele, com o maior aumento ocorrido ao longo de 2013. No ano passado, o número de mortes por overdose de heroína em Vermont dobrou em relação a 2012. Shumlin pediu mais recursos para o tratamento, a aplicação da lei e a prevenção.

Um fenômeno particularmente perigoso tem sido o surgimento de heroína misturada com fentanil, um poderoso analgésico e anestésico. A combinação foi associada a mais de 50 mortes nos últimos meses em estados de Pensilvânia a Michigan.

Para Jim Hall, epidemiologista de Fort Lauderdale, na Flórida, o rápido aumento no número de mortes por overdose de heroína lembra o início do mal do crack na década de 1980. Entre 2011 e 2012, disse ele, as mortes por heroína quase dobraram na Flórida.

“A rápida escalada satisfaz os critérios de uma epidemia”, disse Hall, que realiza pesquisas sobre abuso de substâncias na Universidade de Nova Southeastern. “Tragicamente, vai ficar pior antes de melhorar”.

No mês passado, ele participou de um painel que ocorre duas vezes ao ano por convocação do Instituto Nacional de Toxicodependência, um ramo do governo dos Estados Unidos. Dezessete das 20 cidades e estados representados no painel identificaram níveis mais elevados de consumo de heroína como seu principal problema emergente nos seis meses anteriores, disse Hall.

Um possível fator impulsionando o ressurgimento do consumo de heroína é a recente repressão sobre o uso ilegal de drogas prescritas, como OxyContin. Os fabricantes de medicamentos têm tornado difícil o abuso desses medicamentos – por meio de cartelas invioláveis​, por exemplo – enquanto as autoridades fecharam os chamados “moinhos de pílulas”, clínicas onde os médicos livremente prescreviam analgésicos poderosos, sob justificativas questionáveis. E, como o fornecimento ilícito de tais medicamentos diminuiu, seu preço aumentou.

“Parabéns aos policias por terem reprimido os moinhos de pílula, mas é quase como se no momento em que você acabasse com o uso em um lugar, ele surgisse em outro”, disse Stephen Chabot, diretor médico do Portal Saúde, um centro de tratamento de abuso de substâncias em Rhode Island. Agora, ele diz, ele encontra “pessoas que nunca esperaria ver colocando uma agulha em seus braços ou fumando e cheirando heroína” que estão fazendo exatamente isso.

Heroína e OxyContin são as duas substâncias opióides que atingem os mesmos receptores no cérebro, tornando-as altamente aptas à dependência. Um estudo recente do governo descobriu que 80 por cento dos indivíduos que relataram terem começado a usar heroína no ano passado tinham abusado anteriormente de medicamentos prescritos para a dor.

Marc Fishman, professor assistente da Universidade Johns Hopkins e médico-diretor no Centro de Tratamento de Maryland, disse que a heroína agora disponível é muito mais pura do que a versão que prevaleceu há várias décadas, o que significa que os usuários podem começar a cheirar a droga, em vez de injetá-la. A heroína também é barata, em torno de U$ 6,00 a dose.

“Tentamos fazer um bom trabalho ao restringir o acesso das pessoas aos opióides de prescrição, mas podemos conduzir as pessoas à heroína, que é mais barata e mais potente”, disse Fishman. Os casos de dependência ou overdoses de celebridades podem chamar a atenção necessária para o abuso de heroína, acrescentou. “É triste que, no meio, muitas pessoas anônimas, especialmente as crianças, estejam morrendo. Se isso chamar a atenção e introduzir o debate na consciência nacional, então isso será positivo”.
Autor:
OBID Fonte: Traduzido de The Globe and Mail