Entrevista com Arthur Guerra de Andrade – A ciência de tratar o alcoolismo –

A notícia de que houve um declínio na dependência de bebidas alcoólicas entre os homens no período de 2006 a 2012, além da manutenção da taxa de abstêmios no mesmo espaço de tempo é animadora. Por outro lado, a fonte dessas informações, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II LENAD) revelou que o beber pesado episódico (BPE) aumentou em mais de 10% entre as mulheres.

Dados do Ministério da Saúde mostram ainda que o BPE é frequente entre os jovens, homens e pessoas com maior grau de escolaridade. “Isso equivale a um consumo de cinco ou mais doses (homens) ou quatro ou mais doses (mulheres), em um período de 2 horas”, explica o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, presidente executivo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), organização que divulga informações sobre o tema.

“Resultados do estudo denominado São Paulo Megacity, que avaliou uma amostra de 5.037 adultos da região metropolitana, indicaram que 9% dos entrevistados apresentaram diagnóstico de abuso de álcool, o que corresponde a 1,8 milhão de pessoas”, completa o especialista. Tal quadro relaciona-se a graves problemas de ordem social, no trabalho ou familiar. Segundo o especialista, a maioria dessas pessoas desenvolveu o abuso antes dos 24 anos de idade.

Embora a dependência seja considerada uma doença crônica e o avanço científico seja um aliado, o médico diz que o maior desafio é adequar o tratamento, possível e multidisciplinar, às características pessoais, aos problemas de ordem emocional, física ou interpessoal, além das quantidades ingeridas. Veja a seguir a entrevista exclusiva que Andrade concedeu sobre o tema à VivaSaúde:

Como definir o problema?

É uma doença crônica influenciada por fatores genéticos, psicossociais e ambientais. De acordo com a 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS), ela se caracteriza como um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após o uso repetido de álcool.

Quais sinais o evidenciam?

Forte desejo de beber, dificuldade de controlar o consumo, uso continuado apesar das consequências negativas, prioridade da substância em detrimento de outras atividades e obrigações, e aumento da tolerância. Além disso, o estado de abstinência física: sudorese, tremedeira e ansiedade.

Dá para reconhecê-los em si?

Diversos questionários ajudam a rastrear os sintomas. Por exemplo: “Você já pensou que deveria diminuir seu consumo? Já foi criticado por causa da bebida? Já se sentiu mal ou culpado por beber? Ao acordar, a primeira coisa que fez foi beber para se sentir bem?”. Mais de um “sim” a essas questões revela problemas e um psiquiatra deve ser procurado. Mesmo que as respostas sejam negativas, a ajuda especializada é essencial nas situações em que o álcool esteja afetando a saúde física e/ou rotina, as funções acadêmicas e/ou profissionais, e a vida pessoal.

O diagnóstico é clínico?

Este é o primeiro passo para um tratamento adequado. Mas essa tarefa pode ser complicada devido a uma série de obstáculos. Para superá-los, foram idealizadas ferramentas que permitem identificar esses pacientes. Entre elas, destaco os marcadores biológicos – indicadores fisiológicos da exposição ou ingestão do álcool. Junto aos autorrelatos dos pacientes e informações obtidas durante a consulta, auxiliam no diagnóstico de problemas decorrentes do uso dessa substância. Tais marcadores podem indicar danos fisiológicos decorrentes do uso crônico ou consumo de grandes volumes. Exames laboratoriais são úteis, como a ultrassonografia abdominal que mostra sinais de acúmulo de gordura no fígado, hepatite ou cirrose alcoólica, entre outros.

A ciência facilitou o tratamento?

O tratamento nunca é padronizado e deve ser adequado e readequado às particularidades de cada um, atendendo às mudanças posteriores. As terapias requerem a atuação multidisciplinar e podem contar com o apoio de grupos de autoajuda (Alcoólicos Anônimos) e comunidades terapêuticas. Medicamentos podem ajudar a diminuir a vontade de beber. E novas abordagens complementam modalidades já consolidadas, como a prática de atividades físicas, treinos de respiração e meditação (mindfullness). Fármacos como o nalmefeno, que diminui os efeitos positivos e prazerosos do álcool, levaram à redução de 60% do consumo da substância em dependentes com consumo de alto risco.

Onde buscar ajuda?

Nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad). Outras instituições prestam atendimento especializado nos ambulatórios de hospitais. Já a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) disponibiliza uma central telefônica, gratuita e aberta à população, disponibilizando informações sobre álcool e outras drogas. Basta ligar no VIVA VOZ -132.
Entrevista à Revista VivaSaúde (edição de fevereiro de 2014)
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool